Spawn # 10 – Image

Por Delfin
Data: 21 dezembro, 2005

Spawn # 10Editora: Image Comics – Revista mensal

Autores: Dave Sim (roteiro) e Todd McFarlane (desenhos).

Preço: US$ 1.95 ($2.95 Can)

Número de páginas: 24

Data de lançamento: Maio de 1993

Sinopse

Após uma seqüência de pesadelos, Spawn finalmente vê que tudo sobre si parece ter sido revelado. Tudo, exceto, o que se encontra na sétima esfera dos infernos, Erebus, na qual nunca ninguém entrou e da qual ninguém nada sabe.

Mas é à frente desta porta que o Soldado do Inferno está agora. Prestes a descobrir terríveis verdades sobre sua criação, tendo por guia um personagem que parece saído de um desenho animado.

Positivo/Negativo

É impossível começar esta resenha especial sem apontar dois fatos. O primeiro, como todos sabem, é que esta é a única história de Spawn que nunca foi nem será publicada no Brasil (com o cancelamento do título pela Abril, agora o destino do personagem é ainda mais incerto – não que faça mesmo muita falta). Isto será explicado mais tarde.

Mas o segundo fato precisa ser comentado neste momento. E tem a ver com a gênese daImage Comics, à época um selo da Malibu Comics.

Pouca gente hoje se lembra (e os mais novos nem sabem), mas a Image era uma resposta de sete artistas oriundos da Marvel ao desprezo da indústria de quadrinhos ao seu trabalho.

Afinal, as gigantes Marvel e DC faturavam (e faturam) alto com todo tipo de produto derivado de seus personagens, além de possuírem o controle criativo sobre cada um deles, não importa quem tenha sido seu criador ou revitalizador.

Estes artistas “rebeldes” (a saber: Todd McFarlane, Rob Liefeld, Jim Lee, Whilce Portaccio, Marc Silvestri, Eric Larsen e Jim Valentino), após tentarem melhores condições da “Casa das Idéias”, reuniram suas forças e fundaram a Image, que tinha duas premissas básicas: o dono do personagem e de seu universo era o criador, não a editora; e nenhum autor interferiria no trabalho de outro. Assim, cercada do manto da justiça e da honestidade, surgiu a terceira força dos quadrinhos de heróis nos Estados Unidos.

Tal postura foi saudada e reverenciada por quase todos os grandes nomes de influência do mercado de escritores, desenhistas, coloristas e arte-finalistas. O fato de roteiristas como Alan Moore, Neil Gaiman e Frank Miller tirarem o chapéu para a iniciativa só fortalecia o grupo originalmente formado por desenhistas em essência. Tanto que estes três nomes, no primeiro ano da Image, colaboraram escrevendo para o título que logo se destacou dentre os sete originais: Spawn, de Todd McFarlane.

Cada uma dessas histórias continha a visão particular do escritor em relação ao nascente universo do Soldado do Inferno. Numa série de quatro aventuras, sempre com roteiristas diferentes, isto seria mostrado, no que era um brinde a uma nova era de quadrinhos, publicados com grande qualidade gráfica, cores espetaculares e efeitos até então raros na indústria.

No Brasil, essas histórias foram publicadas nas edições 8, 9 e 10, com roteiros, respectivamente, de Moore, Gaiman e Miller.

Mas não eram quatro histórias no arco?

Sim, mas a quarta, por uma opção de seu roteirista, nunca foi traduzida do inglês e nem publicada em países estrangeiros de outra língua. Ela se localizava entre as histórias de Gaiman e Miller e é, provavelmente, o ápice de todo o conflito entre as grandes editoras e os criadores até aquele momento.

Seu autor foi o mesmo homem que, em 1977, começou a mostrar ao mundo que era possível construir na América do Norte um personagem de grande popularidade com independência em relação à grande indústria. Seu nome é Dave Sim, criador do brilhante épico gráfico chamadoCerebus.

A história deste simpático porco-da-terra é assunto para um futuro review, mas, por ora, basta saber que é o próprio personagem que conduzirá Spawn pela sétima esfera dos infernos. Não por acaso, chamada de Erebus (nome do deus grego das trevas que habitava o mundo inferior).

Ao ultrapassar a porta da esfera, ele se defronta com inúmeros homens, amarrados, encapuzados e indefesos, e com um número ainda maior de seres superpoderosos, aprisionados numa cela impenetrável. Nem os poderes do Spawn são suficientes para livrá-los de lá. Nem mesmo todos os dons deles, cedidos ao Soldado do Inferno, podem sequer arranhar a grade.

E o demônio local, uma versão feminina do Violador trajando um vestido feito de bilhões de dólares, se regozija com o fracasso de Spawn. É quando aparece o sábio Cerebus, fumando seu cigarrinho e dizendo, pragmático, que não adiantava nada. E revelando ao leitor, se é que este ainda não tinha percebido o óbvio, que aquela esfera representava o mercado norte-americano de quadrinhos, pela ótica das grandes editoras.

É neste momento que a história perde a cor e Spawn se vê no universo de Cerebus, como convidado a conhecê-lo, sendo apresentado a um modo diferente de encarar as coisas, as possibilidades que, de outro modo, estariam fechadas a ele.

Do mesmo modo, o porco-da-terra retorna com o herói para o universo de Spawn (numa raríssima chance de se ver Cerebus colorido, como ele mesmo estranha na capa da edição), convidando-o, bem como ao leitor, a compreender a sua importância neste novo universo e a aceitar quem ele é, a nunca se vender ou corromper.

Em seguida, Cerebus se vai, como todo bom convidado que sabe que já deu a hora de ir embora.

Um dos grandes momentos dos quadrinhos da década de 1990, esta história é reveladora de ideais nos quais Sim ainda crê. Nos quais, ele achava, os autores da Image (e em particular McFarlane) também acreditavam.

O tempo, no entanto, foi minando a imagem do “pai” de Spawn. Em particular, os episódios de direitos autorais envolvendo os personagens criados para o universo de seu personagem por Neil Gaiman (como Ângela, por exemplo), que culminaram na imensa guerra pelos direitos de publicação de Miracleman (herói que está ausente do mercado desde a falência da Eclipse Comics).

O desgosto de Sim é grande, sendo quase certo, por conta disso, que esta história nunca seja mesmo republicada.

Vale destacar que Sim, quando escreveu esta aventura cheia de ironia e sagacidade, estava alcançando o clímax de sua produção com Cerebus. Um ano e meio depois da publicação deSpawn # 10, ele fez aquela que é considerada a mais controversa edição do personagem (cuja resenha entrará no ar na primeira atualização de 2006), que resultou em reviravoltas pessoais, profissionais e legais para o presidente da Aardvark-Vanaheim.

Contudo, Sim sempre continuou a ser respeitado como um dos maiores criadores de quadrinhos contemporâneos.

Spawn # 10, enfim, é uma edição sobre valores, ética, ideais e, após 12 anos, sobre como o tempo pode não mudar, mas revelar quem é quem, não só nos quadrinhos, mas na vida. Se você nunca leu, deveria.

Classificação

5,0

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