Blood – Uma História de Sangue

Por Audaci Junior
Data: 24 dezembro, 2018

Blood – Uma História de SangueEditora: Pipoca & Nanquim – Edição especial

Autores: J. M. DeMatteis (roteiro) e Kent Williams (arte) – Originalmente em Blood – A tale (tradução de Bernardo Santana).

Preço: R$ 59,90

Número de páginas: 200

Data de lançamento: Agosto de 2018

Sinopse

Um bebê é encontrado por uma jovem em um rio e criado até o início da idade adulta, quando é deixado aos cuidados do monastério, para ser iniciado nos ensinamentos de Deus.

Quando o rapaz descobre que não é a mão divina que escreve os livros que regem sua doutrina, mas sim a de seu mentor, ele se sente traído e parte. Mas não sem antes assassinar o homem, em um acesso de fúria.

Sem rumo certo, ele dá início a uma jornada de autoconhecimento, até se deparar com uma tribo de vampiros em uma floresta que, contra a sua vontade, o transforma em um deles. Nesse dia nasce Blood, o vampiro.

Positivo/Negativo

Na introdução escrita exclusivamente para esta edição brasileira, J.M. DeMatteis revela como foi o processo criativo de fazer Blood nos anos 1980. Era como se o seu inconsciente tomasse conta de seus atos e o “cavalo selvagem”, que é a história, galopava sozinha, sem a construção racional.

Nem todos vão apreciar essa jornada de autoconhecimento na qual o personagem se transforma no que sempre foi. A trama invoca o conceito do ouroboros, personificado na figura de uma serpente que engole a própria cauda, formando um círculo que simboliza muitos significados, dentre eles o ciclo da vida, a evolução, o infinito, o nascimento, a morte e a ressurreição.

Com paralelos bíblicos, a serpente pode estar associada tanto ao conhecimento do bem e do mal, quanto à tentação. Do mesmo jeito que poderá ser incorporada ao sentido de sabedoria em várias culturas pré-cristãs.

O autor usa à sua maneira o sentido de mudança por meio da mitologia (própria) do vampiro, aplicando conceitos básicos de doação e alma à manifestação divina.

Essas questões mais filosóficas e espirituais são limadas a princípio quando o jovem Blood está em um controlador monastério. Após a “revelação”, ele parte para encontrar algo que perdeu, mas que só saberá de fato quando achar.

Nem sempre todos os simbolismos da obra podem ser digeridos pelo leitor, o que pode tornar a leitura enfadonha ou até confusa, reforçando que poderá não conquistar a simpatia dos que não se sentirem desafiados.

Como se usassem partes de uma criatura do Frankenstein, os autores passeiam por diversos gêneros, se firmando apenas no insólito. Há romance, terror, nonsense, comicidade e drama, tudo de maneira a causar estranheza e excentricidade.

Tirando alguns cenários, como a Ilha dos Mortos, perceba como DeMatteis se concentra na figura do protagonista e dos seus coadjuvantes – a mulher sem nome e o estranho Pequenino, que também são usados como arquétipos (inclusive bíblicos) na sua busca pelo desconhecido.

“Obviedade” não é a palavra de ordem no enredo de Blood, mas, no fundo, a história acaba sendo simples na estruturação de criação, destruição e renovação. O “cavalo selvagem” do inconsciente do roteirista oferece uma guinada inusitada na terceira parte, por exemplo, porém se mantém no galope da mesma coerência.

Não teria um artista melhor do que Kent Williams para externar essa inquietude do personagem principal. Mais conhecido por fazer um dos melhores conceitos visuais do mutante Logan em Wolverine e Destrutor – Fusão (Abril, 1989) e dar uma força ao amigo Jon J. Muth (parceiro de Fusão) na reta final da saga Moonshadow (Globo, 1990-91), ele usa e abusa do abstracionismo narrativo que o roteiro exige.

Fora isso, o escritor na sua introdução explica como funcionava a construção e convenções narrativas com Williams, quase como uma espécie de “Método Marvel” assinado por Moebius (1938-2012).

Interessante perceber como DeMatteis consegue se moldar às narrativas mais tradicionais (como em A última caçada de Kraven e sua coautoria na Liga da Justiça Internacional) e ser mais ousado (e pretensioso, por que não?) em projetos como Doutor Estranho – Shamballa ou o próprio Moonshadow.

No Brasil, Blood foi lançado como minissérie em quatro partes pela Abril, no final de 1990 e começo de 1991. Nesse mesmo ano, a editora publicou um encadernado em capa cartonada (que, curiosamente, foi resenhado no Universo HQ por Bruno Zago, um dos proprietários da Pipoca & Nanquim), compilando o que encalhou nas bancas.

Diferente da impressão daquela época, o álbum da Pipoca e Nanquim traz novas nuances para as pinceladas de Williams, revelando detalhes e texturas não percebidas anteriormente. Há também um trabalho mais próximo ao original no quesito da edição do texto nos recordatórios vazados na própria arte.

O volume possui capa dura, com aplique de verniz, formato 17 x 26 cm, miolo em papel couché brilhoso e com alta gramatura. Além da supracitada introdução exclusiva do roteirista, ainda traz biografia dos criadores e uma galeria de capas, tanto do selo Epic da Marvel (editora na qual foi originalmente lançada, em 1987), quanto da Vertigo/DC, publicada em 1996.

No final (ou começo) das contas, a fábula apresentada em Blood – com suas facetas que vão do tom literário de prosa ilustrada até belas imagens hiper-realistas e surreais – percorre o corpo do arquétipo da serpente para mostrar que podemos nos tornar algo que sempre fomos.

Quando se chega ao que se achava ser o “fim” de uma jornada de autodescoberta, conquista-se a sensação de que a escultura sempre esteve presente na pedra bruta antes mesmo da primeira intervenção do artista.

Classificação:

4,5

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  • Manoel Jr

    Baita coincidência.

    Li hoje numa tacada só.

    Agora lerei a resenha pra dar uma olhada pontual em certas páginas.