O Xerife da Babilônia – Volume 1 – Bang. Bang. Bang.

Por Audaci Junior
Data: 27 outubro, 2017

O Xerife da Babilônia – Volume 1 – Bang. Bang. Bang.Editora: Panini Comics – Série em dois volumes

Autores: Tom King (roteiro) e Mitch Gerads (arte e cores) – Originalmente em The Sheriff of Babylon # 1 a # 6 (tradução de Levi Trindade).

Preço: R$ 24,90

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Maio de 2016

Sinopse

Bagdá, 2003. O reinado de Saddam Hussein acabou. Os norte-americanos estão no comando agora. E ninguém está no controle.

Contratado pelos militares como prestador de serviço, o ex-policial Christopher Henry sabe disso melhor do que ninguém. Ele está no país para treinar a nova força policial iraquiana, mas um de seus recrutas foi assassinado em plena Zona Verde ocupada pelos Estados Unidos.

Com a autoridade civil em frangalhos e corpos entulhando as ruas, Chris é a única pessoa realmente interessada em descobrir o culpado pelo crime e a motivação por trás do ato. A investigação o leva primeiro a Sofia, iraquiana criada na América que agora ocupa uma cadeira no conselho de governo, e então a Nassir, um veterano da força policial de Saddam, muito provavelmente o último investigador de verdade que resta em Bagdá.

Unidos pela morte, mas divididos por lealdades conflitantes, os três precisam ajudar um ao outro no traiçoeiro cenário pós-invasão do Iraque para encontrar quem cometeu o crime. Mas o que os motiva é justiça ou algum outro interesse oculto?

Positivo/Negativo

No final dos anos 1970, o Iraque sofreu um golpe de Estado, e o ditador o Saddam Hussein assumiu presidência do país. Na mesma época, no vizinho Irã, o aiatolá Khomeini fez a revolução dos xiitas, muçulmanos historicamente mais ortodoxos que os sunitas, seus opositores.

Ambos entraram numa guerra que perdurou até 1988, sendo os iraquianos apoiados pelos norte-americanos e os iranianos, pelos soviéticos, no baile da Guerra Fria.

Já no começo dos anos 1990, o Iraque foi manchete mundial de novo pelo conflito com outro vizinho, o Kuwait, devido a questões envolvendo política de preços do petróleo e o controle de portos para o Golfo Pérsico. Desta vez, os Estados Unidos estavam do outro lado nessa dança das cadeiras.

Depois da Guerra do Golfo, houve ainda revoltas do povo curdo e dos xiitas – no Norte e no Sul do Iraque, respectivamente – contra o regime de Saddam. Chegou a ter embargo comercial imposto pela Organização das Nações Unidas, por influência estadunidense e foi atacado pelo Tio Sam e pelo Reino Unido, para acabar com a produção de supostas armas de destruição em massa.

Esse mesmo argumento foi usado para, em 20 de março de 2003, a coalizão anglo-americana intervir militarmente no Iraque, sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Uma das imagens mais famosas da ocupação foi a derrubada da estátua do ditador, na Praça do Paraíso. Saddam foi caçado, capturado, julgado e condenado à morte por crimes de guerra, sendo enforcado em 30 de dezembro de 2006.

De forma resumida, esse era o quadro do Iraque em que se passa O Xerife da Babilônia, num país ainda com conflitos sectários e com o poder político fragmentado e descentralizado após a queda do regime.

Ex-assistente do roteirista Chris “X-Men” Claremont e ex-agente da CIA na unidade de contraterrorismo pós-11 de Setembro (que o levou ao Iraque), Tom King está bem à vontade nesta trama passada meses depois da queda de Saddam, na qual o protagonista Christopher Henry – norte-americano que treina uma “nova” polícia iraquiana – tem um dos recrutas assassinado em plena Zona Verde, área controlada pelas forças militares de George W. Bush e da Rainha Elizabeth.

Apesar de cometer um dispensável clichê hollywoodiano para apresentar o personagem principal logo no começo (um ato de coragem mais para mostrar que a força bruta ainda é a lei por ali), a trama segue bem montada e prende a atenção mesmo de quem não sabe distinguir os mulçumanos sunitas ou xiitas.

Sem pressa e sutil, King conta com a ajuda da bela arte de Mitch Gerads (que também faz uma consciente e sóbria paleta de cores) para apresentar personagens femininas fortes e peculiares, como a esposa de Nassir, ex-policial de Saddam que auxilia Henry na investigação. Ela é uma mera coadjuvante quando é apresentada, passa a ganhar profundidade num capítulo que se passa inteiro numa das mansões devastadas de Hussein, até fazer parte vital de uma das grandes cenas de tensão do encadernado.

Junto do “xerife” e de seu auxiliar, quem ganha destaque na série é a intrigante Sofia, iraquiana criada nos Estados Unidos. Pela sua visão dos “dois mundos”, ela é o instrumento de crítica do roteirista, pois pode testemunhar as mazelas das manobras políticas em meio ao caos, julgar que “todos os americanos são caubóis” e presenciar o contentamento iraquiano frente à ocupação.

O maior impacto em termos de ação em O Xerife da Babilônia é um atentado com uma bazuca. O preconceito, a tensão e os fantasmas do passado povoam as páginas, sempre com um desfecho instigante para cada capítulo.

A edição da Panini segue o exemplo dos encadernados mais em conta da editora: capa cartonada, formato americano (17 x 26 cm) e papel LWC com boa impressão.

Por ser assinado por autores que estão despontando (King está no título mensal do Batman – Renascimento e Gerads desenhou o Justiceiro em recentes volumes lançados por aqui), houve uma preocupação em destacar citações positivas da mídia especializada para a série, presente tanto na capa quanto na quarta capa do volume.

Isso é louvável, mas o excesso termina sendo algo redundante e descabido, já que a primeira página da edição está cheia de mais aspas da crítica. A Panini poderia ter pensado em produzir neste espaço uma introdução na qual situasse as condições históricas, econômicas e sócio-políticas iraquianas para o leitor entrar no clima da época. Seria melhor do que ter colocado citações que não serão lidas na banca em virtude do encadernado vir lacrado.

Em certas passagens da série, houve o descuido também de não colocar notas acerca de certas expressões ou definições, a exemplo do comumente citado “imã” (ou “imame”), que é uma espécie de guia no culto islâmico.

Apesar de promover um “diálogo”, outro ponto negativo são as capas funcionais de John Paul Leon (de Terra X), bem aquém dos detalhes e sofisticação de Mitch Gerads.

Uma curiosidade para os mais atentos: o ator Matt Damon chega a ser citado em uma sequência perto do Arco da Vitória (monumento de espadas cruzadas construído em homenagem aos soldados que morreram na guerra Irã-Iraque), em Bagdá, provavelmente pelo seu sucesso em A Identidade Bourne (2002). Em 2010, o artista foi o protagonista de Zona Verde, filme dirigido por Paul Greengrass (de A Supremacia Bourne), que fala justamente sobre a ocupação em 2003.

Já que o foco é a investigação de assassinato e não o treinamento de iraquianos pelos militares estadunidenses, na coletânea recentemente lançada no Brasil de Joe Sacco, Reportagens, o autor detalha tal rotina numa de suas HQs jornalísticas, funcionando como um complemento para a imersão da obra, que terá seu desfecho no segundo volume.

Classificação:

4,5

• Outros artigos escritos por

.

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Esse gibi é muito bom. Panini tem que publicar a continuação logo.

  • Felipe Lima

    Olha, não esperava muita coisa, e achei muito bom. Ansioso pelo volume 2.

  • Ed mundo

    Esse título me surpreendeu, muito bem escrito. Cadê o vol.2?

    • Audaci Junior

      A Panini lançará ano que vem, Ed mundo! Infelizmente, acho uma estratégia equivocada, já que o segundo TP gringo já estava por ai. Será muito “espaçado”, o que pode afugentar outros leitores que não notaram esse volume nas bancas…

      • Ed mundo

        A Panini tem dessas coisas, até hoje espero o vol.3 de Shade.

        • Shade já teve volume 3. Só não vai sair disso, já que a DC parou a republicação no terceiro. O que me incomoda é nunca mais ter saído Sandman Teatro do Mistério. Isso sim é um bola foraço!

          • Ed mundo

            Obrigado por me lembrar, Rodrigo. O pior é que comprei e não lembrava, conferi agora na estante.

    • Audaci Junior