Os Passageiros do Vento # 6 – A Menina de Bois-Caïman

Por Sidney Gusman
Data: 18 fevereiro, 2011

Os Passageiros do Vento # 6 - A Menina de Bois-CaïmanEditora: Asa Edições – Edição especial

Autor: François Bourgeon (texto e arte).

Preço: € 9,90

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Outubro de 2009

Sinopse

O ano é 1863. Isabeau, chamada carinhosamente pelos escravos de Miss Zabo, é uma mulher independente e corajosa. Não hesita em atravessar praticamente sozinha uma parte dos Estados Unidos, saídos há pouco da guerra civil e com estradas destruídas e recheadas de bandidos. E chega até mesmo a expor suas opiniões anti-União perante oficiais do exército vencedor.

Por essas características, Zabo lembra outra Isabeau, sua bisavó, a quem está indo encontrar, na companhia de um jornalista francês que conheceu no meio do caminho.

Aparentemente sem afeto, o encontro das duas vai desencadear uma série de recordações na velha senhora.

Agora, entre divergências de opiniões das duas, é o momento de Zabo saber mais sobre a história de sua bisavó.

Positivo/Negativo

O francês François Bourgeon publicou a ótima série Os Passageiros do Vento na Europa em cinco volumes, de 1980 a 1984. A editora portuguesa Meribérica/Liber chegou a trazer esses álbuns para o Brasil e alguns felizardos os têm em suas coleções – era especialmente difícil encontrar o quinto tomo, Ébano.

A encantadora (e sofrida) história da bela morena Isabeau – ou apenas Isa, como é chamada -, se passava no final dos anos 1700. Emancipada e corajosa ao extremo, a protagonista vive suas desventuras da França à África, passando por batalhas marítimas, tempestades, motins, revoltas de escravos etc.

A saga terminou, de forma bastante aberta, com Isa nas Caraíbas (ou Caribe). Tempos depois, em 1997, Bourgeon fez uma página de epílogo (veja clicando sobre a imagem ao lado) da série para o 239º e último número da revista A Suivre, deixando claro que Isa, que aparece bem mais velha e sem mostrar o rosto, teria vivido muitas outras histórias.

Página de Os Passageiros do Vento # 6 - A Menina de Bois-CaïmanAinda assim, foi com surpresa que o mundo dos quadrinhos recebeu, em 2008, a notícia de que o autor voltaria à série Os Passageiros do Vento, com dois álbuns. Afinal, haviam se passado 25 anos.

E neste primeiro tomo o leitor começa desconfiado. Logo na primeira página, nota que, pela data no recordatório inicial, muito tempo se passou desde o final de Ébano. Mais: quem protagoniza a história é outra Isabeau, ruiva, na Louisiana, nos Estados Unidos, nos anos da Guerra da Secessão e da luta pela libertação dos negros.

A personagem é jovem e teve sua casa destruída no conflito. Culta, autêntica e com uma língua extremamente afiada, ela cativa o leitor, mesmo sendo contrária à abolição dos escravos e tendo opiniões bastante radicais.

Mas o estranhamento dura até essa nova Isabeau, que prefere ser chamada pelo apelido Zabo, revelar ser bisneta da Isa da série clássica. E que está indo ao encontro dela, que está com 98 anos.

Bourgeon trata de mostrar que o relacionamento das duas é frio, distante. Mas isso começa a mudar a partir da página 60, quando a Isa mais velha começa a relatar à bisneta o que se passou entre o final de Ébano e aquele momento.

Aí, o show do autor começa.

É explicado como Isa chegou à Louisiana e os novos rumos que sua vida tomou – pra variar, com algumas tragédias (como ser violentada e espancada por três escravos) no percurso. E tudo marcado por diálogos curtos, porém certeiros, e cenas em que só a imagem “fala”.

Durante a leitura, é nítido que, como fizera da série original, Bourgeon realizou uma extensa pesquisa da época para compor seu roteiro. Há, por exemplo, textos em crioulo haitiano e no dialeto dos cadianos (ou cajuns), franceses radicados na região, devidamente traduzidos para o português nas páginas finais do álbum.

Para completar, a arte do francês é, poupando adjetivos, magnífica. Suas páginas merecem ser admiradas por vários minutos, mesmo depois de lidas. Além disso, com uma constante variação da diagramação dos quadros, Bourgeon dita o ritmo da narrativa de modo extremamente competente.

Nada no desenho é explícito. Um exemplo é a cena de violência sexual que Isa sofre. São mostradas peças de roupas sendo jogadas pelo ar e o ato, em si, é envolto por sombras.

Aproveitando o lançamento dos dois novos álbuns da série, a Asa publicou a série inteira em parceria com o jornal Público: a cada domingo, um álbum era vendido junto com o periódico – a editora realiza essas ações constantemente. E os cinco primeiros volumes ganharam capas novas, que podem ser vistas aqui.

Os dois novos Os Passageiros do Vento também passaram a ser vendidos em livrarias, em edições com capa dura (as do jornal eram cartonadas).

Editorialmente, o trabalho da Asa peca somente por uma mancada logo na página de rosto do livro: é mencionada uma frase do escritor Jorge Luís Borges, no livro História Universal da Infância, mas o nome da obra é História Universal da Infâmia.

Mas isso não diminui o mérito do álbum, que deixa um ótimo gancho para a conclusão da história e tem, numa frase quase perdida no meio da trama, uma homenagem de Bourgeon para sua personagem e esta incrível saga, quando Zabo diz, a respeito da bisavó: “… (é) uma aventureira que navega no vento da revolta.”

Classificação

4,5

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