Uma noite em L’Enfer

Por Audaci Junior
Data: 19 agosto, 2016

Uma noite em L’EnferEditora: Mino – Edição especial

Autores: Davi Calil (roteiro, arte e cor) e Mariana Calil (cor base).

Preço: R$ 59,90

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Julho de 2016

Sinopse

Cidade de Arles, França, 29 de julho de 1891. Vincent Van Gogh sobrevive a uma tentativa de suicídio e parte em busca de sua musa e amante, a prostituta Sien. No caminho, ele encontra outro artista, Gauguin, e é levado ao infame cabaré parisiense L’Enfer.

Lá, os dois são recebidos por Klimt e Toulouse-Lautrec, colegas pós-impressionistas, e por um misterioso e centenário Goya. Em meio a álcool e outras drogas, eles iniciam um torneio de contação de histórias, que coloca em jogo o destino de cada um dos pintores.

Positivo/Negativo

A morte é “o único tema decente para uma boa história”, sentencia um personagem histórico que o quadrinhista Davi Calil pega emprestado para fazer sua trama ficcional macabra, que também é envolta de amor e sexo.

Uma noite em L’Enfer é inspirada no clássico Noite na taverna (1855), do escritor da segunda geração do Romantismo brasileiro, o byroniano Álvares de Azevedo (1831-1852), vulto que também se materializa nas páginas da HQ.

A essência dessa fase do movimento literário tinha justamente a dicotomia entre a morte e o amor, aliada a um grande pessimismo e um intenso sentimentalismo.

Deve ter sido nesse clima ultrarromântico de admiração que o autor veio a substituir por grandes pintores os cinco homens que relatam histórias tenebrosas vivenciadas por eles mesmos num bar, a premissa do livro de Azevedo.

No lugar da anônima taverna abarrotada de prostitutas, bêbados e libertinos, as novas histórias são testemunhadas pelo L’Enfer, reduto boêmio parisiense que realmente teve seu alicerce levantado no meio de mudanças artísticas do final do Século 19. O cabaré temático realmente fazia alusão ao inferno pela sua decoração e arquitetura, com estátuas demoníacas e adornos góticos.

No “mundo paralelo” de Calil, o pintor pós-impressionista Vincent Van Gogh (1853-1890) sobrevive ao suicídio (que, no nosso mundo, foi concretizado), permanece em contato com o seu irmão Theodorus (cuja troca de correspondências pode ser lida na coletânea Cartas a Théo) e vai com um buquê de girassóis (sua flor preferida que ornou o seu caixão) para visitar sua amante.

Nessa introdução, o Calil coloca detalhes narrativos que serão encaixados mais para frente e começa a brincar com seus títeres. É um despreocupado pintor Paul Gauguin (1848-1903) que o convida para uma ida ao bordel.

Para quem desconhece a história entre os dois, foi o francês que dividiu o teto com Van Gogh numa de suas fases mais prolíferas. Contudo, numa discussão, o pintor holandês ameaçou Gauguin com uma navalha e chegou a cortar um naco da própria orelha no transtorno.

Como um submundo literalmente infernal dentro da realidade paralela da HQ, a dupla encontra no L’Enfer outros grandes nomes da arte mundial, o francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e o austríaco Gustav Klimt (1862-1918), além do espanhol Francisco de Goya (1746-1828), que não é contemporâneo do grupo de artistas, mas está ali pela liberdade poética do tom de fábula do autor.

As histórias contadas ao redor da mesa têm a espinha dorsal nos capítulos de Noite na taverna, com uma série de alterações e liberdades a favor da narrativa, enfatizando o talento artístico de cada relator ou colocando outras figuras reais na berlinda. Dentre os exemplos, um quê de Edgar Allan Poe (1809-1849) no final da contação de Van Gogh e a substituição do fictício pintor Godofredo Walsh pelo austríaco Hans Makart (1840-1884) nas reminiscências do então jovem aprendiz Klimt.

Ainda na fileira dos coadjuvantes, marcam presença em Uma noite em L’Enfer o próprio Satã e Macário, protagonistas da peça teatral de 1852 que é batizada com o nome deste último e serve de prenunciação para Noite na taverna.

Nas suas raras idas a Paris, faz uma pequena aparição no álbum outro importante expoente do movimento pós-impressionista, o rejeitado Paul Cézanne (1839-1906). Ele diz, inclusive, sua famosa frase: “Nós vivemos em um arco-íris de caos”.

Por fim, o italiano Dante Alighieri (1265-1321), autor de A Divida Comédia (que retrata o inferno), faz as vezes do personagem shakespeariano Yorick, na peça Hamlet.

Além de homenagear seus ídolos, Davi Calil “tira o chapéu” para várias obras de arte icônicas. Encontram-se mimetizadas ao longo das páginas pinturas como O beijo (1908), de Klimt (na página 68); Saturno devorando um filho (1823), de Goya (p. 111); A dança no Moulin Rouge (1908), de Toulouse-Lautrec (p. 125); e O ídolo (1898), de Gauguin (p. 156), dentre outras.

Com uma arte cartunesca, refinada e bastante expressiva, Calil apresenta soluções dinâmicas e fluidas nas suas composições de página – apesar de alguns vacilos de continuidade (atenção para o anel da principal personagem feminina do álbum). Outro elemento que se sobressai é a sua paleta de cores, pinçadas das obras dos próprios artistas.

O traço do autor pode ser visto também em projetos independentes, como Surubotron e Quaisqualigundum, ambos do selo Dead Hamster.

Com o apoio do Programa de Ação Cultural de São PauloProAC, a edição da Editora Mino tem formato 21 x 28 cm, capa cartonada fosca com orelhas, boa impressão e papel couché de boa gramatura. O cineasta e animador Victor-Hugo Borges escreve o prefácio e o artista e professor Luis Bueno faz uma precisa contextualização da época e do histórico cabaré da capital francesa.

Apesar de todo o cuidado gráfico, o álbum apresenta uma série primária de erros da revisão gramatical, bem acima do admissível. São “escorregões” elementares como a falta de vírgulas em vocativos, falhas de acentuação (como “naõ”, “juíz”, “pistóla”, “polonêses”, “esmêro”, “heroí”, “perdôo”, “repreênda” etc., além de emprego errado no uso da crase) e grafia (“deslisou” e colocação errada no uso dos porquês). Isso influenciou na qualificação final do trabalho.

Como adendo, para quem quiser saber mais sobre Van Gogh, foi lançado pela L&PM, em 2014, Vincent, da quadrinhista Barbara Stok, e Vincent & Van Gogh (Zahar, 2004), obra de Gradimir Smudja com uma pata na fábula ao colocar o gato de estimação do holandês como o gênio das pinceladas.

Smudja ainda produziu o álbum O bordel das musas (Zahar, 2005), no qual o leitor adentra o famoso cabaré Moulin Rouge acompanhando o pintor Toulouse-Lautrec. Assim como Uma noite em L’Enfer, grandes homenagens aos mais importantes artistas pós-impressionistas.

Classificação

4,0

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• Outros artigos escritos por

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  • Pedro

    gostaria que vocês fizessem uma matéria sobre esse programa PROAC. Queria ententer mais como isso funcionar e pq essas HQs “financiadas” com dinheiro público ainda são tão caras!

  • Enoch

    A premissa é interessante e a vida de Van Gogh foi uma obra de arte por si só que pode ser o berço de excelentes histórias.

  • marcio coelho

    Muito bom esse “Uma noite em L’Enfer”. A arte do Calil é soberba, é bem verdade que em “Quaisqualigundum” estava mais segura, genial, de encher os olhos. Nesse material resenhado a arte está mais solta, relaxada(no sentido de despreocupada).
    Cena hilária é a do cocheiro que tenta entrar na casa depois da farra. Paga o preço um tanto salgado da obra. Dei uma boa risada nessa parte! Extremamente dinâmica a cena!
    Parabéns ao Calil.