Uma irmã

Por Audaci Junior
Data: 9 março, 2018

Uma irmãEditora: Nemo – Edição especial

Autor: Bastien Vivès (roteiro e arte) – Originalmente em Une sœur (tradução de Fernando Scheibe).

Preço: R$ 47,90

Número de páginas: 216

Data de lançamento: Janeiro de 2018

Sinopse

O jovem Antoine vai passar as habituais férias no litoral da Bretanha, junto com seus pais e seu irmão caçula, Titi. Certa noite, ele descobre que uma pessoa está dormindo no quarto dos irmãos. É Hélène, três anos mais velha, acompanhada de sua mãe, que acabou de perder um bebê por um aborto espontâneo.

Ao ter suas férias pacatas transformadas por Hélène, Antoine passa a viver os dias mais intensos de sua vida, repletos de emoção e receios. De forma sutil, ainda que forte, ele vai descobrindo um universo feminino tão gracioso quanto perturbador.

E o que poderia ser apenas mais uma história de verão, se transforma em um conto sobre o despertar de um adolescente que provoca um turbilhão de sentimentos.

Positivo/Negativo

Às portas da adolescência, a travessia pode vir acompanhada dos velhos hábitos da infância, pode ser apressada por traumas, pode ser trôpega pelas hesitações e novidades espalhadas pelo chão, e mais uma série de ensaios para tal transição.

Geralmente, os garotos amadurecem mais tarde em relação às meninas. Por isso, é fácil assimilar a partilha do videogame de Antoine com seu irmãozinho, logo no começo do álbum. Caçando caranguejos na maré baixa ou brincando com bonecos de Pokémon na areia, eles podem ser contextualizados como duas crianças, a mais velha cuidando da mais nova.

Diferentemente de O gosto do cloro, a única obra de Vivès lançada no Brasil até então, que mostra nuances e flertes de jovens adultos, Uma irmã faz o parto dos desejos e apegos, no qual o protagonista desconhece totalmente o que está acontecendo com si próprio num ritmo tão intenso.

O quadrinista francês está mais maduro a cada trabalho. Ele conduz o olhar do leitor em determinados ângulos e enquadramentos – bem próximo da experiência única que é o Dans mes yeux, álbum inédito por aqui que mostra uma paixão guiada subjetivamente apenas pela visão do protagonista.

Assim como no seu trabalho anterior, Polina (também inédito nessas paragens), Vivès priva o leitor de elementos “realistas” – ou seria “retratistas”? – para ser bem mais abstrato na narrativa gráfica, como eliminar o desenho dos olhos em diversos momentos. Isso acaba guiando para o que ele quer enfatizar nas cenas com poucas variações de cinzas.

O autor faz uma economia de traços como se cutucasse a imaginação do leitor, da mesma forma que ele a usa quando acompanha um livro. Pensando bem, essa abstração visual pode ser comparada ao anuviar da memória recordada, ou até mesmo – flertando com o metafórico – às tentativas de Antoine de imortalizar Hélène no papel.

Ainda nesse aspecto, Bastien Vivès abre mão da retórica para transmitir emoções e pensamentos entre a expressividade física dos seus personagens e os silêncios que compõem várias sequências. E o melhor e mais difícil: se faz entender.

Um dos fatores que movem o jovem é a curiosidade – basta notar como os olhos se arregalam quando ele escuta, durante a viagem para a casa de praia, a conversa dos pais sobre o aborto espontâneo da amiga do casal.

Numa fase bem mais avançada na linha da adolescência, Hélène não desgruda do smartphone, gosta de socializar, apesar de ter um pé atrás no que diz respeito aos relacionamentos com garotos da sua mesma faixa etária. Tem aquela típica solidão em meio à multidão da sua idade.

Já Antoine é mais “isolado” e não cutuca redes sociais, mesmo que atualmente seja quase que inevitável. De fato, ele gosta de passar o tempo rabiscando – uma forma de se aproximar do próprio autor.

O que ele enxerga na garota é a inspiração para juntar coragem para as transgressões, experimentar o gosto do proibido, despertar os impulsos sexuais, provocar a curiosidade de explorar um mundo bem maior que aquele confinado na bolha familiar.

No título, o artigo indefinido é importante ser mantido. “Uma” irmã em vários sentidos explorados no álbum, independentemente da conotação consanguínea da palavra, obviamente. Uma comunhão na acepção mais ampla do entendimento. Não deixa de ser um ambíguo e provocativo.

Isso leva ao outro fator importante, que é a sensualidade colocada na HQ. Não no sentido de estimular o leitor sexualmente, mas no discernimento de imersão na obra. Quando Hélène está na praia, é impossível não conjurar pela Lolita (1955), polêmico romance do escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), materializada no coletivo fílmico pelo longa homônimo de 1962, dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999).

Uma irmã vai além da libido não maliciosa de jovens verdes, mostrando que o convívio é uma via de mão dupla, na qual o professor também pode aprender além de ensinar. Observe a metáfora com um jogo “chato” de passatempo.

Muitos momento são apenas guardados na memória dos personagens, deixando o leitor de lado. O poder de sugestão ou a ambiguidade – assim como o faz graficamente – podem causar certa insatisfação no leitor menos passivo.

A edição segue o mesmo padrão da maioria do catálogo da Nemo nos últimos anos: brochura, formato 17 x 24 cm, capa cartonada com orelhas, papel off-set de boa gramatura e impressão. O destaque nesse quesito vai para a capa, que abandonou um desnecessário requadro que emoldurava a arte no original da francesa Casterman. Ponto para a editora brasileira.

Há algumas equívocos na revisão, mas nada tão grave. É bem acertado na tradução emular os vícios do coloquialismo da oralidade nos diálogos, a exemplo dos “queísmos”. Mas muitos desses pronomes relativos erroneamente aparecem acentuados.

Como experimentar as primeiras doses de felicidade, seguidas das primeiras ressacas da melancolia e das emoções das desajeitadas tragadas fraternais, a descoberta de Uma irmã é uma montanha-russa de um verão que não era para acabar jamais. Mas acaba. E fica para sempre, mesmo que Antoine e Hélène cresçam e virem adultos.

Classificação

5,0

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  • 0-Drix

    “O Gosto do Cloro” é uma das melhores HQs que eu já li! Uma irmã é outra grande obra- aquela sequência final é matadora!
    Espero que as vendas sejam boas e que a Nemo nos traga logo “Polina” (do mesmo autor) , que inclusive já foi adaptado para o cinema.

  • Yuri

    Uma das historias mais lindas e profundas que já li. Talvez o mérito esteja justamente na simplicidade dos traços e dos diálogos que estabelecem o brilho da obra; fora as “lacunas” da própria narrativa, que junto aos enquadramentos dão uma expressividade sem igual à historia. Achei absurda a forma como o Vivès cria tudo de maneira extremamente natural e vívida aos olhos, retratando essa fase de descobertas da forma mais pura e crua a cada página, além do erotismo e sexualidade latente trabalhados de forma magistral por quase toda a obra, representando os desejos do corpo de um jeito que poucos conseguem.