Os Passageiros do Vento # 7 – A Menina de Bois-Caïman – Livro 2

Por Sidney Gusman
Data: 18 fevereiro, 2011

Os Passageiros do Vento # 7 - A Menina de Bois-Caïman - Livro 2Editora: Asa Edições – Edição especial

Autor: François Bourgeon (texto e arte).

Preço: € 6,50

Número de páginas: 72

Data de lançamento: Outubro de 2009

Sinopse

“O pai das águas nunca devolve os corpos”, diz Isa depois de revelar à bisneta Zabo as circunstâncias em que a sua filha mestiça morreu afogada no rio Mississipi.

Gravemente ferida, Isa leva cinco anos para se recompor física e emocionalmente dos ferimentos causados naquele episódio. Mas há feridas que nem mesmo o tempo fecha.

Durante toda a sua vida, Isa esteve ligada à água. E, depois dos mares, é a vez do grande rio dos Estados Unidos, com suas cíclicas grandes cheias e seu curso sinuoso, ditar os próximos capítulos da vida protagonista.

Afinal, não é para todos que o ditado “do pó viemos e ao pó voltaremos” vale.

Positivo/Negativo

Quando anunciou que lançaria novos álbuns da série Os Passageiros do Vento, em 2008, para surpresa dos fãs do mundo inteiro, o francês François Bourgeon já vinha trabalhando fazia tempo. Isso porque ele levou seis anos para concluir os dois livros.

E é nítido o esmero que dedicou à obra. O seu roteiro “transpira” pesquisa. Desde o modo como os escravos negros e habitantes da Louisiana falavam até as vestimentas e armas da época, passando pelos animais que habitavam o rio Mississipi, tudo é minucioso.

Seu roteiro não precisa sequer de recordatórios para mostrar as idas e vindas no tempo, quando Isa está contando à bisneta fatos de seu passado. Essa transição ocorre de maneira natural, por meio de desenhos e poucas palavras, como uma pergunta que é feita hoje e respondida ontem, em um flashback.Neste último álbum, Bourgeon trata de amarrar todas as pontas soltas que deixara no volume anterior e surpreende porque, às vezes, faz isso em apenas meia dúzia de quadros. Caso específico da passagem em que Isa conta à neta, enfim, como sua família foi formada. Do primeiro encontro com Jean, que viria a ser seu marido, ao nascimento de seus rebentos.

O mesmo vale para a revelação de que sua filha mestiça não era resultado do estupro que sofrera de três escravos, na primeira parte da história, mas sim de encontros furtivos que manteve com um escravo da propriedade onde vivia.

Aliás, a passagem em que a filha mestiça é vendida para mercadores de escravos pelo cunhado do sogro de Isa e a subsequente tentativa de resgate, seguida de seu afogamento é de uma angústia quase palpável.

Isso fica ainda mais acentuado devido ao desenho exuberante de Bourgeon. Seus cenários, enquadramentos e narrativa são um primor. E como é bom ver artistas que não fazem todos os personagens com o mesmo rosto.

Por falar em rosto, é notável como o francês retrata a envelhecida Isa. A sua beleza inebriante continua ali, escondida sob as rugas tão bem desenhadas e as cicatrizes que a vida lhe reservou.

Não é à toa que François Bourgeon figura no seleto grupo de autores de quadrinhos que escrevem e desenham com o mesmo brilhantismo, ao lado de nomes como Will Eisner, Hugo Pratt, Osamu Tezuka, Carl Barks, Hergé, Quino, Bill Watterson e poucos outros.

Asa publicou Os Passageiros do Vento na íntegra em parceria com o jornal Público: a cada domingo, um álbum era vendido junto com o periódico. A editora realiza essas ações com frequência, presenteando os leitores portugueses com belas coleções, a preços mais em conta. E os cinco primeiros volumes da série ainda ganharam capas novas, que podem ser vistas aqui.

Vale mencionar que esses dois novos álbuns também ganharam capa dura (as do jornal eram cartonadas) para serem vendidos em livrarias. E, editorialmente, o trabalho da Asa é irretocável neste volume. Um tratamento digno da grandeza de Os Passageiros do Vento.

Se no começo pairaram dúvidas sobre a decisão de Bourgeon continuar a série, ao chegar às emocionantes páginas finais (nas quais o leitor chega a sentir um aperto de tristeza no peito), é inegável que o autor não apenas saiu-se bem em sua tarefa, como conseguiu algo raro: dar aos novos álbuns o adjetivo “clássico” que os anteriores carregam há mais de duas décadas.

Classificação

5,0

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