Uzumaki

Por Audaci Junior
Data: 24 dezembro, 2018

UzumakiEditora: Devir – Edição especial

Autores: Junji Ito (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Uzumaki (tradução de Arnaldo Masato Oka).

Preço: R$ 94,00

Número de páginas: 656

Data de lançamento: Julho de 2018

Sinopse

Kirie Goshima e Shuichi Saito vivem na pequena cidade de Kurôzu-cho, que se vê repentinamente assolada por uma estranha maldição: os seus habitantes tornam-se obcecados por objetos com a forma de espirais – conchas de caracol, remoinhos e padrões – e acabam por morrer misteriosamente.

Kirie e Shuichi elaboram um plano para escapar da cidade, mas os seus esforços não têm sucesso e, ao regressar, acabam descobrindo qual é o centro da espiral.

Positivo/Negativo

Dentre os tipos de terror, há o físico e o psicológico – ambos explorados à exaustão nas temáticas de Junji Ito, um dos maiores nomes do gênero, dos anos 1990 pra cá. Uzumaki (“Espiral”, em japonês) é tida como sua obra máxima. Ou uma das.

O ensejo da HQ parte de uma premissa absurda e bizarra à primeira vista: uma cidadezinha litorânea no Japão “infestada por espirais”.

Quando o leitor vê o Sr. Saito – pai de Shuichi, um dos personagens principais – olhando fixamente para um caracol em uma viela, a ponto de ficar hipnotizado e perder a noção do tempo apreciando o efeito espiralado de sua concha, percebe o começo de uma obsessão que vai levá-lo ao extremo das situações – do psicológico ao físico.

Uzumaki

A cada capítulo, a ideia de espirais vai se avolumando de maneira que o leitor não conseguirá imaginar o que o autor vai expor para perturbar com o absurdo do terror que esse “efeito” inspira. São plantas, animais, cerâmicas, redemoinhos, furacões e todo o tipo de perturbações que vão além da flexibilidade anatômica humana.

Assim como a ficção científica ou a fantasia, é preciso deixar bem elástica a suspensão de descrença para aceitar tais fenômenos e fazer a imersão nessa atmosfera a cada página mais densa e enervante. Ito não tem pressa em construir o conceito.

Muito desse terror físico se deve à bela arte do autor, que tem a habilidade para tornar maleável a realidade de seu detalhado traço. Não é preciso nomear ou detalhar os aspectos grotescos das suas representações do terror. Muito do choque gráfico deve ser apreciado e sentido com o virar das páginas.

A questão em Uzumaki não é se isso poderia realmente acontecer, mas até que limite Ito vai ultrapassar para contar suas histórias que parecem independentes, porém vão ganhando um contexto cada vez maior.

A “heroína” e fio condutor do enredo, Kirie Goshima, não está imune às esquisitices do local, com momentos em que é colocado em risco até seu protagonismo. Um aspecto irritante na trama é a serenidade e a calma de muitos dos envolvidos com os fenômenos, com exceção do namorado de Kirie, o cada vez mais neurótico Shuichi.

Um exemplo é quando há uma metamorfose (que mais para frente fica constante) com algumas das pessoas da cidade. Quando acontece pela primeira vez, em uma escola, a conformidade dos alunos chega a ser mais estranha que a mutação em si.

Um dos capítulos mais tensos é quando Ito parte para o lado mais psicológico dessa obsessão por espirais. Envolvendo a mãe de Shuichi, as cenas não são tão pungentes graficamente quanto outras presentes na obra, mas a forma como é lidado o enlouquecimento que gera a repulsa pela formas geométrica específica é angustiante.

Infelizmente, há uma “liberdade” bem forçada nesse capítulo, já que ninguém no hospital no qual ela se encontra internada guardaria um objeto pontiagudo ao alcance da paciente, no seu próprio leito.

Uzumaki

O quadrinhista aproveita as características geográficas do lugar (um estranho farol, velhas cabanas abandonadas) para o ato final. Nesse último terço de Uzumaki, o cansaço e o desnorteamento dos personagens sobreviventes é também sentido pelo leitor.

No final da edição, há um interessante, longo e meticuloso texto do escritor e ex-diplomata Masaru Sato, no qual ele aplica psicologia junguiana e termos do filósofo alemão Georg W. F. Hegel (1770-1830) para comprovar paralelos da história de Junji Ito com o Marxismo.

Metaforicamente, o poder do espiral é “o capitalismo”, só o amor tem o poder para enfrentá-lo. A ideia teria sua coerência, se Sato não ignorasse o final poético do capítulo 5, Pessoas contorcidas.

Abrangendo melhor o conceito, Uzumaki lida com as várias facetas do ser humano – desde a vaidade, passando pelo egoísmo, até o sacrifício. Outras camadas podem ser refletidas, mas não necessariamente com uma forma de resposta ou moral.

Em 2000, a obra foi adaptada para dois games e virou um longa-metragem homônimo dirigido por Higuchinsky. Três anos depois, ganhou uma indicação ao Prêmio Eisner de Melhor Publicação de Material Estrangeiro; em 2009, foi incluída na lista da Young Adult Library Services Association das 10 Melhores Graphic Novels para Adolescentes.

Antes desta publicação, a Conrad tinha publicado por aqui, em 2006, como uma série em três partes. Fora ela, a única obra do autor lançada no Brasil foi a coletânea Fragmentos do Horror (Darkside, 2017).

Parte da coleção Tsuru, a edição da Devir é um calhamaço com mais de 650 páginas, no formato 17 x 24 cm, brochura com capa cartonada (sem orelhas) e sobrecapa, papel antirreflexivo munken print cream, com boa gramatura e impressão.

Além do texto analítico de Sato, completa o volume com uma apresentação do tradutor Kleber Ricardo de Sousa sobre o quadrinhista produzida pelo professor lusitano Artur Coelho e uma nota biográfica de Junji Ito. Há alguns erros de revisão no álbum que poderiam ser evitados.

Assim como em O homem que passeia, as páginas iniciais que originalmente são coloridas estão em tons de cinza. Uma pena. Outra curiosidade é o 20° e último capitulo, que, à parte da mitologia, coloca os padrões espiralados em proporções cósmicas.

Grotesco, bizarro, perturbador e bem longe do lugar-comum, Uzumaki é um terror que flerta com o escritor HP Lovecraft (1890-1937) e outros quadrinhistas, como Hideshi Hino (de Panorama do Inferno, Oninbo, A Serpente Vermelha, dentre outros) e Kazuo Umezu (inédito por aqui), inspirações para a mente perturbada e espiralada de Junji Ito.

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  • Beto Magnun

    Tem muito tempo que li esse mangá, e pelo que me lembro a calma exagerada dos personagens é pq eles fazem parte daquilo desde início. O namorada da protagonista é o mais afetado porque se bem me lembro é o único personagem que entra e sai da cidade (em algum momento citam que ele estuda em outra cidade). Então ele sente a diferença entre a normalidade e bizarro.
    Enfim, preciso comprar essa edição. Terror do Ito é algo que me deixa deixa desconfortável e acho isso o máximo. Interessante também essa interpretação marxista, mais um motivo pra comprar essa edição pra ter acesso a esse texto.

    • Audaci Junior

      Muito boa explicação, Beto. Tem fundamento, apesar de achar ainda estranho a reação passiva dos demais em determinadas situações que fogem totalmente do cotidiano em si e que aparentava ser demasiadamente “normal” (vai ver é o meu lado ocidental/racional me preservando. Rs). Mas, como você bem disse, o autor não deixa de pertubar o leitor com suas ideias bizarras. Muito obrigado por compartilhar sua pertinente observação. Abraço.