Formatinho ou formato americano: qual o tamanho ideal para um bom gibi de super-herói?

Por Marcus Ramone
Data: 12 março, 2015

Uma rua no centro da minha cidade é repleta se alfarrábios. É um ao lado do outro, com coleções imensas de gibis antigos para vender.

Nesse paraíso que costumo frequentar regularmente (e não deveria, pois fico comprando pilhas de gibis que vão levar uma década para serem todos lidos), há muito tempo notei que faz anos que centenas de formatinhos da Marvel e da DC, a maioria da década de 1990 (o que tem de Capitão América é um absurdo!), estão lá, coitados, totalmente ignorados. Ninguém quer, ninguém compra. E só resta aos donos dos sebos a rotina de tirar a poeira das capas.

Para confirmar, certa vez perguntei a dois dos proprietários dos alfarrábios se aqueles formatinhos eram de estoque antigo ou renovado. Eles disseram que eram muito antigos e que fazia tempo que não adquiriam mais daquilo para revender, embora aparecessem muitos colecionadores querendo se desfazer dessas coleções. “Pode vir oferecendo mil gibis desses por um real que eu não compro”, exagerou um dos alfarrabistas. “Só vão tomar espaço dos gibis grandões, que vendem mais”, disse o outro, comentando sobre o formato americano e maiores, que têm uma boa saída.

Não sei se isso acontece em outras cidades deste imenso Brasil, mas fico intrigado com essa aversão que muitos leitores parecem ter adquirido contra os gibis de super-heróis em formatinho, desde que o formato americano veio para ficar de vez no mercado brasileiro, graças à Panini. Quem tem, quer se desfazer; quem não tem, passa longe de querer comprar.

Super-Homem # 1, da Editora Abril Superaventuras Marvel # 1

Sim, realmente sinto falta do bom e velho formatinho para os quadrinhos de super-heróis.

Saudosismo? Memória afetiva? Falta de senso de ridículo? Talvez tudo isso seja o motivo da minha saudade dos gibis de Batman, Homem-Aranha, Superman e tantos outros no pequeno formato que me acompanhou durante a infância, adolescência e uma parte da vida adulta.

Houve muitos formatos de gibis na história dos quadrinhos no Brasil. Tabloide, magazine e outros de tamanho intermediário, até que o formatinho chegou chutando portas e se instalou nas bancas sem deixar espaço para mais nenhum gibi maior do que ele, durante algumas décadas. E os super-heróis fizeram parte dessa jornada.

Já me disseram que essa discussão é totalmente descabida, hoje em dia. Pode ser, mas foi no formatinho que vi as melhores fases da Marvel e da DC, nas décadas de 1970 e 1980. Desde a Saga do Clone original, passando pela morte de Gwen Stacy, a viagem de Arqueiro Verde e Lanterna Verde pelos Estados Unidos, até a Crise nas Infinitas Terras (a que realmente vale a pena lembrar, dentre todas as Crises), a Saga de Thanos e os saudosos Rom e Esquadrão Atari, só para citar uma pequena lista de grandes momentos dos quadrinhos de super-heróis.

Thundercats # 1 Grandes Heróis Marvel # 1 - Os Vingadores

Sem falar no nascimento dos gêmeos herdeiros do atual Fantasma; Mandrake em O Mundo dos Espelhos; a obra-prima El Muerto, de Tex; a Odisseia Americana, do Zagor; Thundercats em sua melhor adaptação para os quadrinhos, ainda na década de 1980; a inesquecível primeira incursão dos Transformers nas HQs; e mais uma enorme gama de exemplos que invadem minhas lembranças. E o que dizer de títulos clássicos como Heróis da TV, Superaventuras Marvel e Heróis em Ação, que apresentaram tantos grandes personagens ao público brasileiro?

Nada disso perdeu a magia e o impacto visual ou deixou de ficar marcado no coração dos leitores por causa da publicação em formatinho.

Não estou pregando uma nova revolução dos formatinhos no Brasil e a extinção do formato americano, mas pura e simplesmente um convivência amistosa com aquele tamanho reduzido e não menos simpático, que faz parte da longa e rica história dos gibis no País – até porque os quadrinhos infantis continuam fiéis ao formatinho.

Essa coexistência pacífica, em minha opinião, foi perfeita nos anos 1990, quando a Editora Abril conferia apenas  às minisséries e edições especiais de super-heróis a publicação em “formatão”.

Bem, está reaberta a discussão. Se não para os que acham que não vale mais a pena tocar nesse assunto, ao menos para aqueles que desejam resgatar bons momentos das leituras dos saudosos gibis de super-heróis em formatinho.

Os Bebês do Fantasma Heróis da TV # 4

• Outros artigos escritos por

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  • Deco

    W. Santos concordo plenamente com tudo que você postou.
    Só faço uma ressalva, será que essa nossa nostalgia não é na verdade uma saudade da infância.
    Hoje com tantos livros pra ler ( faço história tardiamente na uffrj) as pilhas de gibis se acumulam sem que eu tenha tempo de lê-los.
    Bate uma saudade da infância, quando eu devorava formatinhos o dia inteiro.

  • Meu Deus, ainda discutem isso.

    Formatinhos são quadrinhos violados, adulterados e desrespeitados.

  • o titulo da matéria fala de quadrinhos de SUPER HERÓIS.

  • Rodolfo Bonamigo

    Dados para nerds, talvez? Por quantos anos o formatinho foi impresso, quais suas dimensões médias, e tipo de papel? Qual o ano de estréia dos formatões, quais suas dimensões e tipo de papel? A impressão de formatinhos foi descontinuada? Hipoteticamente, a era dos formatinhos, considerando o aproveitamento de papel não foi mais lucrativa, não se vendeu mais gibi nesse fase, do que os titulos que são vendidos hoje? Não é uma geração maior, só que mais pobre? Só sei que nada sei.

  • Jonas Lobato

    “A Ebal também tinha um papel melhor, mas as cores ou eram suprimidas ou era utilizada uma paleta carnavalesca como a da Bloch, ou as cores eram aplicadas fora dos desenhos, ou as cores mudava ao longo de uma mesma história e assim ia.”

    Meu Deus, não diga bobagens. A EBAL, quando publicava formatinhos, reproduzia os mesmos “filmes” dos quadrinhos americanos, sem tirar nem pôr – apenas traduziam os diálogos e pronto.
    Quem usava uma paleta de cores berrantes era a saudosa Bloch.

  • Melhor chamar um Especialista

    Bem, no momento tenho 15 anos, então não pude aproveitar todo esse negócio do formatinho, mas sempre fui fascinado em Super Heróis e comecei a ler quadrinhos a alguns anos atras, comecei lendo pela internet, aí li alguns clássicos tipo Homem Aranha, XMEN, etc., e posso dizer que realmente os quadrinhos atuais não tem mais tanta imersão quando os de 60-90’s. Claro que se salva alguns, mas não muitos, principalmente a Marvel que caiu o nivel drasticamente e estão querendo conectar todos os quadrinhos com o filme

  • Aprendemos a amar o formatinho, mas precisamos ter cuidado com o preciosismo porque sabemos bem que as histórias perdiam qualidade visual e textual devido à redução da arte.

    Pessoalmente eu ainda tenho vontade de completar minha coleção de WOLVERINE e SUPERBOY da Abril Jovem… Além de encontrar outras séries excelentes como CONAN REI. Mas vamos dar a César o que é de César, o formato prejudicava as obras originais.

    Outra coisa que precisamos atentar à adoração do formatinho além da nostalgia pode ser as próprias histórias publicadas na época: muitos grandes artistas foram apresentados aos brasileiros através do formatinho, como John Byrne, Allan Davis, Mark Silvestri, Todd McFarlane, etc.

    Acredito que o formatinho bem podia ganhar uma valorizada e ser resgatado por artistas nacionais. Iria ser ótimo!