Kiss: deuses do rock, heróis dos gibis

Por Marcus Ramone
Data: 8 abril, 2015

Você queria o melhor, você tem o melhor! A banda mais quente do mundo: Kiss… nos quadrinhos.

 

“You drives us wild, we’ll drive you crazy”. (Rock and roll all nite, do disco Dressed to kill, 1974)

2015 marca uma data especial para os fãs do Kiss. Há 45 anos, em 1970, Paul Stanley e Gene Simmons se conheceram na casa de um amigo em comum, na cidade de Nova York, Estados Unidos.

Apesar de um relacionamento inicial conturbado, no melhor estilo “ódio à primeira vista”, a dupla superou as desavenças para empunhar seus instrumentos musicais, dividir os vocais e, pouco tempo depois, formar aquela que durante as décadas seguintes seria conhecida como “a banda mais quente do mundo”, com cerca de 80 milhões de discos vendidos e um fenômeno midiático superado apenas pelos Beatles.

Mas nenhuma outra banda de rock, em toda a história da música, alcançou tanto sucesso – e lucratividade – na área de licenciamento.

A marca Kiss, hoje avaliada em centenas de milhões de dólares, estampa desde canecas a roupas, passando por sapatos, embalagens de alimentos, cigarros, garrafas de vinho, preservativos, HDTV e mais de dois mil itens que incluem até uma linha de caixões mortuários.

Nessa salada de produtos não poderiam faltar as figuras de ação, estatuetas e outros brinquedos, como videogames e máquinas de pinball, além das revistas em quadrinhos, com as quais a banda se identifica desde quando concebeu o visual e o conceito que a caracterizam.

Se as maquiagens e fantasias de Estelar (Paul Stanley, guitarra e vocal), Demônio (Gene Simmons, baixo e vocal), Celestial (Ace Frehley, guitarra) e Homem-Gato (Peter Criss, bateria) – e de outros que sucederam estes dois últimos em várias formações – remetem a criaturas esquisitas dos gibis, o mise-en-scène nos palcos – com direito a sobrevoos acima da plateia e jorros de fogo e sangue artificial pela boca – nunca deixou dúvidas quanto a isso.

KissKiss - Greatest Hits

Algumas capas de seus discos, como as de Destroyer (1976) e Love Gun (1977), são pinturas realistas consideradas obras clássicas da pop art – a de Unmasked (1980) é uma HQ que narra as agruras dos quatro integrantes da banda fugindo de paparazzi que teimam em tentar descobrir os verdadeiros rostos dos integrantes, nada longe da realidade que eles sempre enfrentaram até abandonar as maquiagens, em 1983.

Em 2005, o ilustrador Ken Kelly, capista de várias edições de A Espada Selvagem de Conan, Contos de Cripta e Vampirella, ilustrou um CD-tributo à banda, lançado apenas na Noruega.

No mesmo ano, a psicodélica arte original da capa de Rock and Roll Over (1976), um dos melhores álbuns do Kiss, foi a leilão nos Estados Unidos.

O filme Kiss e o Fantasma do Parque, de 1978, pérola trash na qual Stanley, Simmons, Cris e Frehley têm assombrosos poderes e combatem o mal entre um concerto e outro, foi apenas a continuação de uma nova fase que tivera início na vida da banda havia um ano e nunca chegou ao fim: a de super-heróis dos quadrinhos.

“I’m almost human, can’t help feelin’ strange / The moon is out, I think I’m gonna change”. (Almost human, do disco Love Gun, 1977)

Muitos foram os artistas e grupos musicais que chegaram às páginas de um gibi. Mas nenhum foi título de tantas revistas em quadrinhos quanto o Kiss.

Para quem não acompanhou a trajetória da banda nas HQs, um lançamento da editora Collins Design mostra o tamanho dessa história.

Kiss Kompendium chegou às comic shops dos Estados Unidos em novembro de 2009, reunindo nada menos que todas as aventuras oficiais em quadrinhos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse publicadas até então.

Kiss Kompendium

Prefaciada por Gene Simmons e Paul Stanley, a coletânea tem 1280 páginas coloridas, capa dura e papel de luxo. É um documento histórico que compreende 32 anos de gibis publicados por diversas editoras.

A saga do Kiss nos quadrinhos começou em setembro de 1977. No ano anterior, Gene Simmons havia entrado em contato com Stan Lee, criador de vários personagens da Marvel Comics e então diretor da editora, para que a “Casa das Ideias” lançasse uma HQ especial da banda.

Sean Delaney, produtor musical do Kiss na época, foi quem sugeriu transformar o quarteto em super-heróis. “Ele escrevera uma história em quadrinhos de duas páginas para a revista Creem, em que éramos uns caras quase super-heroicos”, disse Simmons no livro Kiss por trás da máscara – A biografia oficial autorizada (Companhia Editora Nacional, 478 páginas), de David Leaf e Ken Sharp, publicado no Brasil em 2006.

Logo depois, a banda participou das edições # 12 e # 13 de Howard the Duck, transformados em entidades demoníacas que possuíam o pato.

Com a boa receptividade dessas experiências, Stan Lee resolveu apostar em algo grandioso, como Simmons sugerira.

Assim nasceu Marvel Comics Super Special # 1 – Kiss – em formato magazine e com o logotipo da banda impresso em tinta metálica -, apresentando quatro HQs em 40 páginas coloridas, nas quais os super-heróis roqueiros enfrentam Mefisto e Dr. Destino, com a participação de Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Vingadores e Defensores.

Escritas por Steve Gerber, as histórias foram desenhadas por Sal Buscema, Al Milgrom, Alan Weiss, John Buscema e Rich Buckler.

Uma curiosidade marcou as ações de marketing em torno do lançamento da edição especial. Com a presença da imprensa, os quatro integrantes do Kiss misturaram seu sangue à tinta vermelha de impressão da revista em quadrinhos. Foi o bastante para a banda sofrer acusações chorosas de satanismo e surgir o boato de que as iniciais do nome do grupo significavam Kids In Satan Service (Garotos a Serviço de Satã).

Marvel Comics Super Special # 1 - Kiss Página de uma história do Kiss, pela Marvel Comics

Excentricidades à parte, o gibi vendeu mais de 400 mil exemplares, um feito que a Marvel foi superar apenas em 1990, quando Spider-Man # 1, escrito e desenhado por Todd McFarlane, chegou à marca de um milhão de cópias vendidas.

Em 1978, um novo especial do Kiss foi lançado pela editora. Apesar de trazer nomes consagrados, como Ralph Macchio no roteiro e John Romita Jr. e Tony De Zuñiga nos desenhos, Marvel Comics Super Special # 5 (as edições de # 2 a # 4 apresentaram, no mesmo formato, Conan, o filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau e os Beatles) não alcançou o mesmo sucesso de vendas. Assim, o projeto de outras histórias em quadrinhos estreladas pelo grupo foi engavetado.

Os dois especiais foram publicados no Brasil muito tempo depois, em 2012, quando a NFLZine Editora os reuniu no gibi Kiss – Greatest Hits – Volume 1, diretamente da IDW Comics.

Somente em 1996, quando o Kiss repatriou Ace Frehley e Peter Criss, voltando à formação original e às máscaras que havia abandonado no início da década anterior, a Marvel firmou um novo contrato com a banda.

Naquele ano, o burburinho mundial causado pela volta da formação e do visual clássicos resultou na republicação das duas HQs estreladas pelos quatro artistas na Marvel, desta vez em edição única e sob o título Kiss Classics.

A editora foi além. Ainda em 1996, lançou a revista Kissnation, com reportagens, pin-ups e o crossover em quadrinhos entre Kiss e X-Men, escrito por Stan Lee. Durou apenas uma edição.

“Better hide your heart, better hold on tight / Say your prayers, ‘cause there’s trouble tonight”. (Hide your heart, do disco Hot in the shade, 1989)

Depois de passar a década de 1980 sem estrelar um gibi, Kiss abriu o ano de 1990 como título da nona edição da série de biografias em quadrinhos Rock’n’Roll Comics, com 32 páginas em preto e branco. Guns’n’Roses, Bon Jovi e Mötley Crüe foram algumas das outras estrelas das 53 edições que a revista alcançou.

Em julho do mesmo ano, na décima edição de Rock Fantasy – publicada pela editora homônima -, a HQ Kiss fights the shadow of death trazia a banda de volta ao super-heroísmo que a consagrou nos gibis.

Dois anos depois, em Rock Fantasy # 18 – Kiss II, o quarteto heroico novamente enfrentava vilões com seus superpoderes. Ambas as histórias foram escritas por Michael Valentine Smith, com desenhos de Don Rinehart e Jerry Minor, respectivamente.

Ainda em 1992, mais três gibis fizeram a alegria dos fãs da banda. Kiss: tales from the tours (Hard Rock Comics # 5, Revolutionary Comics), com a competente arte de Scott Pentzer nas histórias sobre os bastidores das turnês, e a minissérie em duas partes Kiss: Satan’s music?, biografia não autorizada lançada pela Celebrity Comics.

Kiss: tales from the tours Kiss Hard Rock Comics

A Revolutionary Comics também lançou a sua minissérie. Kiss: Pre-History, biografia em três edições mensais escritas por Spike Steffenhagen e desenhadas por Scott Pentzer, foi publicada nos Estados Unidos em 1993, sem a autorização de Gene Simmons e Paul Stanley – que, apesar disso, resolveram não impedir a publicação ou acionar a editora na justiça.

Tantas homenagens não estão restritas aos Estados Unidos. Outros países também contribuíram para a chamada “kisstória” da banda nos gibis, como confirmam algumas citações visuais em aventuras dos personagens Disney produzidas na Europa.

No Brasil, as HQs da Turma da Mônica já receberam o Kiss em participações de apenas um quadro. As tiras de Roko-Loko, personagem metaleiro de Marcio Baraldi, também costumam abrir espaço para a trupe de Gene Simmons.

Há poucos anos, a letra de Rock and roll all nite foi adaptada pelo roteirista alagoano Pablo Casado, com arte de Felipe Cunha, para uma HQ digital da Mojo Books.

Adaptações de músicas da banda para os quadrinhos também eram o conteúdo de Kiss Fever: Lirycomic, fanzine editado em 1999 pelo argentino Gus Gall – que acumulava a autoria dos desenhos – e lançado na Espanha. Foram somente duas edições. Na primeira, o destaque era Psycho Circus, carro-chefe do primeiro disco de estúdio gravado pelo Kiss após o retorno da formação original.

“I’ve been waiting for this night to come / Get up! / Now it’s time for me to take my place / The make-up running down my face / We’re exiles from the human race”. (Psycho Circus, do disco Psycho Circus, 1998)

Um ano depois da segunda passagem pela Marvel, as histórias em quadrinhos do Kiss migraram para a Image Comics, editora de Todd McFarlane.

O conceito dos personagens foi reformulado na nova série. Psycho Circus, lançada em 1997 (o disco homônimo da banda chegou às lojas no ano seguinte), apresentou histórias de terror e fantasia em que os outrora super-heróis eram Os-Quatro-Que-São-Um, entidades ambíguas que traziam características celestiais e infernais e estavam ligadas a um estranho circo de horrores.

As tramas e os desenhos no estilo das HQs do anti-herói Spawn, sucesso na época, atraíram os fãs do personagem de McFarlane, incluindo aqueles que pouco ou nada conheciam do Kiss.

A série chegou a 31 edições, entre HQs inéditas e republicações, até o ano 2000. No Brasil, os três primeiros números de Psycho Circus – por Brian Holguin (roteiro) e Angel Medina (desenhos) – foram lançados pela Editora Abril na forma de minissérie, em 1999.

Kiss Psycho Circus # 12Kiss em quadrinhos

Em 2002, a Dark Horse trouxe a banda de volta aos quadrinhos. Para os colecionadores, a série oferecia mais um atrativo. Cada edição chegava às comic shops com capas variantes: uma desenhada e a outra com uma foto inédita do Kiss.

Dessa vez, a banda personificou uma mistura de suas versões da Image e da Marvel, em histórias que envolviam dimensões paralelas, entidades demoníacas, viagens no tempo e confrontos com supervilões, como a inusitada Christine Sixteen – alusão à música de mesmo nome, que fala de uma jovem amante de Gene Simmons na década de 1970.

O título, escrito por Joe Casey, durou 13 edições mensais e teve quatro encadernados.

Mas quando a história do Kiss nos quadrinhos parecia ter chegado ao fim, uma notícia divulgada em 2007 surpreendeu os fãs: a banda estava lançando seu próprio selo editorial, o Kiss Comics Group, em parceria com a Platinum Studios.

“If there’s a price to pay for all that I’ve got / I’ll give it all gonna take my shot”. (All for the glory, do disco Sonic Boom, 2009)

Simmons nunca escondeu sua admiração por desenhos animados. Confessara que o sonho de infância era gravar a música When you wish upon a star – tema da animação Pinóquio (1940), de Walt Disney – e realizou o desejo no primeiro disco solo de sua carreira, em 1978.

Criou o personagem Rock Zilla – inspirado em si mesmo -, da série Meu pai é um roqueiro, para o Cartoon Network (no Brasil, o desenho foi exibido de 2004 a 2005). E, ao lado dos companheiros do Kiss, participou de episódios de Os Simpsons, Família da Pesada, Padrinhos Mágicos e Scooby-Doo.

Apesar dessas realizações, para ele nada foi comparável à emoção de encontrar Stan Lee pela primeira vez. “Gene dizia: ‘Stan, você se lembra daquela história que criou em 1964? Você se lembra do que escreveu na página 12, terceiro quadrinho?'”, revelou o criador do Homem-Aranha, na biografia Kiss por trás da máscara…

Simmons sempre foi fascinado por super-heróis. Mas havia outras preferências na lista. Ainda adolescente, ele produziu e editou alguns fanzines de HQs e contos de horror e sci-fi. Conseguiu ganhar dinheiro com isso, mas o mundo da música falou mais alto diante das opções de carreira profissional.

No livro de David Leaf e Ken Sharp, Peter Criss afirma que a aproximação dele com Gene Simmons aconteceu graças ao interesse que ambos nutriam pelos gibis de terror e ficção científica Creepy, Eerie e Weird Tales. “Ele não acreditou quando viu a minha coleção”, disse o baterista.

Com a criação do Kiss Comics Group, a paixão do emblemático destaque da banda ainda não havia atingido o ápice da satisfação. Nem mesmo com o primeiro lançamento da companhia, o gigantesco Kiss 4K – Legends never die # 1 – Destroyer edition, de 2007, que entrou para o livro dos recordes como a maior revista em quadrinhos do mundo.

Kiss 4K - Legends never die # 1Kiss Kids

A série, na qual os personagens, novamente, eram divindades arcanas, seguiu por mais oito edições, também disponíveis online.

De fato, a realização plena do baixista e vocalista do Kiss na área dos quadrinhos é a Gene Simmons Comics Group, fruto de uma parceira com a IDW Publishing, em 2007.

Dono de seu próprio selo, ele passou a criar personagens e escrever argumentos e roteiros para as HQs publicadas regularmente pela editora nos Estados Unidos, algumas delas desenhadas por seu filho, Nick Simmons.

Desde 2013, a IDW vem lançando HQs inéditas da banda, como o título regular Dressed to Kill – cuja edição de estreia chegou ao Brasil, pela NFLZine Editora – e uma inusitada série infantil (na qual os integrantes do Kiss são crianças), além de uma aventura especial em que os quatro heróis enfrentam os alienígenas do clássico filme Marte Ataca. E também está republicando todas as histórias em quadrinhos dos personagens em suas passagens por outras editoras, desta vez na forma das coletâneas especiais Greatest Hits.

As últimas décadas trataram mesmo de mostrar que os quadrinhos, como poderosos instrumentos de expressão da linguagem visual, não costumam ficar afastados da banda de rock que melhor faz uso dessa ferramenta.

Os fãs, mais conhecidos como o Exército do Kiss, agradecem.

Marcus Ramone é fanático pelo Kiss desde 1982, quando assistiu ao videoclipe de I love it loud e não conseguiu dormir à noite.

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  • rogeriokiss

    E o RUSH colocava os dois no bolso. Só que foi o KISS que ajudou as duas bandas.