Fungos

Por Audaci Junior
Data: 24 junho, 2016

FungosEditora: Mino – Edição especial

Autor: James Kochalka (roteiro e arte) – Originalmente em Fungus (tradução de Dandara Palankof).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Maio de 2016

Sinopse

Num pântano inóspito, o dia a dia de dois fungos. Eles refletem sobre a existência, crenças religiosas, quadrinhos, farras e uma das grandes descobertas do universo: a internet. Com direito à participação de outras criaturinhas esquisitas, como os gêmeos Winklemofoss, “criadores do Facebook”.

Positivo/Negativo

Com as costas arqueadas cada vez mais em direção à luz dos aparelhos de celular, tablets e notebooks, o ser humano coloca sua opinião, ideologia e afins na ponta dos dedos com a mesma proporção que ocorre a produção de fotossíntese dentro de um charco vernal.

Além de servir de terreno fértil para discussões, debates e bate-bocas, o ciberespaço também foi o jardim do norte-americano James Kochalka para cultivar sua produção de HQs no final dos anos 1990, como a série autobiográfica American Elf.

Para falar justamente desse meio virtual, acomodado em celulose, o autor indie criou seus fungos – cogumelos, bolores e mofos, principais arqui-inimigos ao lado das traças para os colecionadores de quadrinhos.

Essas “fofurinhas podres”, que curtem gibis e cair na gandaia, falam, discutem e filosofam de maneira aparentemente ingênua, mas são tão complexas nas entrelinhas como analisar o comportamento dos seres humanos nas redes sociais atualmente.

São pequenas e insignificantes criaturas que não deixam suas características limitadas para o leitor perceber nelas todas as nuances e mazelas da humanidade – sejam tecnológicas, sejam existenciais – com uma lupa ou um microscópio no nosso umbigo.

Fungos parece infantil, poderia muito bem ser lido para a criançada, mas o leitor mais atento perceberá que tem algo incrustado e escondido ali, que está se “decompondo” sutilmente a cada virar de página.

O “diálogo” com o público mostra vários paralelos que os personagens arquitetam sobre a vida moderna, levantados no clima nonsense. No avanço nada vertiginoso do seu tempo, os fungos apresentam temas como as dúvidas e temeridades teológicas, as características físicas e comportamentais, as diferentes perspectivas de vida, as vaidades, o ócio diante da televisão e o consumismo.

Em suas curtas histórias, o autor tem mais acidez para decompor os assuntos ligados à internet. O imediatismo, a procrastinação e a banalização andam de mãos dadas com a “compreensão limitada” que se oculta numa falsa sapiência conjurada pelos fungos. Semelhanças com o que se observa virtualmente não são mera coincidência.

Animador e roqueiro, Kochalka elenca na introdução do álbum várias músicas que serviram de adubo sonoro para sua produção. Um verdadeiro setlist para chapinhar numa festa no pântano.

Cada vez mais consolidada no mercado com seu catálogo de autores nacionais, a Mino expande os horizontes para apresentar aos leitores brasileiros trabalhos inéditos de quadrinhistas que nunca foram publicados por aqui, vide o polêmico catalão Joan Cornellà e seu corrosivo Zonzo.

Com o habitual zelo editorial, Fungos tem formato 14 x 21 cm, papel off-set de excelente gramatura, capa cartonada com orelhas e aplique de verniz. O destaque vai para a impressão, na qual a arte carregada de nanquim de Kochalka é muito valorizada. Realmente, o preto não possui aqueles tons “lavados” tão comumente vistos em obras de outras editoras por aí.

Outro adendo positivo é o cuidado nas letras do álbum, feitas pelo quadrinhista Pedro Cobiaco (de Aventuras na Ilha do Tesouro), que combinam perfeitamente com o traço, deixando o resultado superior ao original.

O único problema do álbum é o espaçamento entre as linhas do texto introdutório, que ficou estreito demais, atrapalhando a leitura.

Honrando as origens de James Kochalka, além da edição em papel, a Mino disponibilizou gratuitamente na internet um capítulo extra, Bocó, que pode ser lido aqui.

Classificação

4,5

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