Cinco mil quilômetros por segundo

Por Audaci Junior
Data: 28 setembro, 2018

Cinco mil quilômetros por segundoEditora: Devir – Edição especial

Autor: Manuele Fior (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Cinq Mille Kilomètres Par Seconde (tradução de Renata Leitão).

Preço: R$ 74,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Julho de 2018

Sinopse

O tímido Piero e o mulherengo Nicola são jovens amigos que observam a mudança dos novos vizinhos. Lucia, a garota recém-chegada, desperta a curiosidade de Piero e vice-versa.

Viajando das areias escaldantes do Cairo, no Egito, ao gélido clima de Oslo, na Noruega, são apresentados fragmentos de uma história de amor entre Piero e Lucia, que começa com uma troca de olhares casual entre os adolescentes e termina com um encontro desesperado de dois ex-namorados, agora bem mais velhos. E mais tristes.

Positivo/Negativo

Histórias de amor, encontros e desencontros, escolhas e recomeços existem aos montes, em todo o tipo de mídia, não precisa se esforçar na procura. Porém, como um em um milhão dos casais que dão certo na vida, o jeito como uma determinada trama amorosa é contada – por mais amarrotada que seja sua roupagem – é que vale todo o seu desfile.

Se for analisado de maneira fria como o inverno norueguês, o enredo de Cinco mil quilômetros por segundo não tem nada de mais. Contudo, a sua “modéstia” fica apenas nesse tópico, já que o italiano Manuele Fior conduz e estrutura a narrativa de modo que traga o natural “vazio”, que o leitor vai perceber ou até se identificar.

Com pinceladas mais soltas, quase impressionistas, o autor sabe usar a prevalência de determinadas cores para serem automaticamente captadas para uma época, atmosfera ou lugar nos fragmentos apresentados.

O grande trunfo do álbum é manter certa distância, assim como são captados os sinais de celulares ao redor do globo: com saltos, interferências ou má comunicação. Ou até mesmo fazer leituras por meio dos delírios febris, como miragens que se formam na calidez dos desertos.

O distanciamento não se refere somente aos novos destinos do casal protagonista, começando da terra natal, a Itália, e (des)ligando os destinos ao mormaço do Egito e à gelidez da Noruega.

Os capítulos – orquestrados, ordenados e entrecortados com pingos de chuva que vão aumentando para o “clímax” – são recortes precisos que partem exatamente de rupturas, escolhas e recomeços.

Fior sabe que as histórias de amor geralmente tendem a serem iguais, irmãs, com momentos felizes de descobertas e tão radiantes como o verdejante primeiro capítulo. Em vez de seguir a cronologia, ele salta e abre esse afastamento para justamente impulsionar a sua narrativa.

Essa negação de fragmentos importantes como os detalhes das vicissitudes românticas, afastando o leitor de ser a testemunha de uma suposta felicidade, é uma escolha calculada do autor, que tem o cuidado de não distanciá-lo da empatia dos personagens, captando o que é apenas sugerido nas entrelinhas.

Por que Lucia está triste? Por que o Piero foi para o Cairo? O que aconteceu com o melhor amigo dele, o mulherengo Nicola?

Não é necessário presenciar as promessas para saber que elas foram quebradas nos novos rumos que cada capítulo traz. Em certos comportamentos ou situações, pode-se cogitar o que levou a essas decisões.

O que é explorado pontualmente aqui são os sentimentos pós-relacionamento, predominantemente melancólicos, e a amargura do cotidiano, mesmo que seja em pausados vislumbres. Cada sonho trilhado é outro que foi renunciado.

Voltando à estrutura, ela foi mais arriscada para seduzir o leitor. A cadência contemplativa de algumas sequências e a suavidade da sua arte podem até contrabalancear a narrativa, mas quem não se sentir desafiado de tentar entender os hiatos poderá não encontrar graça em toda essa sutileza.

Lucia vai à Noruega estudar o dramaturgo Henrik Ibsen (1828-1906), o “pai do drama realista moderno”. Uma das peças mais famosas do autor de Oslo é A Casa de Bonecas (1879), sobre uma mulher que tem seus problemas conjugais, além de ter um lado obscuro na sua vida. Paralelos graciosos como esse enriquecem a história.

Outros pontos que merecem atenção são os pequenos detalhes, como o poder da metáfora que se encontra silenciosamente nas balsas que aportam ou nas embarcações à vela que cortam o rio com os fios de vento, sempre em constante transição. Ou até mesmo um dizer de rebeldia estampado na camisa de um dos personagens nas últimas páginas. Basta apenas “decodificar” essas pistas para tonificar os recortes.

Sob o selo Biblioteca de Alice, Cinco Mil Quilômetros por Segundo tem capa dura fosca, formato 17 x 24 cm, lombada arredondada, papel off-set de boa gramatura e impressão. O título venceu os prêmio de Melhor Autor no Lucca Comics, na Itália, em 2010; Melhor Álbum, Fauve d’Or, no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2011; e o Prêmio Micheluzzi de melhor banda desenhada na Comicon 2011, na Itália.

Inédito no Brasil até então, no mesmo mês de lançamento desta obra, o quadrinhista italiano teve outro álbum publicado no Brasil: o sci-fi filosófico A Entrevista (Mino).

No final das contas, de que vale buscar ambições, mudar o norte da viagem ou tentar produzir raízes? Respostas para o sentido da vida de Lucia e Piero são tão precisas quanto os hiatos que não se testemunha no traço de Fior.

Classificação:

5,0

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• Outros artigos escritos por

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  • silas.

    Esperando meu “A Entrevista” (Mino) chegar, mas vou logo buscar um exemplar de “Cinco mil quilômetros por segundo”.

    Paixão à primeira vista pela arte de Manuele Fior! Sensacional!

  • “A Entrevista” não me chamou tanto assim a atenção, mas esse petardo aí… Só vejo críticas e resenhas o colocando como, no mínimo “espetacular”