Resenha: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge fecha trilogia no alto nível dos filmes anteriores

Por Samir Naliato
Data: 27 julho, 2012

“Se você se tornar mais que um simples homem, se você se dedicar a um ideal, e se não conseguirem detê-lo… então você se tornará algo totalmente diferente. Uma lenda, Sr. Wayne.” – Ra’s al Ghul, em Batman Begins.

“Como homem, sou de carne e osso, posso ser ignorado e destruído. Mas como um símbolo… como um símbolo, posso ser incorruptível. Posso ser eterno.” – Bruce Wayne, em Batman Begins.

Oito anos após os eventos mostrados em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Gotham City é uma cidade bastante diferente. A morte de Harvey Dent inspirou a criação da Lei Dent, que permitiu colocar os criminosos e corruptos atrás das grades e diminuir os índices de violência na cidade. Batman, acusado de assassinar o promotor público, não é visto desde então, e mesmo Bruce Wayne (Christian Bale) vive em um autoimposto exílio em sua mansão.

Todas essas conquistas foram conseguidas com base em uma mentira, mas isso não parece importar para Bruce. Ele alcançou seu objetivo de tornar Gotham um lugar melhor, mesmo que para isso tenha se sacrificado física e psicologicamente.

Entretanto, tudo muda com o surgimento de uma misteriosa ladra e um terrorista chamado Bane, cujos planos ainda não são completamente conhecidos, mas desmascararão a farsa criada por Batman e Comissário Gordon (Gary Oldman).

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Com Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o diretor Christopher Nolan apresenta o último filme de sua trilogia com o personagem, e talvez o mais “super-herói” dos três.

Assim como foi feito nos dois longas-metragens anteriores, a história não é a adaptação de uma HQ específica do herói, e sim uma mescla de diferentes sagas que adaptadas para o universo cinematográfico do Batman e cria uma aventura original. Desta vez, a trama traz elementos dos quadrinhos de Batman – O Cavaleiro das TrevasTerra de Ninguém e A Queda do Morcego.

O longa-metragem fecha um ciclo iniciado em Batman Begins ao retomar uma linha narrativa do primeiro filme e tornando a trilogia uma grande jornada do herói.

O primeiro filme girava em torno de temas como perda, nascimento e medo. Já o segundo apresenta um embate psicológico e ideológico: até onde um vigilante pode ir sem atravessar a tênue linha do certo e errado? O caos, representado pelo Coringa e sua crença de que todos podem enlouquecer se forem levados a situações extremas, e a ordem, representada pelo Batman e sua luta para fazer o que é certo.

Nesta terceira e última parte, o foco é dor, sacrifício e renascimento. O embate deixa de ser psicológico e se torna físico, justamente no momento em que o herói está mais debilitado. Em Bane (Tom Hardy), Batman finalmente encontra um adversário à altura – se não melhor -, que aproveitará sua já frágil condição para quebrar o corpo e a alma do Cavaleiro das Trevas.

As diferenças entre Coringa e Bane permitem ao diretor a possibilidade de explorar dramaticamente diferentes facetas do herói.

Batman não possui superpoderes. É um homem que dedicou a vida a um ideal maior, a uma guerra contra o crime; e o preço cobrado traz consequências claras. Ao levar seu corpo ao limite, Bruce o deteriorou e, agora, ele já não responde mais.

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

A alma do herói está perdida em uma vida sem propósito. Bruce é a máscara do Batman, e não o contrário. E quando ele se viu obrigado a abandonar sua “verdadeira identidade”, não soube mais como continuar vivendo. Ficou preso ao passado.

A interpretação de Christian Bale ao longo dos três filmes, junto com o trabalho da produção e do diretor para apresentar o arco dramático do personagem, se sobressai nesse sentido.

Para ressurgir, não só como herói, mas também como ser humano, ele precisa reavaliar as decisões que o trouxeram até aquele ponto, e decidir como prosseguir. E, para isso, existe Alfred (Michael Cane), uma figura paterna para Bruce, que tenta guiá-lo em meio às trevas e ser, talvez, o único contraponto para a obcecada jornada de seu patrão.

E é justamente nas cenas entre os dois que residem os momentos mais emocionantes do filme.

Aliás, a trilogia faz a redenção de vários personagens depois dos desastrados Batman & Robin e Batman Eternamente. Alfred e Comissário Gordon ganham lugares de destaque, Coringa é levado a um novo patamar, Duas-Caras deixa de ser um vilão abobado para ganhar uma versão realmente dramática, a Mulher-Gato de Anne Hathaway surpreende com uma interpretação mais próxima à ladra retratada nas histórias em quadrinhos e Bane finalmente deixa a aura do brutamontes idiota que havia sido apresentada antes.

Isso sem falar na introdução de Ra’s al Ghul (Liam Neeson), Espantalho (Cillian Murphy) e Lucius Fox (Morgan Freeman), igualmente bem conduzidos em suas estreias nos cinemas.

Outro destaque fica com a trilha sonora de Hans Zimmer, e como as músicas de cada filme refletem o tema da história. Em O Cavaleiro das Trevas, a trilha é inquietante, irregular e estridente, remetendo ao caos representado pelo Coringa. Já neste terceiro longa-metragem, ele usa músicas orquestradas de maneira quase militar, mais uma vez para se adequar ao tema da história e a todo o plano de Bane de criar um exército para destruir Batman e Gotham City.

E o impacto que a trilha exerce sobre uma cena é subvertida quando acontece o primeiro confronto entre Batman e Bane, na qual a ausência de músicas deixa o espectador inquieto com os sons da briga e a brutal e inevitável derrota do Homem-Morcego.

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Outro ponto de alto na trama é a inclusão de um tema que anda muito em voga nos últimos anos em todo o mundo, desde que a última crise econômica atingiu os Estados Unidos e a Europa, e resultou em manifestações como o Ocuppy Wall Street. Por que tantas pessoas vivem com tão pouco, enquanto poucos indivíduos possuem muito?

Os últimos 30 minutos de projeção são marcados por reviravoltas. As peças do quebra-cabeça se encaixam com revelações importantes a respeito de alguns personagens e, seja o que acontecer com Batman, sua figura é importante e deve continuar existindo. Um ideal pode perdurar mesmo quando o homem cair.

É curioso notar como muitas das decisões tomadas por Nolan ao longo dos três filmes são diferentes da mitologia criada nos quadrinhos, mas, ao mesmo tempo, fiéis aos conceitos dos personagens. E é aí que reside a principal qualidade do diretor, pois ele compreendeu que, para fazer uma boa adaptação, o que conta não é a fidelidade da trama em si, mas sim à essência do que eles representam.

Fica aqui a sugestão para, antes de assistir ao último capítulo da saga, rever os dois primeiros filmes da trilogia. Certamente, tornará a experiência mais gratificante, pois, apesar de serem três histórias autocontidas, elas se tornam maiores quando vistas como uma coisa só.

Nem tudo no filme é perfeito. Há alguns problemas no roteiro, como quando, ainda no primeiro ato, um determinado personagem, sem mais nem menos, revela conhecer a identidade do Batman. Entretanto, nada que comprometa o resultado final da produção.

Com O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Nolan fugiu da “maldição do terceiro filme” e fechou aquela que, provavelmente, é a melhor série baseada em um personagem dos quadrinhos, e também conseguiu transcender aquilo que as pessoas costumam esperar deste gênero. A sua saga do Batman pode facilmente entrar nas listas das melhores trilogias da sétima arte, com três longas-metragens de alto nível.

Esta saga fez para as adaptações cinematográficas dos super-heróis o mesmo que as graphic novels Watchmen e Batman – O Cavaleiro das Trevas fizeram para os quadrinhos da década de 1980, e atingiu um novo patamar que certamente causará uma influência no meio.

Resta agora ver o que a Warner Bros. fará com a franquia. Enquanto o estúdio comemora o sucesso alcançado, viverá por muito tempo à sombra dela. Decidindo dar continuidade à história ou fazer umreboot da série, as comparações serão inevitáveis e, provavelmente, injustas. O nível alcançado por esta trilogia servirá de parâmetro para o que vier a seguir.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Duração: 164 minutos
Estúdio: Warner Bros.
Direção: Christopher Nolan
História: Christopher Nolan e David Goyer
Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Elenco: Christian Bale, Michael Cane, Gary Oldman, Morgan Freeman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Liam Neeson, Cillian Murphy.

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