A propriedade

Por Audaci Junior
Data: 27 novembro, 2015

A propriedadeEditora: WMF Martins Fontes – Edição especial

Autora: Rutu Modan (roteiro, arte e cores) – Originalmente publicado em Ha-Neches (Tradução de Marcelo Brandão Cipolla, a partir da versão para o inglês The property, por Jessica Cohen).

Preço: R$ 69,90

Número de páginas: 224

Data de lançamento: Outubro de 2015

Sinopse

Depois da morte do filho, Regina Segal leva a neta Mica a Varsóvia para recuperar uma propriedade da família, perdida durante a Segunda Guerra Mundial, época em que a senhora fugiu para nunca mais retornar.

À medida que elas vão conhecendo a moderna capital polonesa, Regina é obrigada a enfrentar as difíceis memórias de seu passado e a jovem neta começa a se perguntar se as razões da viagem não seriam diferentes do que a avó a levara a crer.

Positivo/Negativo

Quando é lida a sinopse deste álbum, pode-se cogitar que trata-se de mais uma das histórias sobre a busca das raízes judias para reviver o passado, mostrar as chagas de uma guerra, ou ainda acompanhar a transformação das personagens encarando os “fantasmas” dos tempos idos.

Rutu Modan pode até se valer desses mecanismos (e de outros também), mas a quadrinhista israelense busca trilhar caminhos bem menos óbvios para pavimentar os segredos – ou as “meias-verdades” – que cada um esconde.

São sete dias que as protagonistas ficam em Varsóvia, tempo este que separa os capítulos da obra. Quando o leitor é apresentado a Regina Seagal, é impossível não se recordar de Maus e a tentativa de um frustrado Art Spiegelman em tentar derrubar a figura do judeu estereotipado apresentado pelo seu pai.

Essas características também pesam mais para o conflito geracional entre avó e neta. Quando Mica se envolve com Tomasz – um polonês aspirante a quadrinhista que trabalha como guia de turismo judaico –, ficam bem evidentes as diferenças entre elas.

A propriedade tem seus meandros dramáticos, mas o que dita o ritmo são a sagacidade e o humor, aliados à “bipolaridade” da senhora judia.

Existe também uma veia de autoparódia da autora que salta quando Tomasz mostra seus quadrinhos a Mica (cujos desenhos mais realistas são assinados por Asaf Hanuka). Ele chega a dizer que está fazendo uma Persépolis polonesa, referindo-se à famosa HQ da iraniana Marjane Satrapi. O caminho que ele pretende trilhar para essa ambição também resvala na “realidade” confessional do próprio álbum.

Até temas mais sérios como o Holocausto não são poupados do tom cômico: “Pessoalmente, prefiro Majdanek a Auschwitz. É muito mais assustador”, opina um professor no voo para Varsóvia, analisando minuciosamente o itinerário turístico para seus barulhentos alunos.

Por falar em jovens, a autora apresenta também uma curiosa reconstituição histórica feita pela Sociedade para a Memória Judaica para deixar as novas gerações interessadas no assunto.

O que era apenas um caso de recuperação de um imóvel por intermédio de uma antiga carta do advogado torna-se uma série de mistérios que vão sendo revelados aos poucos, devido aos interesses de cada um dos personagens, incluindo um intrometido amigo da família que está na cidade para uma convenção de cantores.

A ambiguidade em cada um deles é o que move as engrenagens da trama de uma forma envolvente e interessante. Entre cogitações e apurações, o leitor vai entendendo melhor as motivações e ações dos envolvidos.

Mesmo tendo ou não a noção de serem meias-verdades o que são colocadas para cada um, essas versões são apresentadas como legítimas para o leitor, a princípio. E isso Modan trabalha muito bem a seu favor.

Quando são descobertas as verdadeiras intenções dos personagens, quem tinha toga e auréola angelicais passa a adotar uma carapaça de sanguessuga. As meias-verdades expostas como o pico do iceberg encobrem até grande parte do caráter das pessoas na HQ. Nem tudo é o que parece ser, no final das contas.

Um trunfo do álbum para não rarear esse clima de mistério e ambiguidade reside no uso exclusivo de diálogos, sem balões de pensamento ou recordatórios (estes últimos, quando são usados, têm finalidade de situar geográfica e temporalmente as sequências).

Assim como as diferentes línguas no decorrer da trama (hebraico, inglês e polonês), Modan dá pistas apenas por meio das expressões dos personagens e das suas versões (ou parte delas) do que sabem, deixando lacunas como na vida real.

Seu belo estilo europeu da “linha clara” extrai o máximo de expressividade em pouquíssimos traços. Interessante frisar que ela usa modelos creditados no final da edição para acentuar a dinâmica espontânea das ações.

Nos poucos momentos de silêncio, o tempo de contemplação do seu traço é mais demorado para se ler as expressões dos personagens, tanto quanto as suas falas nas outras ocasiões.

Em determinada sequência, Modan exagera nas lágrimas de Mica, algo que realmente não precisava, devido à sua desenvoltura na arte, a exemplo de outros momentos marcantes em que os personagens se emocionam.

Já em outra cena bem mais sutil, na qual Regina se prepara em frente ao espelho do banheiro para sair, há uma grande carga emocional de tensão que está sendo desnudada sem uma palavra.

Quando a história avança, as discrepantes gerações começam a ter pontos em comum que se cruzam. Interseções que culminam num cemitério em pleno Zaduszki, o Dia dos Mortos polonês, promovendo um desenterramento de muitas lembranças e de revelações veladas, tudo entremeado com algumas pitadas cômicas.

O cemitério aqui, também presente na capa, tem várias interpretações. O local do término da vida pode ser o mesmo do fim dos desentendimentos ou do final dos mistérios. Interessante notar o que diz Regina Segal no começo, durante o voo, sobre a própria Polônia que ela abandonou há mais de 50 anos: “É um imenso cemitério”, ou seja, o premonitório final de conflitos, ao que tudo aparenta.

Em 2014, A propriedade ganhou o Eisner Award de Melhor Álbum Gráfico Inédito. É a segunda graphic novel de Rutu Modan. O primeiro, Exit Wounds, também venceu na mesma categoria, em 2008.

A obra esteve na seleção oficial do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2014, e recebeu também o Ignatz Award, em 2013, como Melhor Graphic Novel.

A edição da WMF Martins Fontes tem formato 16,5 x 23 cm, capa cartonada (sem orelhas) e papel offset com boa impressão. O que careceu foi alguma informação sobre a autora israelense nascida em Tel Aviv, no ano de 1966. Por ser seu primeiro trabalho publicado no Brasil, sempre é bem-vindo conhecer mais sobre a sua importância para a Nona Arte.

Um dos grandes lançamentos de 2015, A propriedade é uma história simples e sensível, mas construída de motivações complexas por personagens com muitas camadas, o que faz uma humanização tão crível quanto o comportamento de cada um.

Os mistérios podem até ser esclarecidos, porém as consequências vão além da jornada de uma semana, cuja “janela” é aberta para o leitor vislumbrar. Rutu Modan lembra que há muito mais do que interrogações, humor e escavações do passado. Há também a dor que ainda permanece, mas, depois dessa viagem ao passado/presente, termina sendo misturada com outras coisas.

“Em família, não se considera mentira não dizer a verdade”, como já adianta a epígrafe da obra, creditada à mãe da quadrinhista, Michaela Modan (o que coloca um pé na realidade, embora seja uma HQ ficcional).

Ah! Preste atenção numa imagem que ocupam as duas folhas de guarda no começo e no final da edição. Uma paradisíaca paisagem com casas bucólicas onde há uma bandeira estrangeira tremulando numa haste. Faz todo o sentido no tocante de passado versus presente e à conciliação geracional.

Classificação

5,0

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