Dylan Dog – Mater Dolorosa

Por Audaci Junior
Data: 28 setembro, 2018

Dylan Dog – Mater DolorosaEditora: Mythos – Edição especial

Autores: Roberto Recchioni (roteiro) e Gigi Cavenago (arte) – Originalmente em Dylan Dog 361 (tradução de Júlio Schneider).

Preço: R$ 69,90

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Maio de 2018

Sinopse

Alguns anos depois de conhecer Mater Morbi, Dylan Dog acusou novamente os sintomas do mal que quase o matou.

O retorno da Mãe de Todas as Doenças o obrigará a mergulhar num mar de dor, enfrentando uma jornada em seu passado, na busca das causas de seu sofrimento e uma explicação da preferência amorosa que a entidade manifesta pelo Detetive do Pesadelo.

Positivo/Negativo

Preliminarmente, é preciso deixar bem claro que a parte editorial desta primeira edição de luxo chega a prejudicar um pouco a leitura por um motivo simples: o “guia de leitura” presente na obra esqueceu completamente de pensar no leitor que está sendo apresentado ao personagem italiano e, pior, chega a adiantar acontecimentos no próprio enredo que está a seguir.

Em vez de colocá-lo nas primeiras páginas, o editor poderia estrategicamente tê-lo posicionado após a HQ em si, bastando apenas sinalizar no prefácio que ele existe e poderá ser consultado no final do álbum, durante ou após a leitura.

Antes de continuar analisando o tal guia, vale abrir um parêntese sobre a trajetória do personagem no Brasil até aqui.

Dylan Dog chegou a ter 11 números publicados pela Record (1991-1993), além de dois especiais (um encontro com Martin Mystère, Última Parada: Pesadelo, e a clássica Incubus); teve uma cômica história colorida na coletânea Fumetti – O melhor dos quadrinhos italianos, da Globo (1993); passou rapidamente pela Conrad, com seis volumes lançados (2001-02); manteve o título mais longevo com a própria Mythos, com 40 edições (2002-06), além de histórias curtas publicadas em seis Tex e os aventureiros; e teve outra passagem relâmpago pela Lorentz, que publicou três volumes (2017).

Atualmente, a Mythos retomou o título, publicando inicialmente quatro edições da série regular programadas ao longo deste ano (a terceira saiu em julho). Sempre como uma montanha-russa, as HQs da primeira fase de Dylan Dog na editora não respeitavam uma cronologia com relação aos números originais (enfatizando o lado mais “independente” das histórias), alternando também na qualidade da seleção, seja no roteiro ou na arte, ou ainda, em ambos.

Mater Dolorosa foi lançada na Itália em clima comemorativo de 30 anos do Detetive do Pesadelo. O ex-agente da Scotland Yard foi criado em 1986, por Tiziano Sclavi, sendo a rentável primeira série de horror da Sergio Bonelli Editore.

Algumas das histórias do título não eram tão autônomas assim, o que nos traz de volta ao importante guia de leitura para entender e complementar os entretons do roteiro de Roberto Recchioni, atual editor do personagem.

Como é colocado no enunciado do guia, o leitor poderá compreender a trama naturalmente, mas o conhecimento das citações – e mais: de outras HQs referenciadas – promove o enredo para outra amplitude de entendimento e descobertas.

Dylan Dog # 1, MythosDylan Dog # 3, Lorentz

Mater Morbi, a antagonista deste volume, surge no final de 2009 (e não em 2012, como foi indicada erroneamente na introdução), no número 280 de Dylan Dog, assinado por Recchioni com Massimo Carnevale (artista responsável por algumas capas do selo Vertigo, como Y – O Último Homem e Vikings). No Brasil, ela saiu na terceira e última edição publicada há pouco tempo pela Lorentz (em dezembro de 2017), mas em momento algum o texto informa isso.

Em virtude da antecessora não deter mais os direitos e até para popularizar o personagem, consequentemente arregimentando mais fãs, não custava nada inserir essa informação, já que no próprio guia é feita a menção a outra editora que também foi casa do detetive, a Conrad.

Mater Dolorosa é um retcon – alteração ou complementação de fatos previamente estabelecidos na continuidade de uma ficção –, usando como base a “origem” do personagem, apresentado no centésimo número da série italiana (no Brasil, publicado no primeiro número da Mythos, em 2002). Curiosidade: a edição nacional não saiu colorida como seu original.

Com texto do criador Sclavi e arte de Angelo Stano (que também produzia a maioria das capas), A história de Dylan Dog é crucial para entender o final em aberto de Dolorosa. Quem quiser saber o que aconteceu, deve garimpar nos sebos ou procurar a edição italiana.

Independentemente de julgar se o guia de leitura poderia revelar tal destino, há passagens que não acrescentam em absolutamente nada, como “Quem leu o n° 1 da Mythos sabe como acaba” ou “No fim, até o Flic deu um jeito de aparecer”, referindo-se a uma criaturinha essencial na trama de Sclavi e Stano. Em alguns momentos, o texto poderia ser mais elucidativo, mesmo se não quisesse estragar surpresas de um gibi que se encontra há tanto tempo fora de catálogo.

Mesmo tendo um grau de independência, o leitor de primeira viagem poderá perceber “vãos” que podem atiçar a sua curiosidade sobre o universo dylandoguiano ou simplesmente motivá-lo ao desinteresse pela inacessibilidade das outras peças desse mosaico. Por isso a importância do guia ser mais “completo”.

As notas mais bem explicadas dizem respeito à premiada Marte Morbi, a mais fácil de ser adquirida no mercado atualmente. Já com relação à edição de estreia de 2002, permanecerão questões como por que um Dylan Dog na tenra idade estava a bordo de um galeão, em 1686?

Arte de Dylan Dog – Mater Dolorosa Arte de Dylan Dog – Mater Dolorosa

Ainda no quesito de “amplitude da trama”, sabendo quem é Morgana de outras aventuras e também Dr. Xabaras – arqui-inimigo de Dylan Dog que, de certa forma, não aparece neste volume –, ficam bem mais claros acontecimentos surreais como a invasão de mortos-vivos em Londres.

Outro ponto em que o álbum vira vítima da cronologia original é na volta de personagens que nunca saíram por aqui, devido aos seus hiatos. Poderia ter uma contextualização mais detalhada de quem é o magnata John Ghost e de acontecimentos (inéditos) citados envolvendo esse misterioso inimigo.

Por meio das ações de Ghost, se percebe que Roberto Recchioni está plantando sementes para as bases de futuros desenvolvimentos no título. Porém, visto que as HQs lançadas recentemente pela Mythos “catam” aventuras aleatórias dos anos 1990, não se sabe quando essas ramificações brotarão em edições nacionais.

Deixando de lado todo esse conhecimento prévio que foi prejudicado com a trajetória editorial do personagem no Brasil, a trama em si veleja na pegada surreal norteada anteriormente por Tiziano Sclavi e entrega uma boa história sobre o medo e o pânico da recrudescência do mal que abateu Dylan Dog, levando ao ápice do confronto entre as “duas mães”, cada qual com suas razões.

O roteirista chega a exagerar nos discursos panfletários de racionalidade do pai de Dylan, principalmente percebendo que fala apenas para a sua esposa, Morgana. O leitor subentende naturalmente que ela já tenha ouvido esses argumentos antes, por ele ser um cientista.

Percebe-se que Recchioni se concentra mais em alargar os horizontes da gênese/mitologia do protagonista, do que tratar de outros temas, como fez em Mater Morbi.

Groucho, hilário assistente do personagem, é limado para acentuar o tom mais sério do enredo. Mesmo assim, existe o humor ácido que casa com situações insólitas, mas “comuns” para o detetive e para quem já leu algumas de suas investigações.

Um espetáculo à parte é a arte digital do Gigi Cavenago. Ele imprime grande legibilidade e naturalidade, o que comprova que tal técnica pode muito bem ser bastante expressiva. Outro detalhe é como a sua diagramação tenta escapar da “camisa de força” tradicional dos títulos bonellianos.

Arte de Dylan Dog – Mater Dolorosa Arte de Dylan Dog – Mater Dolorosa

Ostentando o selo Prime Edition, o volume nacional tem capa dura, papel couché de boa gramatura e impressão, formato 21 x 29 cm, biografia dos autores e do personagem, textos de apresentação de Recchioni e do tradutor Júlio Schneider, além do supracitado e dissecado guia de leitura.

Para curiosidade, além de ter sido lançada na série regular na Europa, a história também foi publicada por lá em uma edição com 60 páginas de material extra, que serviu de base para esta versão nacional.

Na Itália, há textos de Recchioni explicando o roteiro, o protagonista e a obra (tudo ricamente ilustrado por pin-ups do Cavenago), estudos de personagens, página e cor (incluindo exemplos de pranchas com esquemas de cores/iluminação diferentes), todas as capas, além de um link para baixar o roteiro completo (em italiano) do álbum.

Em suma, Mater Dolorosa é uma engrenagem fundamental na trajetória do Detetive do Pesadelo, mas que não se move por estar deslocada por causa tanto dos efeitos de um título conturbado no Brasil, quanto por um breve material explicativo que deveria pôr a peça melhor nos eixos.

Mesmo assim, é uma HQ acima da média e que tem o seu valor dentro da mitologia dylandoguiana.

Classificação:

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  • 0-Drix

    Se a Mythos não ia publicar as 60 páginas de extras, por que então lançou em formato álbum, capa dura e papel couché?
    As edições regulares de Dylan Dig estão caras e esta, em especial, se torna ainda mais cara por ser lançada sem que se tenha por aqui o devido arcabouço cronológico que permitiria apreciar melhor a história.

    • Caça-niquel talvez. Olha o preço. Se aproveitaram do sucesso de Mater Morbi pela Lorentz e da qualidade da arte, chamativa para fãs e não-fãs.

  • kriminal diabolik

    Mater Morbi a edição nº3 da lorentz é maravilhosa. Já Mater dolorosa infelizmente não tem a mesma qualidade. Indico a todos Mater Morbi, já Mater dolorosa somente aos mais apaixonados fãs.

  • Audaci Junior

    Tem absoluta razão, meu caro Silas! Foi confusão minha sobre os desenhistas quando estava pesquisando. Já foi corrigido no texto, agradeço muito a sua observação e peço desculpas a todos pelo equívoco…

    • silas.

      Valeu! Abraço, Audaci! :)

  • “No Brasil, ela saiu na terceira e última edição publicada há pouco tempo pela Lorentz (em dezembro de 2017), mas em momento algum o texto informa isso. Em virtude da antecessora não deter mais os direitos e até para popularizar o personagem, consequentemente arregimentando mais fãs, não custava nada inserir essa informação, já que no próprio guia é feita a menção a outra editora que também foi casa do detetive, a Conrad.” – Pensei a mesmíssima coisa. Aliás, foi a partir dessa edição q percebi que apesar das histórias da série mensal serem fechadas, seria muito melhor se elas fossem lidas em ordem cronológica, mas infelizmente, essa cronologia nunca existiu no Brasil.

  • Pedro Henrique

    Eu preferia que Dylan Dog continuasse pela Editora Lorentz, mesmo que fossem apenas 3 edições por ano.

  • José Maria Junior

    Arte maravilhosa. Texto só para fãs do personagem que tem tudo, ou quase tudo que saiu desde os anos 90. Quem conhece pouco, ou nunca ouviu falar de DD fica perdido. Boa para fãs, mas nem tanto para ampliar o público.