Saga – Volume Dois

Por Audaci Junior
Data: 23 dezembro, 2016

Saga – Volume DoisEditora: Devir – Edição especial

Autores: Brian K. Vaughan (roteiro), Fiona Staples (arte) – Originalmente publicado em Saga # 7 a # 12 (tradução de Marquito Maia).

Preço: R$ 65,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Dezembro de 2015

Sinopse

Continua a fuga dos soldados de lados opostos, numa longa e devastadora guerra intergaláctica – a aterriense Alana e o grinaldense Marko –, que, junto com a filha recém-nascida Hezel, enfrentam as decisões tomadas por uma união sumariamente proibida.

Junto de Izabel, uma babá fantasma, eles já passaram por assassinos mortíferos, exércitos enfurecidos e monstruosidades alienígenas, mas é na vastidão fria e escura do espaço que o bebê enfrentará o maior desafio da família: seus avós paternos.

Paralelamente, tanto o Príncipe Robô IV de Aterro, quanto o mercenário contratado de Grinalda, O Querer, estão no encalço da nave de fuga.

Positivo/Negativo

Como foi dito na edição anterior, boa parte da criação de Brian K. Vaughan para Saga veio da sua realização de ser pai. Ligando os pontos durante a leitura da série, e eliminando os elementos fantásticos de ficção científica, é nítido como os dramas familiares fazem parte fundamental da obra.

São problemáticas bastante corriqueiras, como a empatia de opostos para um relacionamento, o rompimento de noivados arranjados, a falta de experiência com a vinda do primeiro filho ou as discussões com os pais sobre a nora indesejada.

Enquanto vai acontecendo o jogo de gato e rato no espaço, democraticamente os coadjuvantes vão ganhando mais detalhes com o avanço da trama. Criaturas como o obstinado Príncipe Robô IV e o implacável mercenário freelancer O Querer, com seu Gato das Mentiras, consolidam suas personalidades, sendo revelados, respectivamente, transtornos de estresse pós-traumático de guerra e o quão “ético” pode ser o antagonista em relação a uma criança desamparada (que se revela mais tarde ter função na caçada).

Ao mesmo tempo, aparecem novos personagens, como uma certa enviada do secretário-geral do alto escalão da Grinalda para somar os problemas do casal fugitivo, o escritor ciclope favorito de romances água com açúcar que Alana devora e ainda os avós paternos da pequena Hezel. Sobre esses últimos coadjuvantes, há um pequeno vislumbre do passado (estrutura comum no começo de cada capítulo) sobre a educação de Marko para justificar suas ações e entraves no presente.

Outra característica narrativa marcante na maioria dos capítulos é a utilização de um cliffhanger para prender a atenção, na pegada de um seriado televisivo. O gancho no final deste volume atiça muito a curiosidade para o próximo compilado.

Acerca do livro “romântico” que é o elo da então soldada Alana e o prisioneiro Marko – revisto nas lembranças da pequena Hezel –, a relação é bem mais intrínseca com a série quanto se pensava no começo.

A obra que entusiasticamente a aterriense acompanhava e tentava passar sem sucesso para suas colegas de turno no presídio vai além de uma história envolvendo um monstro de pedra que se envolve com a filha do milionário dono da pedreira. Esse enredo se revela como uma metáfora crítica para a longeva guerra intergaláctica que ainda perdura entre Aterro e Grinalda.

Fazendo uma comparação com a nossa realidade, a alegoria é uma maneira como os intelectuais burlavam as censuras de regimes ditatoriais para difundir ideais de liberdade, inclusive aqui no Brasil.

Por causa desse escrito e da compreensão de ambos das suas entrelinhas, a empatia entre o casal de protagonistas é atada. O que parecia uma pista sem propósito seguida pelo perspicaz Príncipe Robô IV, na edição de estreia, se torna uma peça vital para a série.

Assim como o falso romance popular e meloso existente no seu universo, Saga se assemelha a uma space opera, subgênero da sci-fi que prima pelo épico e o aventuresco. Mas o verdadeiro tour de force do título roteirizado por Vaughan e com a bonita arte (e cores) de Fiona Staples está no verniz que os autores usam na sua composição.

Essa sintonia despretensiosa – meio matinê de cinema mesmo – que transpira da série pode afastar quem busca algo cerebral ou “sério” demais. Em contrapartida, tal característica pode ser vista como um charme extra do título.

Mesmo tendo fórmulas batidas, como um sonho que se torna pesadelo no despertar, a obra tem o diferencial do estilo narrativo, que é subvertido na sua estrutura. Momentos românticos viram rompantes de fúria, sequências que poderiam seguir à risca da inocência (ou concentradas apenas na “aventura”) tornam-se grotescas, bem-humoradas ou ainda de cunho sexual, quesito bastante esquecido no gênero, apesar de se ter bons exemplos como Ranxerox, Druuna e Barbarella.

As sutilezas de Brian K. Vaughan numa aproximação com a nossa realidade de relações familiares e sociais supracitadas provocam toda a graça e o sentido, justificando o destaque de Saga nas principais premiações mundiais de quadrinhos.

A Devir continua com a qualidade vista no primeiro volume, com capa dura, formato 18,4 x 27,2 cm (maior que o “americano”), papel couché com boa gramatura e impressão. De material extra, apenas uma pin-up assinada pelo quadrinhista Paul Pope (de Bom de Briga e 100%), duas artes para cartões ex-líbris de tiragens limitadas estrangeiras e um esboço de Staples.

Classificação

4,0

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Saga - Volume Dois

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