Marvel rompe com o Código de Ética

Por Sérgio Codespoti
Data: 25 maio, 2001

X-Force #116Não chega a ser uma novidade. A Marvel estava mesmo disposta a romper com o Selo do Código de Ética americano (Comics Code Authority), uma espécie de órgão de censura dos quadrinhos. A idéia começou a ganhar força quando pediram à editora várias modificações em X-Force #116.

Agora, a Marvel confirmou que não se submeterá mais ao órgão. Eles criarão um sistema interno de classificação.

“A Marvel decidiu dar um passo à frente, e instituir um guia interno para nossas revistas”, disse Bill Jemas, presidente da Marvel. “Nossos títulos continuarão satisfazendo os leitores de todas as idades, mas estamos crescendo e, no futuro, as revistas que são direcionadas especificamente para adolescentes e adultos serão classificadas adequadamente”.

Segundo ele, a editora analisou profundamente os 50 anos de vida do selo e concluiu que, atualmente, da maneira que ele é administrado, é inapropriado para os consumidores, lojistas e para o mercado do século XXI. O objetivo será dar total liberdade criativa aos artistas, o que já vem acontecendo com a linha Ultimate Marvel, e se repetirá com a futura linha de quadrinhos adultos da editora. “Em setembro, estaremos lançando quadrinhos adultos, e queremos classificar essas revistas para leitores maduros, e não para jovens adolescentes ou crianças”.

O Comics Code Authority analisa todas as revistas, e coloca o seu selo na capa de cada uma delas. Se achar que algo não está “correto” (pode ser de uma palavra até uma situação na história), ele pede mudanças às editoras, para o título poder ser publicado.

“Isso que vou falar é uma declaração pessoal. Sinto que esse sistema está errado, pois dá a entender que, se uma revista não apresenta o selo em sua capa, significa que algo está errado”, conta Jemas. “Isso é besteira! E esse tipo de coisa tem prejudicado o mercado há 50 anos. Se formos em outros países do mundo, onde não existe um órgão como esse, os quadrinhos se transformaram numa mídia significante e interessante, com uma tremenda liberdade criativa e grande variedade de títulos”, explica.

Bill Jemas ainda usou como exemplo as séries do Demolidor e do Justiceiro, que antes vendiam muito pouco (ou tinham sido canceladas) e hoje são sucesso de vendas. Ambas com problemas com o selo, na época de seus lançamentos.

A CMAA – Comics Magazine Association of America, organização a qual pertence o Comics Code Authority, disse que continua aberta para todas as editoras que desejarem participar, e que vai continuar bem sem a Marvel, apesar de estar desapontada com a decisão.

Comics Code Authority Marvel vs Comics Code Authority

Michael Silberkleit, da Archie Comics e do CMAA, não gostou da decisão. “Isso pode afetar todo o mercado. Existem bancas e lojas que se recusam a vender revistas que não possuem o selo. A Marvel deveria ter se sentado com todos nós, e trabalhado num novo sistema”, afirmou.

Ele ainda acha que o selo é vital (mesmo nos dias de hoje) para evitar a intervenção do governo. “Eles não têm a menor idéia de como era na década de 50. As bancas devolviam caixas de revistas fechadas porque tinham medo do governo. O selo salvou a indústria”, enfatizou.

A DC Comics ainda não demonstrou interesse em seguir a Marvel.

Alguns artistas também comentaram a novidade. Mark Waid disse: “Não acho que isso signifique, necessariamente, mais liberdade criativa. Tudo ainda depende das editoras, que seguram as rédeas de acordo com suas prerrogativas. Mas, da maneira que o Código é, eu estou emocionado com a atitude de Bill Jemas e Joe Quesada de nos tirar dessa miséria. Por anos, o selo estava obsoleto, e não significava nada fora dos corredores editoriais. Todo civil sabe o que é a MPAA – Motion Pictures Association of America, mas nenhum pai sabe o que é o Comics Code. Além disso, é bom lembrar que o selo foi criado por um bando de editores repugnantes e oportunistas para tirar a EC Comics do mercado. E não só poderei ajudar, como dançarei sobre o túmulo do selo”.

Chuck Dixon, Paul Jenkins e Joe Casey disseram que não mudarão a maneira como escrevem, porque nunca levaram o Comics Code em consideração na hora de fazer uma história. Já Darick Robertson declarou ser um passo na direção certa, e que o selo sempre foi uma piada.

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