NonNonba

Por Audaci Junior
Data: 4 maio, 2018

NonNonbaEditora: Devir – Edição especial

Autor: Shigeru Mizuki (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Nonnonbaa to Ore (tradução de Arnaldo Masato Oka).

Preço: R$ 89,90

Número de páginas: 424

Data de lançamento: Março de 2018

Sinopse

Na década de 1930, na vila nipônica de Sakaiminato, na província de Tottori, o garoto Shigeru Muraki se depara com uma série de youkais – entidades sobrenaturais –, entre uma e outra investida bélica com seus amigos contra os meninos da outra vizinhança e a chatice de frequentar a escola.

Vindo de uma família modesta, ele alimenta uma grande amizade por uma senhora que é considerada a NonNonba (designação das mulheres idosas devotas à religiosidade) da região. Ela o ensina sobre como lidar com esses seres e espíritos dos mais variados tipos e atribuições.

Positivo/Negativo

O universo dos mangás – e os quadrinhos, de forma geral – tem muito a agradecer a nomes como Osamu Tezuka (1928-1989), Mitsuteru Yokoyama (1934-2004), Shotaro Ishinomori (1938-1998) e Shigeru Mizuki (1922-2015), dentre outros autores japoneses.

Inexplicavelmente, a maioria desse panteão nunca foi publicada por aqui. Neste ano, Mizuki ganha sua primeira edição brasileira com NonNonba.

Nascido como Shigeru Mura, ele passou mais de seis décadas a serviço dos quadrinhos, evidenciando e popularizando entre os jovens o gênero de horror. Para se ter uma pequena noção da sua importância, há um museu e uma rua batizados com seu nome na cidade de Sakaiminato, onde existem mais de uma centena de estátuas personificando seus personagens e criaturas, que chegou a render uma enciclopédia dos folclóricos youkais.

Arte de NonNonba

Homenagem a Shigeru Mizuki

Muitos desses monstros e espíritos desfilam no divertido NonNonba, publicado originalmente no Japão em 1977. Com toques biográficos, explicitamente o jovem protagonista é a personificação do autor na sua própria terra natal às portas da Segunda Guerra Mundial.

O tema bélico, inclusive, seria muito caro ao quadrinhista anos mais tarde: chegou a ser o único sobrevivente do seu destacamento, o que lhe rendeu uma dura repressão e desonra por não ter morrido pelo país.

Sua passagem na Segunda Guerra rendeu a índole pacifista e lhe custou um braço, consequência de um bombardeio aliado. Do front nasceram obras como Sôin Gyokusai Seyo! (Marcha para uma morte nobre!, em tradução livre).

Voltando a NonNonba, os garotos da infância de Mizuki se dedicam a uma brincadeira premonitória, se armando com paus e pedras para combater outros grupos de crianças da vizinhança. Ostentando bandeiras e canções na cadência da marcha, a brincadeira é levada tão a sério, que há o banimento de membros.

Esses embates remetem ao clássico A Guerra dos Botões, obra escrita pelo francês Louis Pergaud (1882-1915) e publicada originalmente em 1913. Inclusive, chegou a ser adaptada algumas vezes para o cinema e também para os quadrinhos (lançada por aqui em 2013 pela editora Salamandra).

Página de NonNonba

Também é citada no mangá a invasão do território chinês da Manchúria, o que colocou o Japão em isolamento pelos países ocidentais e os consequentes problemas sócio-econômicos que são diluídos ao longo dos capítulos.

Mas tudo isso fica em segundo plano para a diversidade de youkais que são apresentados pela sábia NonNonba e entrelaçam as aventuras de Shigeru. Apesar de o jovem ser preguiçoso para os estudos, ele ouve atentamente a anciã e seus “retratos falados” dos seres, ademais as soluções para seus enfrentamentos.

Há os monstros que caem em cima dos descrentes, o inofensivo pegajoso que segue seus passos, sombras pesadas, crianças linguarudas lambedoras de sujeira de banheiro, até os mais letais, como verrugas falantes e os espíritos de viajantes que morreram de fome e paralisam quem estiver nas mesmas condições.

Verdadeira enciclopédia ambulante com seus olhos sempre esbugalhados, a NonNonba serve de professora sobre youkais e conselheira para os problemas do garoto.

O humor de Mizuki tem a leveza das situações e os aspectos caricatos de seu traço, sempre envolto de um cenário realista e bastante detalhado. Em momentos de suspense ou que invoquem – mesmo de forma comedida – o horror, não são apenas os youkais que assustam.

Um exemplo é o pai do protagonista, um bancário que sonha com a vida de contador de histórias, mas que entra em horas de desespero quando sabe que um ladrão de bancos está à solta no seu plantão da madrugada.

O autor trabalha também com o humor de repetição quando coloca as características de descrente que termina acreditando de um dos irmãos de Shigeru ou o mantra evocado pela mãe, que sempre relembra ser de uma família com direito a sobrenome e a portar espada.

Aspectos poéticos e filosóficos também se encontram enraizados nas mais de 400 páginas de NonNonba. Desde um esforço de representação do paraíso de forma operística até a divagação de um youkai, na qual afirma que “um instante é eterno e uma eternidade dura um instante”.

Arte de NonNonba

Este é o segundo título da coleção Tsuru, da Devir, que reúne obras de autores japoneses, clássicos e contemporâneos, historicamente importantes para os quadrinhos e para a cultura nipônica – o primeiro foi O homem que passeia, de Jiro Taniguchi (1947-2017).

Seguindo os mesmos moldes, a edição é em brochura com capa cartonada (sem orelhas) e sobrecapa, formato 17 x 24 cm, papel antirreflexivo munken print cream, com boa gramatura e impressão. Nos extras, um glossário dos youkais e um texto do quadrinista, editor e pesquisador norte-americano Jason Thompson sobre Shigeru Mizuki. Das 424 páginas, seis são coloridas.

Infelizmente, moldes negativos da edição anterior também foram seguidos: há muitas mancadas de revisão na publicação. São erros de concordância, de digitação, repetição de palavras e de informações no rodapé, palavras coladas, dentre outras.

No texto de Thompson mesmo tem um “Osama” Tezuka e a informação errônea que NonNonba foi “adaptada para mangá” em 1992.

Com um projeto que preenche um espaço editorial vital, a editora deve evitar equívocos de materiais tão importantes como este. Para se ter uma ideia, NonNonba foi o primeiro mangá vencedor na categoria de Melhor Álbum do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2007.

Assim como Ayako, obra de Tezuka também produzida nos anos 1970 e lançada recentemente pela Veneta, esta HQ do Mizuki sobre o amadurecimento, a cultura japonesa e o contexto social e histórico é essencial para os amantes de grandes autores.

Classificação:

4,5

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  • O Mizuki foi um grande entusiasta do folclore, inclusive no mangá Akuma-kun de 1965, há a presença do Saci Pererê, não sei como ele teve contato com a lenda do Saci, talvez por alguma tradução de um livro brasileiro ou quem sabe parentes na colônia. Atualmente está sendo exibido um outro anime baseado em um famoso mangá dele nessa linha de horror e folclore, GeGeGe no Kitaro, lançado em mangá em 1960, mas com o anime completando 50 anos em 2018.

    • Dyel Dimmestri

      Vale complementar que o mangá do Ge Ge Ge no Kitaro já está sendo publicado nos EUA,pela editora Drawn & Quaterly. Só falta agora alguma editora brasileira criar coragem e publicar aqui também…

      • Pedro Bouça

        Também foi publicado na França.

  • Pedro Argentieri de Aguirre

    Certamente deve figurar em boa parte das listas de melhores do ano!