Desengano

Por Charlles Lucena
Data: 24 junho, 2016

DesenganoEditora: independente – Edição especial

Autor: Camilo Solano (roteiro e arte).

Preço: R$ 28,00

Número de páginas: 60

Data de lançamento: Setembro de 2015

Sinopse

Juca é um típico introspectivo que vive em total desengano das pessoas, dos momentos e dos amores. Como todo jovem, não sabe o seu lugar no mundo e tem pressa para descobrir essas respostas.

Não é dos mais chegados ao Carnaval, às suas farras e foliões. Assim, no período da festa, sai de São Paulo com a família para a cidade interiorana dos avós, e decide passar o feriado sozinho.

Positivo/negativo

Camilo Solano é um romântico e faz de Desengano sua declaração de amor. Seu quarto trabalho (depois dos ótimos Inspiração, Onde eu tavo? e Captar, este em uma parceria bem-sucedida com Thobias Daneluz) acompanha Juca Bertozo, um óbvio alter ego do autor, em uma viagem familiar a São Manuel, sua cidade natal, para fugir do carnaval da capital paulistana.

O protagonista é melancólico e introspectivo (“com os olhos tristes, fundos e amargurados”, segundo a avó), o que contrasta com o tom jocoso e anárquico como sua família é retratada. São pessoas simples e de hábitos comuns.

Gente real. Pessoas que comem paçoquinha escondidas dos cônjuges, que zombam umas das outras na mesa de jantar, passam o tempo inteiro na cozinha, riem e brigam sempre que podem. São personagens tridimensionais, de fácil identificação com o leitor, tornando aquele microcosmo familiar interiorano algo muito próximo e empático. E isso reforça o distanciamento e a sensação de inadequação de Juca à família.

Outra personagem importante da trama é a pitoresca São Manuel, descrita como estereótipo de uma cidade pequena, com seus moradores e hábitos peculiares, onde se compra no mercadinho e os rapazes impressionam as moças usando o som automotivo nas alturas.

Novamente, a presença e o humor de Juca contrastam com o ambiente. Ele é quase como um invasor indesejado, reforçando a sua estranheza àquele meio, que já lhe foi tão presente outrora. Como um pássaro perdido em seu próprio ninho.

E, por fim, o Carnaval e seus tipos (com direito à participação de vários profissionais do mercado de quadrinhos, como o editor Sidney Gusman e o quadrinhista Luciano Salles, dentre outros), com seus excessos e suas alegorias, fazendo um contraponto excelente ao confinamento de Juca em seu mundo interior.

É aqui que o embate entre a introspecção do protagonista e a exuberância festiva ganha mais força, ocorrendo finalmente o momento de ruptura na vida do protagonista. É quando suas crenças e ideias são postas em xeque, devido aos eventos inesperados que o carnaval tão evitado pode reservar. Será?

O texto flui muito bem durante a narrativa e explora com profundidade as características e inconstâncias do neurótico Juca nesse momento de insight e autodescoberta.

O traço de Solano está amadurecido e consistente, com exageros e deformações muito bem-vindas, tomando um rumo diferente do que se vê habitualmente no mercado nacional. E a paleta de cores fortes é bem escolhida e casa bem com o tom da arte.

A edição tem capa cartonada, com detalhes em verniz e orelhas e papel off-set de boa gramatura. E traz o prefácio de ninguém menos que Robert Crumb, o papa do quadrinho underground, algo que foi amplamente divulgado pela mídia especializada nacional.

Crumb e Solano se conhecerem alguns anos atrás, em uma edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro, e devido ao amor por quadrinhos e música passaram a trocar correspondências desde então.

O prefácio é generoso e respeitoso, como um bom amigo faria (e Camilo fez a gentileza de publicá-lo também na língua original). Também há um posfácio do autor e um making-of que revela a concepção da bela capa.

Como foi dito no começo desta análise, Camilo Solano fez de Desengano sua declaração de amor. À sua mulher, à sua família, às suas raízes, a São Manuel, aos bidês (!) e, principalmente, veja só, ao Carnaval e ao que ele representa.

Classificação

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.

  • Murphy do Sealab

    Tenho o meu autografado em casa e gosto muito.
    Mas não achei o Sidney Gusman ainda. Ótimo motivo para reler.