J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga # 87

Por Lielson Zeni
Data: 24 fevereiro, 2012

J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga # 87Editora: Mythos – Revista mensal

Autores: Giancarlo Berardi (argumento), Giancarlo Berardi e Maurizio Mantero (roteiro), Thomas Campi e Luigi Pittaluga (arte) – Publicado originalmente em Julia # 87.

Preço: R$ 8,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Fevereiro de 2012

Sinopse

Pena capital – Linda Evans está no corredor da morte aguardando uma injeção letal. Sóror Ângela, o comitê contra a pena de morte e a doutora Júlia Kendall vão tentar impedir a execução.

Para isso, precisam encontrar o verdadeiro culpado do homicídio pelo qual Linda é acusada. Restam 48 horas até o cumprimento da pena e há muito a fazer.

Positivo/Negativo

Quem acompanha as aventuras de Júlia regularmente já percebeu a inclinação política de Giancarlo Berardi. E também quais são suas opiniões quanto ao encaminhamento social, o que ele pensa das leis e de sua aplicação. Não é de surpreender, portanto, que o roteirista italiano construa uma HQ toda sobre pena de morte.

Tema um pouco batido pelo mau uso em redações escolares, há pouca reflexão concreta sobre ele e suas implicações. Júlia Kendall e sua amiga Ângela (e Berardi) são contra a pena capital. Desfilam diversos argumentos sobre o assunto. O leitor é convidado a conhecer esse ponto de vista e pode discordar. Até mesmo porque a explanação do autor tem por base uma força policial mal intencionada.

Claro, além disso há diversos outros argumentos mais convincentes. Porém, o mais forte e decisivo não é discursado por alguma das duas personagens que estão no foco da narrativa; é um argumento entranhado na própria estrutura da história. Mas como o fumetto pratica o suspense, mantenha-se em suspensão esse tema e retorne-se a ele em breve.

Vale ressaltar um procedimento técnico dos mais interessantes na arte. Como é possível perceber nos créditos, dois desenhistas são creditados. E cada um emprega seu estilo em momentos distintos da revista.

Enquanto um apresenta o tradicional traço realista da Bonelli para as ações presentes – acredita-se (porque não estão indicadas as páginas de cada artista) que seja Thomas Campi -, o outro, provavelmente, Luigi Pittaluga, mostra um desenho naturalista, mas com um uso de volumes e preenchimentos em tons de cinza, com intuito de marcar memórias e flashbacks.

A solução da trama se dá paulatinamente, o que é um excelente gerador de tensão diante das horas que passam para a condenada. A corrida contra o tempo acontece na trama toda e a cada página o leitor sente as horas rarearem e a tensão crescer.

Toda essa tensão faz com que as ações da HQ, que são basicamente conversas e interrogatórios, mantenham um ritmo de tirar o fôlego. Mas volte-se aos argumentos de Berardi contra a pena de morte.

O principal ponto do autor é o ser humano e sua instabilidade. Uma decisão de vida, morte ou adiamento vai depender de pessoas às vezes cansadas, insatisfeitas, gananciosas, outras vezes felizes, permissivas e de boa vontade. Mais do que isso não se fala para não se entrar em detalhes do enredo.

Vale ressaltar a postura exageradamente profissional e completamente desumana do assessor do governador, que fecha os olhos para sua ideologia em nome de uma satisfação pessoal.

Destacam-se ainda as reviravoltas da trama, que parecem apontar para um lugar-comum e conseguem uma última surpresa que fortalece ainda mais o discurso pró-vida de Berardi. Pra entender isso melhor, só lendo o gibi.

A edição da Mythos ainda traz uma excelente resenha do site uBC Fumetti sobre a edição anterior.

Se você já gosta das aventuras da criminóloga, neste número vai lembrar o porquê. Se nunca leu um fumetto de Júlia, esta é uma boa edição para começar. E que Giancarlo Berardi produza mais preciosidades como esta.

Classificação

4,5

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