Angola Janga – Uma história de Palmares

Por Audaci Junior
Data: 29 março, 2018

Angola Janga – Uma história de PalmaresEditora: Veneta – Edição especial

Autor: Marcelo D’Salete (roteiro e arte).

Preço: R$ 89,90

Número de páginas: 432

Data de lançamento: Novembro de 2018

Sinopse

Angola Janga, “pequena Angola” ou, como dizem os livros de História, Palmares. Por mais de cem anos, foi como um reino africano dentro da América do Sul. E, apesar do nome, não tão pequeno: Macaco, a capital de Angola Janga, tinha população equivalente às das maiores cidades brasileiras da época.

Formada no fim do Século 16, em Pernambuco, a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, Angola Janga cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Tornou-se o grande alvo do ódio dos colonizadores e um símbolo de liberdade para os escravizados. Seu maior líder, Zumbi, virou lenda e inspirou a criação do Dia da Consciência Negra.

Positivo/Negativo

Teoricamente, foram três séculos de escravidão africana no Brasil, um dos últimos países a “abolir” tal regime social de sujeição do negro e exploração da sua força para fins econômicos, como propriedade privada do branco colonizador.

Essa situação repressora e preconceituosa enraizou como erva daninha e ainda pode-se testemunhar as sequelas na sociedade atualmente, por meio de uma série de fatores, dentre eles, a questão da educação.

O abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910) chegou a afirmar que seria preciso sanar, por meio de uma educação viril e séria, essa estagnação de despotismo, superstição e ignorância. Infelizmente, a morosidade também foi refletida na maioria dos livros “assépticos” e distantes da realidade na formação dos brasileiros.

Dito isso, há de se sinalizar a importância de Angola Janga para ser a disseminadora de uma janela vista muitas vezes entreaberta nos ensinamentos. Não como uma “muleta” ou uma “verdade absoluta” (tanto que o subtítulo é “Uma” história de Palmares), mas como uma interpretação baseada em uma pesquisa extensa e minuciosa de 11 anos feita pelo seu autor, Marcelo D’Salete.

E bem longe de ser chata ou pedante, muito pelo contrário. Ao falar da resistência de Palmares – não só como uma “fortaleza” física, mas também como um ideal –, o quadrinhista não perde tempo com uma narrativa truncada ou carregando no didatismo fácil da esmagadora maioria das HQs baseadas em fatos históricos.

No ritmo de uma aventura, D’Salete compõe momentos reflexivos até na “grade” fixa de 9 ou 12 quadros em algumas páginas. Ali, na diagramação, se encontra o cárcere invisível da alusão ao momento. A própria história em quadrinhos servindo de metalinguagem.

Ao mesmo tempo, existe a liberdade poética carregada de simbolismos, algo já visto em Cumbe, uma espécie de ensaio desta nova obra de fôlego, com mais de 400 páginas.

Interessante avaliar que personagens importantes não são romantizados ou elevados a um status “mitológico”, a exemplos de Ganga Zumba (1630-1678) e Zumbi (1655-1695). São líderes fortes, porém humanos, falhos, cada qual com sua personalidade definida e bem distantes daqueles conceitos vazios e céleres de alguns livros didáticos de História.

Destaque também para os “coadjuvantes dos coadjuvantes” desses livros escolares, como Antônio Soares, braço-direito de Zumbi e que tem um papel mais efetivo no álbum. Sem se atrapalhar com a alternância narrativa, o autor revela motivos e trabalha elementos que ajudam a edificar esses personagens.

O papel da Igreja também é posicionado na visão do autor, em muitos momentos com passividade com relação à defesa do “cristão”, que muitas vezes se cansa de “oferecer a outra face” ou tem a alforria apenas no papel.

Acompanhando a narrativa, a arte é igualmente dinâmica, apesar de ter uma ou outra desproporção ou “engessamento”. D’Salete estendeu a sua pesquisa iconográfica por retratos feitos por nomes como Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1610-1665), que estiveram na região pernambucana no Século 17.

Há duas passagens que chegam a incomodar: uma coincidência praticamente impossível de se livrar de amarras em uma corrida e a outra, na verdade, não deixa tão claro o quanto foi sutil ou ardilosa a estratégia da construção de uma cerca bem debaixo do nariz das torres de vigilância do quilombo.

Com excelente revisão, a edição da Veneta tem capa dura, formato 23,2 x 15,8 cm, papel pólen e extras como bibliografia, cartografia, cronologia de Palmares e um glossário, no qual sabemos a origem de termos tão regionais como cafundó, arraial e brenhas.

O projeto foi contemplado pelo ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura de São Paulo para criação de quadrinhos. Recentemente, a obra ganhou o Grampo de Ouro de Melhor do Ano, premiação promovida pelos sites Vitralizado e Balbúrdia.

Ganhando o mundo, o álbum terá edições na França, Alemanha, Portugal e Polônia, além de uma publicação norte-americana pela Fantagraphics.

Angola Janga é uma forma de fortalecer a identidade não só àquelas pessoas do passado, mas aos brasileiros de hoje que lutam pelos seus direitos e pelo respeito diante desse sempre visível apartheid moderno.

Por mais batido que seja o conceito de compreender o presente, deve-se olhar para o retrovisor do passado. A obra vem para somar ao debate e à discussão sobre a diversidade e herança nacional, atentando sempre pelo “pé atrás” na História julgada como verdadeira – como dizia o pensamento atribuído ao escritor britânico George Orwell (1903-1950) – aquela “escrita pelos vencedores”.

Classificação

4,5

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