Paolo Pinocchio

Por Paulo H. Cecconi
Data: 11 abril, 2014

Paolo PinocchioEditora: Zarabatana – Edição especial

Autores: Lucas Varela (roteiro e arte).

Preço: R$ 54,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Janeiro de 2014

Sinopse

Uma versão avessa do boneco Pinóquio, mau caráter e malicioso, vivendo histórias com humor, malícia e muita mentira, é claro.

Positivo/Negativo

Pinóquio, o personagem de Carlo Collodi, mente compulsivamente, porém, mesmo que para escapar de problemas, são mentiras contadas com certa inocência. Ao menos, era assim com aquele boneco de madeira popularizado pela Disney na década de 1940, que almejava se transformar num menino de verdade, procedia.

A versão do autor Lucas Varela é um pouco mais maliciosa. Para Paolo Pinocchio, a mentira é uma questão de autopreservação. Seja para escapar de algum problema com as autoridades ou apenas para saciar desejos mesquinhos, o contexto dos embustes do boneco possui uma pontinha de realidade como em nenhuma outra versão. Afinal, quem nunca mentiu para tentar se safar de alguma coisa que sabia que era errada?

No caso do personagem, evidente, a mentira é compulsiva, mantendo-o num círculo vicioso: é condenado à morte por “aprontar” algo moralmente condenável pelos “líderes” da sociedade, como passar uma noite com a filha de um juiz, ou praticar uma orgia em um convento; é executado e vai direto para o Averno (na mitologia romana, um lago onde se encontra a entrada para o submundo). Lá, seu único objetivo é escapar, e utiliza qualquer meio necessário, inclusive – e por que não? – as almas em eterna tortura, sem auxiliar qualquer uma em troca.

Pinocchio é indiferente (característica claramente evidenciada por sua monoexpressão apática) e, para ele, o Averno não é um lugar de tortura e sofrimento, mas apenas um ambiente chato, onde não possui liberdade, o bem mais cultuado pelo protagonista.

Essa apatia e a falta de limites para a obtenção de seus objetivos, obviamente não tornam o personagem confiável. É um mau caráter de marca maior.

Logo no primeiro capítulo, vê-se uma sequência de vários painéis em que o boneco mente e engana vários personagens clássicos da literatura mundial, como Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida e, numa piada um pouco mais pesada, João e Maria. No entanto, são justamente essas as características que o tornam cativante, e a “maldade” na qual suas intenções são sedimentadas funcionam como uma alavanca para o humor.

É uma fórmula antiga; vários personagens cômicos clássicos dividem essa característica em comum. Pica-Pau, Pernalonga, Bart Simpson, todos possuem a mentira e a malícia como marca registrada. A linha entre a maldade e o humor é mais tênue do que muitos possam imaginar.

Apesar de ser predominantemente humorística, a obra possui aspectos filosóficos e críticas relevantes. O tema “liberdade”, citado anteriormente, é um deles. Pinocchio apenas é condenado por atitudes que ofendem a sociedade. Nenhum crime efetivamente nefasto faz parte do currículo do boneco. Ainda assim, é constantemente caçado pela ordem vigente.

Sua personalidade “avessa” e, em termos, honesta (no que diz respeito a ir atrás do que deseja, não possuir pudor em relação à sexualidade e às preferências efêmeras) e a perseguição que sofre fazem uma analogia à falta de liberdade e ao controle de uma sociedade hipócrita.

Contudo, é importante notar que tais desejos, mesmo não sendo dominantes num indivíduo inserido no contexto social, existem e, dada a devida oportunidade, muitos lhe são fiéis.

O que difere Pinocchio do resto do mundo é a indiferença com as consequências, e apenas isto. A liberdade é o prêmio máximo, não importa o que precise fazer para obtê-la. E não é apenas do Averno e da danação eterna que aspira escapar, mas de qualquer situação na qual tenha que ficar confinado.

Isto se torna claro quando o boneco está numa ilha onde as mulheres o adoram e está bem servido de carnes e vinhos. Mesmo com todas essas vantagens, ele dá um jeito de fugir – fazendo uso de uma mentira, claro –, partindo para a liberdade em águas desconhecidas.

A obra também possui referências literárias e menções a mitologias, o que alimenta um aspecto cultural que, talvez, muitos julguem desnecessário para a HQ, já que o viés mais enfático é o humor. Mas são citações extremamente bem-vindas e coerentes com o contexto.

Por exemplo: a edição começa com uma rápida visita de Dante e Virgílio (representado no livro por um cachorro), os protagonistas da Divina Comédia, de Dante, ao Averno, procurando o significado da dor. Em outro momento, num diálogo em que Paolo tenta provocar um demônio, são mencionadas a serpente de Midgard (a Terra ou o reino dos humanos, lugar cercado por um oceano habitado pela enorme serpente, na mitologia nórdica) e o Jardim das Hespérides (habitado pelas ninfas, na mitologia grega). Essas alusões que permeiam a comédia dão uma qualidade enriquecedora e um “sabor” especial à fantasia.

Um ponto que merece destaque é que, apesar de ser um trabalho que faz da religião um alvo, não se conter ao ofender os bons costumes, fazer piadas sobre pedofilia e infanticídio e apresentar um protagonista com um egoísmo extremado, a obra possui uma lição otimista por traz do desdém.

Paolo Pinocchio representa uma sugestão do autor para uma vida mais leve, menos estressada, na qual as coisas são encaradas com menos seriedade, e sempre com energia para fugir de uma rotina infernal.

Afinal, “o inferno é só um estado da alma”, diz Ismênia, uma sacerdotisa do templo de Ártemis, a divindade grega, resgatada do Averno por Pinocchio. Aliás, Ismênia, em grego, significa “aquela que muito sabe”.

Este é o quarto volume da Coleção Fierro – precedido pelos elogiados Dora, de Ignácio Minaverry, e Noturno e Angella Dela Morte, ambas de Salvador Sanz –, que reúne histórias publicadas na excelente revista argentina homônima. O tratamento dado à edição pela Zarabatana é muito competente, com um acabamento digno da bela arte de Lucas Varela, cujo traço arrojado, limpo e claro, com uma paleta de cores suaves agrada com facilidade os entusiastas do estilo europeu e convida leitores desacostumados a uma arte mais sofisticada a apreciar a obra.

Alguns aspectos dos textos poderiam ser lapidados por meio de uma união mais próxima no trabalho de tradução e revisão, evitando repetições de termos e tornando algumas frases mais fluidas. Porém, é um mero detalhe, pois isso acontece em poucos balões e os diálogos permanecem engraçados e nenhum sentido é perdido.

Mais uma vez, ponto para a Zarabatana pelo trabalho de qualidade e por finalmente permitir que o Brasil testemunhe um trabalho extremamente imaginativo, engraçado e com mais profundidade do que se possa perceber em um primeiro momento.

Classificação

4,5

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