Alice no País das Maravilhas – Obra completa

Por Audaci Junior
Data: 13 março, 2015

Alice no País das Maravilhas – Obra completaEditora: Mythos – Edição especial

Autores: Leah Moore e John Reppion (roteiro), Erica Awano (arte) e PC Siqueira com Ale Starling e Jezreel Rojales (cores) – Originalmente em The Complete Alice in Wonderland # 1-4 (Tradução de Edu Tanaka e Helcio de Carvalho).

Preço: R$ 59,90

Número de páginas: 184

Data de lançamento: Janeiro de 2015

Sinopse

Adaptação das duas obras mais famosas do britânico Lewis Carroll (1832-1898): Alice do País das Maravilhas e Alice através do espelho, lançadas em 1865 e em 1871, respectivamente. A versão em quadrinhos também traz o capítulo perdido A vespa de peruca.

Positivo/Negativo

Muitos conhecem o País das Maravilhas pelo igualmente famoso longa-metragem animado da Disney, lançado no começo dos anos 1950, ou até mesmo pela adaptação de 2010, em live action, promovida pelo diretor Tim Burton, na qual a personagem já adolescente revisita a fábula de Carroll.

Alice no País das Maravilhas teve uma série de publicações inspiradas ou adaptadas para os quadrinhos. Para ficar apenas em alguns exemplos, na época em que o filme de Tim Burton chegava aos cinemas do Brasil, a New Pop lançou uma versão mangá por Sakura Kinoshita e a HQM editou o menos famoso Alice através dos espelhos, na visão de Kyle Baker para o selo Classics Illustrated.

Bem fiel ao texto original, a filha de Alan Moore, Leah, e seu marido John Reppion preservam o tom da teimosa jovem nobre cheia de opinião que persegue o Coelho Branco até a sua toca para adentrar no universo de seres antropomórficos e lógicas absurdas.

Interessante notar as diferenças de uma narrativa para a outra. Ambas divididas em duas partes, Alice no País das Maravilhas é mais fluída, com personagens conhecidos do público, como a Rainha de Copas, o Chapeleiro Louco (aqui parecido com o roqueiro Iggy Pop), a Lagarta e o risonho Gato de Cheshire.

Já as criaturas presentes em Alice através do espelho são mais obscuras e as passagens com poemas mais longas.

Os dois escritores ingleses conseguem reter os valores apontados por Carroll, como o conteúdo político, a crítica às mudanças no ensino da matemática na época (o romancista também era matemático), e a petulância da protagonista, uma qualidade (ou defeito?) que pode naturalmente ser inerente a qualquer outra criança da mesma idade.

Conhecida pela série Holy Avenger (que está saindo em edições definitivas pela Jambô), Erica Awano afasta mais o seu belo traço do seu estilo mangá para “casar” com a proposta de fidelidade da obra.

Com uma paleta de cores “vitorianas”, que lembram o responsável pela identidade visual de Alice que é citado até hoje, sir John Tenniel, Awano busca boas soluções narrativas para dar ritmo ao enredo sem se tornar pedante.

A curiosidade na equipe criativa é a presença do ex-VJ da MTV PC Siqueira nas cores da maioria dos capítulos. Seus matizes dão o clima sombrio e o tom de aquarela complementa os desenhos mais limpos de Awano.

Um capítulo à parte desta fiel adaptação é o trecho A Vespa de peruca, do segundo livro. Tido como “perdido” há mais de um século, essa passagem foi retirada do original por Carroll. Segundo explicação nos extras do volume, ela foi redescoberta em 1974, quando provas tipográficas foram leiloadas em Londres e posteriormente autenticadas por Martin Gardner, autor de The Annotated Alice.

O mais provável para a retirada do capítulo foi o descontentamento do consagrado ilustrador original da série, John Tenniel, que chegou a escrever ao amigo justificando que não enxergava um caminho para a imagem.

Dentre as hipóteses levantadas pelo casal de roteiristas, o ilustrador teria se ofendido com um comentário da Vespa, no qual a criatura fala que apenas um olho bastava para a jovem Alice. Tenniel também só tinha um.

Além do texto explicativo do resgate, o material extra no final do álbum disponibiliza a prosa na íntegra do capítulo perdido de Através do espelho, quatro poemas seletos de Lewis Carroll, uma entrevista com Leah e Reppion e uma amostra do processo criativo com alguns exemplos de páginas roteirizadas com seus respectivos leiautes, arte-final e aplicação de cores.

Complementam o volume as capas de Erica Awano e a arte de John Cassaday (Planetary) produzida originalmente para o número de estreia.

A edição da Mythos tem a mesma qualidade dada aos outros materiais da Dynamite Entertainment: capa dura, formato 17 x 26 cm e boa impressão em papel couché, apesar das páginas parecerem um pouco “escuras”.

Mesmo tendo quase 60 páginas a mais que Vampirella – Grandes mestres, outro álbum lançado ao mesmo tempo pela editora e com as mesmas características físicas, o valor de ambos é o mesmo.

Pela série dos clássicos literários adaptados da Dynamite, Leah Moore e John Reppion também roteirizaram a versão de Drácula (com arte de Colton Worley) e duas protagonizadas pelo detetive Sherlock Holmes (desenhado por Aaron Campbell e Matt Triano, respectivamente).

Classificação

4,5

• Outros artigos escritos por

.

.

.