O homem que passeia

Por Audaci Junior
Data: 29 março, 2018

O homem que passeiaEditora: Devir – Edição especial

Autores: Jiro Taniguchi (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Aruku Hito (tradução de Arnaldo Masato Oka).

Preço: R$ 55,00

Número de páginas: 240

Data de lançamento: Setembro de 2017

Sinopse

Caminhando devagar, o protagonista escuta, cheira, para e observa. É impossível não se sentir alheio e indiferente ao mundo, em contraste com esse olhar puro.

Vários passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa, reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta.

Positivo/Negativo

No começo da primeira história, um senhor de idade já avançada e observador de pássaros se espanta com o jovem protagonista sem nome de O homem que passeia: “Aqui não costuma vir muita gente”.

Essa justificativa se refere ao quanto a sociedade moderna não para a correria habitual e não se detém em momento algum do dia para apreciar o mundo, seja ele de forma natural ou construído pela própria humanidade.

Escapando do imediatismo que o entretenimento da leitura das histórias em quadrinhos proporciona aos leitores de modo geral, algumas obras passeiam tranquilamente pela cabeça dos mesmos após apreciar suas últimas páginas. Esta é uma delas.

Com certeza, vai existir alguém que não verá nada de mais nas andanças promovidas por Jiro Taniguchi (1947-2017). Não captando o “estado de espírito” desses episódios contemplativos, talvez por não ter a paciência de “ler” as ações ou mesmo por não refletir em cima das entrelinhas colocadas em cada parada, cada movimento ou cada evocação de sentidos representadas pelos silenciosos desenhos.

Como o próprio autor diz em uma entrevista nos extras desta edição, o passeio é uma liberdade sem objetivos ou limites de tempo. E é bem isso. Tanto que há episódios que se estendem e outros bem mais curtos.

Na contramão da correria atual do ser humano, dotado de uma postura cada vez mais curva para a imersão nos seus aparelhos eletrônicos manuais conectados com o ciberespaço, essas histórias cadenciam uma lentidão acolhedora, contemplativa, como se o leitor acompanhasse a caminhada da mão do autor pelo papel.

Muito desses detalhes na arte dialogam com o cinema de um conterrâneo de Taniguchi, o cineasta Yasujiro Ozu (1903-1963), cuja câmera praticamente imóvel nos seus planos constroem experiências bastante delicadas, como no clássico Era uma vez em Tóquio (1953), dentre outros longas da sua sólida filmografia.

O delicado traço cuidadosamente delineado na arte-final, a rigidez geométrica das construções e a minuciosidade dos elementos da Natureza são harmonizados para despertar os sentimentos adormecidos da contemplação introspectiva e intimista.

O quadrinhista abusa de planos abertos, detalhamentos e diagramações horizontais e verticais para poder mostrar o universo ao redor dos personagens. Páginas inteiras e duplas servem para o leitor se deter por mais tempo, apreciando o que o protagonista sente e vê.

O homem que passeia O homem que passeia

Mas a graça não está apenas na subjetividade do homem sem nome. Também se encontra nos detalhes que Taniguchi faz questão de frisar graficamente, como o pé descalço que toca a terra, a neve que embaça o óculos ou o objeto encontrado na arqueologia que se usa durante o passeio com o cachorro.

Quando o homem anda descalço se equilibrando em cima de uma mureta, o leitor recorda os tempos em que essa troca de perspectiva e encorajamento para a “aventura” era bem mais corriqueira quando era criança.

Quase se pode sentir o vento, contemplar o silêncio, ouvir o barulho das turbinas de um avião que rasga o céu ou o burburinho da cacofonia da multidão que vai ao campo para o lazer.

A obra também é tátil quando o autor destaca as ações de sentir entre os dedos a casca de uma velha árvore, a maciez de uma grama antes de se deitar nela ou o peso gravitacional dos pingos de chuva.

Quem nunca apostou mentalmente uma corrida com um desconhecido que está seguindo na mesma direção? Quem nunca sentiu o prazer de se abrigar na queda de temperatura da sombra de uma árvore quando o sol é de rachar a cabeça?

Curiosamente, há três histórias (referidas como parte II, III e V – a IV é uma galeria) que são meio deslocadas do tema, abordando sonhos, viagens no tempo e amores destruídos.

A edição da Devir – primeiro mangá da editora – inaugura a coleção Tsuru, que reúne obras de autores japoneses, clássicos e contemporâneos, historicamente importantes para os quadrinhos.

O resgate é importantíssimo, pois Taniguchi, além de ser um dos melhores autores do Japão, é totalmente esquecido no Brasil. Para se ter uma ideia, foram publicados por aqui O livro do vento (Panini, 2006), escrito por Kan Furuyama, apenas o primeiro volume de Seton (Panini, 2008), com roteiro de Yoshiharu Imaizumi (faltaram mais três edições da série), e Gourmet (Conrad, 2009), este último – uma viagem gastronômica – em parceria com Masayuki Kusumi.

O volume em brochura tem capa cartonada sem orelhas, uma sobrecapa, formato 17 x 24 cm, papel antirreflexivo munken print cream, com boa gramatura e impressão. Apesar de todo o miolo ser em preto e branco, alguns tons cinzas das passagens dão pistas de que aquelas páginas poderiam ter sido coloridas no original. Com uma busca mais detalhada na internet, pode-se constatar isso.

O homem que passeia

O homem que passeia

Nos extras, uma bem-vinda entrevista que Jiro Taniguchi concedeu ao diretor e escritor belga Jean-Philippe Toussaint, em 2008, e notas biográficas sobre o autor.

Alguns descuidos editoriais também vêm à tona durante a leitura, como os erros de revisão, a exemplo de falta de vírgulas ou equívocos ortográficos (“idéia”, “européia”, “beira mar” etc.), além de um “banda desenhada” – termo dado para HQs em Portugal – na seção do próximo lançamento.

A matéria assinada pelo jornalista Hermano Vianna (originalmente feita para O Globo, em 2011) e que serve de prefácio para O homem que passeia, tem uma série de afirmações imprecisas: fala de um roteiro do parceiro de Taniguchi em Gourmet, Kusumi, diz que reúne apenas oito passeios (são 18 no volume) e descreve um episódio cujo título e descrição não estão presentes no álbum (“Os pepinos amargos no meio da noite”, que, na verdade, é de uma obra chamada Sanpo Mono).

Infelizmente, essas falhas tiram a nota máxima que pertence indubitavelmente à história em quadrinhos. Uma estreia bem acertada do selo da Devir, cujo próximo do catálogo é Nonnonba, do Shigeru Mizuki (1922-2015).

No final da leitura, quando for sair para dar uma volta, é impossível não se lembrar da reaprendizagem da arte contemplativa da vida. É como Taniguchi fala no final da sua entrevista: “A pessoa que está presente, ali, na caminhada, é o mais próximo do que ela é de verdade”. Fato.

Classificação

4,5

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