Salto

Por Audaci Junior
Data: 2 março, 2018

SaltoEditora: Avec – Edição especial

Autor: Rapha Pinheiro (roteiro e arte).

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Dezembro de 2017

Sinopse

Era uma vez, certa cidade onde todos eram feitos de fogo. Um dia, começou a chover e o povo fugiu para as cavernas, se perdeu e terminou por construir uma nova cidade nos subterrâneos, longe da precipitação eterna.

Com a cor de sua flama diferente dos outros, Nü é um dos habitantes desse lugar, aquecido pelo seu tino desafiador de praticar saltos por ai. Mas um acidente acontece, e a sua vida poderá ser mudada, assim como a de todos que moram lá.

Positivo/Negativo

Com um começo digno de fábulas, Salto apresenta a cidade de Intos, local que tem ares steampunk, com chaminés e detalhes rústicos das casas de madeira que remetem a uma vilazinha inglesa vitoriana, onde quem transita é um peculiar povo com cabeças em brasa.

Cidade de Intos

É numa sala de aula que o leitor sabe mais sobre como a cidade funciona e quem a comanda, além de conhecer um pouco mais sobre Nü, o jovem protagonista que adora dar seus pulos por ai para explorar os espaços, mesmo que isso seja proibido em alguns limites por causa da escassez de ar. Seu espírito aventureiro e inquieto sempre fala mais alto.

Como toda característica básica de protagonismo, ele tem motivações diferentes, além da sua chama ser azul: Nü não quer se render ao sistema e ter “um bom emprego” na fábrica de ar do Barão, o grande benfeitor responsável por fazer a cidade funcionar. Para fechar, adicione uma paixão secreta do garoto pela sua colega de escola, Mae.

O maior problema em Salto não são as premissas pra lá de batidas, como tambor no Carnaval. É o desenrolar da trama e seus detalhes sem fundamentos. Independentemente da suspensão de descrença, já que pode-se acender um charuto na própria cabeça e, ao mesmo tempo, usar chapéus.

Como uma espécie de “Patinho Feio”, Nü é hostilizado por ter uma flama azul, diferente dos outros. Fora um ou outro bullying, isso não chega a ser explorado de maneira que funcione para a trama em si. O que poderia encaixar (ou fazer parte) do estopim para ele se exilar, em determinado momento é deixado de lado, fazendo com que essa crítica acerca do preconceito seja isolada, sem função para a narrativa avançar de maneira natural.

Partindo de alguns desses casos preconceituosos, vem a parte mais esquisita do roteiro: mais de uma vez, o autor usa notas de rodapé para justificar certas expressões nas passagens de discriminação, mas em inglês (?!). Em nenhum momento – seja no prefácio ou na própria nota – isso é explicado, já que a HQ é “falada” e lançada originalmente em português. Muito mau, na verdade, mas ainda em português.

Para se ter uma ideia, um funcionário debocha de Nü, dizendo para ele não ser tão “azul” (“blue”, em inglês, no sentido de “triste”). Um termo totalmente sem cabimento ou necessidade para a história em si, já que o trocadilho se perde na nossa língua. Mais desnecessário ainda é outra expressão, “out of the blue”, que colocada em português perde-se completamente o sentido da “provocação”. Firulas sem nenhum cabimento.

Nesse tocante, é inadmissível haver tantos erros crassos da língua portuguesa. São dezenas de equívocos que poderiam ser evitados até numa única leitura, mas que o revisor (sim, a obra credita um) deixou passar. Falta de vírgulas, ausência de acento grave, emprego errado do uso do “porque”, do “mau/mal”, “afim” no lugar de “a fim”, várias redundâncias, ausência de acentos e outros escorregões de fazer vergonha.

Os desenhos de Rapha Pinheiro valorizam os olhares dos personagens, a única forma de expressão facial, um obstáculo que o autor soube muito bem contornar. Já a narrativa tem um bom ritmo em várias sequências (principalmente as sem diálogos), mas peca em passagens mal construídas.

Um exemplo é a falta de coerência espacial quando o protagonista leva um flagrante. Além de não estar escondido, exposto totalmente do lado de fora de uma janela, o ângulo do campo de visão dos personagens dentro da sala poderia perfeitamente notar o bisbilhoteiro, que – para agravar – tem uma cabaça em chamas.

Voltando aos tropeços do roteiro, se o leitor notar bem, não há nenhuma funcionalidade em levar um amigo inventor numa missão. Muito menos acrescenta o seu foguete de costas, já que Nü tem suas próprias habilidades acrobáticas para burlar a segurança.

Para não achar que tais exemplos são apenas preciosismos, o que poderia ser uma “reviravolta” perde totalmente o sentido quando se pensa um pouco sobre as condições nas quais o personagem principal retorna. É mais do que previsível saber a reação da população diante de um “salvador” cuja fama é outra.

Pior: sem provas contra seus algozes. O que pesa mais? O que era realmente esperado, além do óbvio ululante?

Salto tem um lado de entretenimento que agradará quem não se importar com a série de furos e a “astúcia” de seus personagens, como também possui suas camadas de crítica social, tão profundas quanto as discussões rasas presentes cotidianamente nas redes sociais sobre ideologias, manobras políticas, abuso de poder e preconceitos.

A obra foi vendida como uma reinterpretação do Mito da Caverna, de Platão, sobre como as pessoas interagem com o desconhecido que sai de sua zona de conforto. Ao final do álbum, a intensidade da presença dessa famosa alegoria é tão forte quanto uma fagulha.

As cores são o ponto alto do álbum. Os tons terrosos dos cenários subterrâneos contrastando com a iluminação dos próprios personagens são bem pensados e equilibrados na composição dos planos.

Imagem de SaltoImagem de Salto

A edição da Avec tem formato 21,3 x 27,7 cm, capa cartonada sem orelhas e páginas coloridas em papel couché de gramatura e impressão boas.

Rapha Pinheiro trabalha em uma continuação de Salto, agora focada no personagem Silas, misterioso capitão da polícia que veste uma armadura a vapor. Por causa de algumas atitudes tomadas pelo antagonista, há uma curiosidade para saber mais e, claro, se essa nova HQ se sairá melhor que a sua antecessora.

Classificação

1,5

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• Outros artigos escritos por

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  • Audaci Junior

    Caríssimo,
    Nesse caso, a concordância verbal pode se dar tanto com o sujeito qto com o predicativo.
    Agora, se o sujeito (ou o predicativo) fosse um pronome pessoal, aí sim, o verbo “ser” teria que concordar com o sujeito…
    Abraço!

  • Parabéns pela honestidade no review, é raro ver opiniões sinceras sobre quadrinhos nacionais normalmente, falam super bem ou fingem que não existe pra não serem criticados.