Cidade de Vidro de Paul Auster

Por Diego Figueira
Data: 21 maio, 2007

Cidade de Vidro de Paul AusterEditora: Via Lettera – Edição especial

Autores: Paul Karasik e David Mazzucchelli (roteiro), David Mazzucchelli e Art Spiegelman (desenhos).

Preço: R$ 32,00

Número de páginas: 132

Data de lançamento: Maio de 1998

Sinopse

Quinn escreve romances de mistério sob o pseudônimo de William Wilson e vive solitário e anônimo depois que a esposa e o filho morreram.

Um dia, uma ligação errada traz um pedido desesperado de ajuda, destinado a um certo Paul Auster. Dias depois, quando o chamado se repete, Quinn decide assumir o nome de Auster para saciar sua curiosidade.

Assim, ele adentra um labirinto de mistérios com toques kafkianos. Assume o trabalho de proteger um estranho jovem chamado Peter Stillman de seu próprio pai, que o manteve isolado do resto do mundo num quarto escuro por nove anos durante a infância, com o propósito de resgatar a língua de Deus, perdida desde a construção da Torre de Babel.

Agora, Peter Stillman pai está de volta, depois de anos preso pelo que fez ao filho, e todos acreditam que tentará matar o jovem perturbado.

Quinn, em sua missão heróica de proteger seu “cliente”, entra em contato com o velho e seu estranho pensamento, o que o leva a uma situação ainda mais crítica.

Adaptação para os quadrinhos do conto homônimo que abre o livro Trilogia de Nova York, do escritor e roteirista Paul Auster.

Positivo/Negativo

Poucas são as histórias em quadrinhos que merecem realmente ser lembradas principalmente por sua arte. Mesmo que os desenhos sejam muito bonitos ou a narrativa visual seja perfeita, na maioria das vezes tudo isso está submetido apenas ao roteiro. No caso desta adaptação, roteiro e arte estão exatamente no mesmo patamar e a genialidade de David Mazzucchelli (Batman – Ano Um) salta das páginas.

Mais do que simplesmente criar uma atmosfera e dar fluidez ao enredo, a arte de Mazzucchelli é cheia de elementos que dizem muito a respeito dos personagens, o mistério que os envolve e as alegorias criadas por Auster na obra original.

Várias passagens do conto em prosa tratam do fenômeno fantástico que é a linguagem humana e ganharam uma representação ao mesmo tempo bela e chocante no traço do artista.

Ao longo da narrativa, predominam duas imagens que representam o conflito de Quinn com sua própria consciência. Uma são as grades de prisão formadas pela divisão da própria página em quadrinhos, que mesmo quando não está explícita prende o protagonista e demais personagens nas malhas da própria trama.

Outra é o movimento vertiginoso que leva o olhar do leitor a se aprofundar num detalhe do desenho que, no quadrinho seguinte, mostra-se como uma outra imagem escondida ali, uma nova idéia a ser descoberta.

Quando Quinn conversa pela primeira vez com Peter Stillman filho, há várias páginas deste efeito, levando o leitor numa verdadeira viagem ao mundo dos conceitos.

A combinação dessas duas metáforas visuais é de uma sofisticação impressionante. Há momentos em que ambas se mesclam completamente, como quando os ângulos retos de uma estante de livros, os vidros de uma janela e os tijolos de uma parede se transformam num labirinto que ganha depois a forma de uma impressão digital na mesma janela do quarto onde estava a estante.

O argumento propriamente dito é muito fiel à obra original, que traz uma alegoria sobre a relação do ser humano com a faculdade da linguagem, inserida numa paródia sofisticada do gênero policial. Esta relação torna-se uma obsessão dos personagens, objeto da investigação de Quinn passando-se por Paul Auster, mas que não pode ser desvendada pela racionalidade que o detetive de seus livros sempre usa.

Esta impossibilidade de fazer prevalecer a razão para escapar deste labirinto da mente humana é que leva Quinn ao seu trágico final, perdendo sua identidade própria no labirinto de espelhos que criou com os nomes de Paul Auster, William Wilson, Max Work, Peter Stillman e tantos outros.

Em alguns pontos, a própria narrativa parece estar “em perigo” se Quinn não tiver êxito em sua busca, pois, às vezes, não se tem completa certeza de quem está contando a história em meio a tantos escritores que aparecem.

Com tudo isso, Cidade de Vidro de Paul Auster apresenta uma unidade tão forte e harmoniosa entre argumento e arte que faz dela uma das grandes obras em quadrinhos de todos os tempos. Embora não seja muito citada por autores e fãs, é uma referência tanto para adaptações de obras literárias quanto para usos inovadores da linguagem de HQs.

Nesse aspecto, Mazzucchelli contou com a colaboração do renomado Art Spiegelman nodesign das páginas. Nesta obra estão presentes os diversos recursos narrativos inovadores que Scott McCLoud menciona em seus livros Desvendando os Quadrinhos e Reinventando os Quadrinhos, alguns deles creditados a Spiegelman.

É, definitivamente, algo bem diferente da grande maioria de revistas que circulam por aí. Merece ser conhecida.

Classificação

5,0

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