Olimpo tropical

Por Audaci Junior
Data: 9 março, 2018

Olimpo tropicalEditora: Jupati Books (Marsupial) – Edição especial

Autores: André Diniz (roteiro) e Laudo Ferreira (arte).

Preço: R$ 52,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Novembro de 2017

Sinopse

Um inferno particular, onde o respeito virá pelo crime; e a paz virá pela vingança. Este é o Olimpo de Biúca. Mesmo sendo manco, o destino o ajuda: agora, ele é vigia do tráfico de drogas, com a missão de atirar nos policiais que ousarem invadir a favela pela única escada de acesso.

Um Inferno camuflado de Paraíso, pelos olhos enganosos de um jovem sonhador.

Positivo/Negativo

Olimpo, além de ser o ponto mais alto da Grécia, é referenciado na mitologia como o lar dos deuses, onde há um portão de nuvens, protegido pelas deusas conhecidas como as Estações. Lugar de festejos ao som das melodias das Musas.

Ao seu modo, escalar o sonho para estar entre o panteão dos “deuses” é o objetivo de Biúca, um garoto de 15 anos que se locomove com ajuda de uma bengala. Assim como o ferreiro dos deuses, Hefesto, filho de Zeus e de Hera, ele é manco.

Paralelos poéticos são colocados no roteiro de André Diniz, nos quais a favela pode ser qualquer uma do Rio de Janeiro ou até do Brasil. Não precisa ser mapeada em um morro propriamente dito, cuja elevação pode ser encarada metaforicamente como as dificuldades sociopolíticas para se escalar e atingir o topo da igualdade.

A subida é bem mais íngreme para Biúca, o marginalizado entre os marginalizados. As brincadeiras da rua promovem um retrato por vezes mais próximo da realidade do que se pode esperar. Nas entrelinhas, se movimenta um universo povoado por criminalidade, violência, corrupção, desigualdade e carência de pilares básicos como a educação.

Por que Biúca opta por galgar os degraus de se tornar um vigia do tráfico? Por acaso é uma escolha “mais fácil”? São sonhos errados? Com isso, ele se torna menos humano, assim como os policiais que, aparentemente nesse contexto, só querem terminar o serviço? Tudo isso é bem mais complexo.

O autor não julga as ações de seu personagem, que espera buscar alguma espécie de redenção pelos seus atos, mas sempre vai ter complicações nessa trilha morro acima. Há bons momentos de tensão, convivendo também com alguns aspectos que incomodam por não serem críveis nas situações, principalmente no ato final.

Apesar da previsibilidade, o que claudica na HQ são algumas peças colocadas para o drama fácil, mesmo que seja algo tão “normal” e superficial no contexto em que a maioria das informações e histórias chegam para o público em geral, por meio do imediatismo das mídias.

Mesmo assim, é válida a visibilidade que os autores dão a Biúca, um produto que só teria importância para boa parte da sociedade se estivesse morto e, para outra parcela, se respondesse a tiros caso surgissem policiais no pé da escadaria. Racionalizar soluções para esses problemas é tão inalcançável quanto o Olimpo.

Os desenhos em preto e branco de Laudo Ferreira (de Yeshuah, Cadernos de Viagem e Tianinha) continuam bem dinâmicos e expressivos, mas um pouco diferentes da sua produção anterior: bem mais soltos do que de costume. Essa agilidade no traço contribui muito com o roteiro, fazendo com que se reconheça de imediato as formas e feições dos personagens ao longo da narrativa.

Lançado pela Jupati, selo da Marsupial Editora, Olimpo Tropical tem formato 20,5 x 27,5 cm, capa cartonada com orelhas, papel off-set de boa gramatura e impressão.

Assim como a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes (1913-1980), há alegorias de Musas na mira de balas perdidas, desorientações no labirinto do Minotauro e o roubo do fogo de Héstia para chutar aos mortais. As tragédias gregas de um país tropical.

Classificação

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