A Saga do Tio Patinhas – Volume 3

Por Renato Félix
Data: 22 maio, 2015

A Saga do Tio Patinhas - Volume 3Editora: Abril – Minissérie mensal em três edições

Autor: Keno Don Rosa (roteiro e desenhos) – Originalmente em The Life and Times of Scrooge McDuck.

Preço: R$ 14,95

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Julho de 2007

Sinopse

Patinhas relembra mais histórias de seu passado: o mês que passou isolado no garimpo com Dora Cintilante e um encontro com o presidente Teddy Roosevelt nas obras do Canal do Panamá. E volta ao castelo da família na Escócia em busca do tesouro dos templários.

Positivo/Negativo

Os 12 capítulos originais de A Saga do Tio Patinhas chegaram ao final no Volume 2 desta coleção. Este terceiro começa com mais três capítulos extras em que Patinhas relembra situações de seu passado não abordados (ou mencionados de leve) na minissérie.

Essas três histórias não estavam presentes na primeira edição da minissérie no Brasil (nas duas partes de 40 Anos da Revista Tio Patinhas, em formatinho, de 2003), mas voltaram a ser incluídas na nova edição da Saga, lançada em 2015, em volume único e capa dura.

A primeira é a mais interessante para a biografia do pato sovina e parte de Em Busca do Ouro, HQ escrita e desenhada por Carl Barks em 1953.

Nela, Patinhas conta resumidamente que, depois de ser enganado e roubado por Dora Cintilante em seus tempos de garimpo, não só recuperou a pepita de ouro roubada como levou a cantora à força para sua propriedade e a obrigou a dar duro como ele por um mês, como lição. É contado como contexto para a história, que se passa no tempo presente.

Em A Saga do Tio Patinhas, os capítulos da série original abordam como o muquirana encontrou o ouro, e Dora Cintilante chega a aparecer, mas em um momento em que ainda não é importante para o pato. A passagem citada em Em Busca do Ouro, propriamente dita, não é explorada na história de Don Rosa.

A Prisioneira do Vale da Agonia Branca (2006), primeira história desta edição, parte, portanto, dessa pergunta: o que terá acontecido naquele mês em que Patinhas e Dora viveram juntos e isolados do resto do mundo?

A pergunta em si mesma já contém uma conotação sexual com a qual Don Rosa precisou lidar. E o faz com humor, elegância e cuidado (afinal, ainda se trata de uma história lida por crianças).

São Huguinho, Zezinho e Luizinho que perguntam o que aconteceu naquele mês, o que deixa Donald desconcertado. Em outra cena, Patinhas diz “Entre as pernas” para indicar o caminho por baixo de um mamute congelado (mas Dora não deixa de ficar chocada com a frase). E ainda há uma cena de briga feroz que, de longe, de fora da cabana, o leitor vê que se torna um silêncio bastante eloquente.

É uma maravilha de trama que, finalmente, não só coloca Dora Cintilante com todas as letras como o grande amor de Patinhas – como mostra o porquê disso. E reforça um aspecto doloroso que vai marcar a personalidade de Patinhas para o resto da vida.

Curiosamente, a segunda história, No Coração do Yukon, é praticamente uma continuação direta da anterior, mas foi produzida e publicada nove anos antes. Ela desenvolve as consequências dos atos de Patinhas – que, afinal, manteve Dora sequestrada por um mês inteiro. Há uma belíssima página em que os dois personagens se encaram em um saloon em chamas e o desenrolar é melancólico.

As duas aventuras são recheadas de personagens históricos verdadeiros, como Wyatt Earp. Assim como a seguinte, A Escavação do Canal Culebra, na qual o pato reencontra Teddy Roosevelt, agora presidente dos Estados Unidos, nas escavações do canal do Panamá.

É uma trama interessante, principalmente por se passar no período em que suas irmãs, Matilda e Hortência, o acompanham em seus negócios pelo mundo. É também o período em que Patinhas está se tornando mais pão-duro e sovina. Don Rosa se esforça para respeitar ao máximo o desenvolvimento cronológico que ele mesmo havia estabelecido para o personagem.

Um grande momento deste volume está reservado para a quarta história, Uma Carta de Casa. É uma continuação de A Coroa dos Reis Cruzados (aventura de Don Rosa publicada no Brasil em Tio Patinhas 445, de 2002).

Nela, Patinhas e os sobrinhos voltam ao castelo da família, na Escócia, em busca do tesouro dos templários, mas o quaquilionário acha muito mais do que isso: é o reencontro com Matilda, após muitos anos de separação.

Esse ajuste de contas familiar é um epílogo brilhante para A Saga do Tio Patinhas, mesmo que o texto introdutório confesse que a trama não faz parte da obra, nem como capítulo extra. A inclusão, no entanto, foi um golaço da Abril – que não se repetiu na compilação em capa dura de 2015, na qual não foi incluída.

Já não é bem o caso de Q.U.A.N.T.A.S.I.G.L.A., com Donald e os trigêmeos, contando como Huguinho, Zezinho e Luizinho se tornaram escoteiros mirins. Embora haja uma relação íntima aqui com o legado de Carl Barks e a história de Patópolis, e o Manual do Escoteiro Mirim tenha sido fundamental nas aventuras da Família Pato, não há grande função da trama na trajetória de Patinhas. A HQ é boa, curiosa, mas está mais para cumprir tabela na edição.

Em todo caso, só por A Prisioneira do Vale da Agonia Branca e Uma Carta para Casa, esta edição já é antológica. Inclusive, o reencontro de Patinhas com a irmã faz com que quem tenha esta edição seja obrigado a mantê-la na coleção, mesmo se comprar a nova, em capa dura.

A revista conta ainda com uma galeria de capas da publicação norte-americana (que, originalmente, saiu na Dinamarca), uma árvore genealógica baseada em Carl Barks e na Saga e outra com base na História e Glória da Dinastia Pato, produzida na Itália.

As três primeiras histórias do volume ganham notas explicativas no final da edição. A julgar pelo que ocorre nos dois números anteriores, são textos do próprio Don Rosa convertidos para a terceira pessoa.

Isso porque, como nos dois volumes anteriores, o nome de Don Rosa foi omitido completamente como autor (o imbróglio entre o quadrinhista e a Abril está explicado na resenha do Volume 1 e em depoimento do próprio Don Rosa ao Universo HQ).

É uma pena. É só por isso que essa obra monumental não ganha a cotação máxima.

Classificação

4,5

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