Coração das trevas

Por Audaci Junior
Data: 26 setembro, 2014

Coração das trevasEditora: Veneta – Edição especial

Autores: David Zane Mairowitz (roteiro) e Catherine Anyango (arte) – Originalmente em Heart of darkness – A graphic novel (Tradução de Ludimila Hashimoto).

Preço: R$ 39,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Setembro de 2014

Sinopse

O capitão Marlow viaja pelo coração sombrio da selva africana subindo o rio no seu barco a vapor. Sua missão é trazer de volta o Sr. Kurtz, um lendário mercador de marfim cujos métodos passam a desagradar à companhia mercante que o contratou.

Dividido entre o fascínio e a repulsa por Kurtz, o protagonista vai descobrindo a real e brutal “natureza da fera”.

Positivo/Negativo

“O mais intenso dos relatos que a imaginação humana concebeu”, elegeu o romancista argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) sobre a base em que este álbum foi adaptado, a obra homônima escrita pelo britânico de origem polaca Joseph Conrad (1857-1924) e publicada em 1902.

O livro também ficou conhecido por ser transportado para a Guerra do Vietnã pelo cineasta Francis Ford Coppola, no clássico Apocalypse Now (1979).

A principal característica da obra são as descrições psicológicas na busca do navegador Marlow por Kurtz, seguindo a sangrenta trilha mercante e colonizadora do marfim no Congo pós-Revolução Industrial.

Conrad já foi acusado de racista, mas – assim como Tintim, nos seus primeiros álbuns – a perspectiva contextualizada aqui é do dominador sobre o dominado. O protagonista não acoberta em seu íntimo, dividido com o leitor, o temor pela humanidade que habita os nativos subjugados (o que é também frisado pelo roteirista David Zane Mairowitz no seu prefácio).

Não obstante, a exploração do poder, da ganância e da loucura de Coração das trevas ganha contornos espectrais na bela arte monocromática da Catherine Anyango. As esfumadas brumas oníricas dos desenhos deixam evidenciado um clima perturbador de pesadelo da viagem.

Como comumente acontece numa adaptação em quadrinhos, o álbum deixa de lado uma parte do texto original (o livro é altamente descritivo) e complementa a narrativa com os detalhes e texturas da artista queniano-sueca.

Apesar de envolvente, a arte também tem seus problemas narrativos. Anyango não consegue dar uma dinâmica de quadrinhos à obra. Em muitos momentos, a trama parece mais uma literatura ilustrada do que uma HQ propriamente dita.

Interessante notar a forma translúcida que ela oferece aos balões de fala e aos recordatórios ao longo da história, evidenciando cada vez mais o seu clima de devaneio e a sensação de imersão nele.

O álbum ganha na força visual herdada pela desenhista, mas perde em alguns momentos a vitalidade da prosa de Conrad. Um hiato que pode ser suprimido ou complementado pela leitura do próprio romance.

Mesmo assim, a adaptação não desfoca a perturbadora essência quase premonitória de uma época que viria a ter homens idolatrados e brutais, como o comerciante Kurtz – uma espécie de arquétipo de figuras que viriam escrever a História do Século 20 com sangue e dominação. O horror, de fato, são as trevas como um estado permanente em nós.

No seu prefácio, o norte-americano David Zane Mairowitz, que fez o texto das adaptações de Kafka de Crumb (lançado em 2006, pela Relume Dumará, e em 2010, pela Desiderata), compara Coração das trevas a um grande road movie, no qual a estrada é o rio Congo.

Para reforçar e enriquecer o espírito geográfico, o autor intercalou na sua adaptação trechos do diário do Joseph Conrad quando o escritor navegou como imediato no Roi des Beldes, em 1890.

Entre o jogo de luz e sombra, a floresta que o colonizador desbrava com seus vassalos é tão importante quanto o fluxo “sanguíneo” do rio. A mata fechada, onde habita o desconhecido, também é uma alusão ao interior incógnito de cada ser.

A edição da Veneta tem capa dura, formato 16 x 24,2 cm e uma não acertada impressão em sépia, que dificulta a visualização dos ricos detalhes dos esfumados da Catherine Anyango, vide os nítidos exemplos das páginas no seu site oficial. Também com certa dificuldade, o título na capa em vermelho se perde com o tom de cinza da bela arte, que remete ao colonizado e ao relevo geográfico.

Abrindo um parêntese, duas obras que a editora lançou recentemente figuram tranquilamente na lista das melhores HQs nacionais do ano: Tungstênio, de Marcello Quintanilha, e Cumbe, de Marcelo D’Salete.

Curiosamente, as duas – cada uma ao seu jeito – “dialogam” com Coração das trevas acerca das raízes africanas que temos no Brasil.

No final das contas, todos somos civilizados, todos somos selvagens, todos somos humanos…

Classificação

 

3,5

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