A vida é boa, se você não fraquejar

Por Vitor Mazon
Data: 22 dezembro, 2018

A vida é boa, se você não fraquejarEditora: Mino – Edição especial

Autor: Seth (roteiro e arte) – Publicada originalmente em It’s a Good Life, If You Don’t Weaken (tradução Dandara Palankof).

Preço: R$ 64,90

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Abril de 2018

Sinopse

Na década de 1980, o canadense Seth, obcecado por “garimpar” álbuns e coletâneas antigas em sebos, descobre, em uma antiga edição da The New Yorker, o trabalho de um cartunista obscuro que assina como Kalo.

Seth fica determinado a descobrir o paradeiro do misterioso artista, que desapareceu do cenário dos cartuns.

Positivo/Negativo

Foram 22 anos entre a publicação da primeira versão completa de A vida é boa, se você não fraquejar, 25 se for considerada a publicação primeiro capítulo na quarta edição de Palookaville, em 1993, até sua chegada ao Brasil, pela editora Mino.

Essa diferença, de mais de duas décadas, faz com que o álbum chegue aos leitores brasileiros já com uma grande bagagem em termos de prêmios e reconhecimento pela crítica com umas das HQs mais importantes do Século 20.

Mas, mesmo com esse peso, o álbum se sustenta como uma das publicações mais importantes de 2018.

Na graphic novel, Seth conduz o leitor por meio de pequenas vinhetas que mostram seu cotidiano, mesclado à sua busca de pistas pelo paradeiro de Kalo. Nesses pedaços da vida do autor, vê-se como ele mesmo não sente como se pertencesse ao seu momento no tempo, o que de certa forma justifica sua obsessão por cartunistas obscuros de décadas atrás e os quadrinhos de sua infância.

Em suas interações com as pessoas ao seu redor, sua mãe, irmão, namorada e o amigo Chester “Chet” Brown (autor de Pagando por sexo), Seth sempre mantém um certo distanciamento do seu presente. Suas conversas giram em torno de duas obsessões, como se o momento atual fosse secundário para sua vida e devaneios sobre o passado.

A nostalgia de Seth por um passado idealizado é tanta que ele não reconhece nem mesmo as coisas boas que acontecem no seu presente. Sua visão de mundo não abre espaço para questionamentos sobre sua fé na superioridade dos tempos idos.

O grande protagonista na graphic novel é o passado ou a busca pelos “bons e velhos tempos”. A procura de Seth por Kalo, representa o desejo do autor por um momento na história em que ele se sinta mais seguro. Até mesmo a escolha do papel, em um tom bege, que simula uma folha já envelhecida pelo tempo, reforça essa importância na obra.

Mas tudo não passa de uma mentira. Embora seja construída como se fosse uma graphic novel autobiográfica, a busca de Seth nunca aconteceu, o cartunista misterioso jamais existiu. A partir do momento que o leitor tem essa informação, a narrativa se expande.

O que se vê é que a própria obsessão pelo passado pode ser uma ilusão. Na vida real, Seth realmente é visto com chapéus e sobretudos similares aos do protagonista. E ele e Chester Brown são mesmo amigos. Mas em momento algum sabe-se quais acontecimentos são reais – isso se algum deles for.

A realidade e a ficção se misturam de forma tão homogênea que é quase impossível separá-las.

Assim como o Seth protagonista não consegue separar o que vê no presente de alguma memória em seu passado. Sua infância e sua vida adulta estão intrinsicamente ligadas, em um loop constante.

Mesmo tendo sido idealizada nos anos 1990, A vida é boa, se você não fraquejar se mantém ainda mais relevante por ter capturado uma obsessão pelo passado que acabou tomando conta da cultura pop, assim como a cultura pop tomou conta da vida do Seth protagonista.

Assim como o autor, que busca o passado idealizado nos cartuns de Kalo, fazemos o mesmo processo. Estamos sempre buscando referências e tentando reconstruir os “bons tempos”, mesmo sabendo que a visão idealizada, criada em nossas mentes, nunca existiu.

Este é o tipo de álbum que recompensa diversas leituras, nas quais novas camadas da reflexão de Seth sobre o passado, presente, obsessões e a própria ideia do que seria uma “vida boa” vão se expandindo.

As publicações estrangeiras da Mino têm uma proposta clara de preencher uma lacuna no mercado de HQs no país. Jason, os trabalhos autorais de Jeff Lemire, Manuele Fiore e Michael DeForge são outros nomes que a editora já lançou, sempre com edições bem trabalhadas. A vida é boa, se você não fraquejar não foi diferente.

Seth ainda tem outros trabalhos interessantes que seriam muito bem-vindos por aqui. Quem sabe a própria Mino possa trazê-los.

Classificação:

5,0

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  • BWAHAHAHAHA

    Parece de fato ser uma grande álbum