Ardalén

Por Sidney Gusman
Data: 17 março, 2014

ArdalénEditora: Edições Asa – Edição especial

Autor: Miguelanxo Prado (roteiro e desenhos).

Preço: € 33,00

Número de páginas: 256

Data de lançamento: Dezembro de 2013

Sinopse

Na tentativa de descobrir o paradeiro de seu avô, Francisco Lamas, que emigrou ainda jovem para Cuba e nunca mais deu notícias, Sabela chega a um vilarejo na Galícia, onde conhece Fidel, um ex-marinheiro que pode ter sido companheiro dele em algum navio. Mas ele tem uma idade avançada e muitos problemas de memória. Será mesmo que poderá ajudar?

Positivo/Negativo

Está na quarta capa deste belo álbum publicado em Portugal pela Asa: “Somos o que recordamos. Mas a memória não é um registro objetivo e inalterável. Sabela tenta reconstruir uma história, uma parte de sua história, através das recordações de Fidel. Mas há outros fios que vão se entrelaçando neste processo de recuperação, outras pessoas, outras memórias. Porque também somos aquilo que os outros recordam. E nessas memórias próprias e alheias, há amor e carinho, mas também rancores e ódios. Por isso, recordar não é inócuo. Mas quem não recorda, não vive.”.

Ou seja, mesmo para quem não leu a obra, fica claro que ela gira em torno da memória. Mas numa abordagem completamente diferente de duas obras que versam sobre o tema e foram lançadas no Brasil em 2013, pela Quadrinhos na Cia.: Você é minha mãe?Campo em branco. O que só comprova o quanto o assunto rende.

Pode parecer paradoxal, mas Miguelanxo Prado brinca com mestria com o conceito da memória coletiva, mesmo quando o álbum gira em torno das recordações de Fidel. Mais do que isso: ao mesmo tempo em que a história mostra tudo isso de forma empírica, o álbum tem seus capítulos entremeados por artigos sobre identidade e memória, passagem do tempo, monstros do mar, peixes voadores etc. Tudo, claro, é mencionado na trama.

A ideia é nunca deixar o leitor ter certeza de nada. E o autor consegue. Mais do que isso: na segunda metade do livro, ele simplesmente “quebra as pernas” de quem está devorando o álbum.

Isso porque, durante um bom tempo na trama, Sabela vai tentando fazer Fidel recordar coisas, para descobrir se ele esteve mesmo no mesmo navio que seu avô; se o conheceu. O velho e solitário marujo sofre de problemas mentais e, quando está sozinho, vê e conversa com pessoas com quem conviveu no passado: amigos, amores, rivais. Mas vai tentando ajudar. Até porque, gosta da companhia da moça.

Depois de semanas de “entrevistas” e poucos avanços, Tomás, um invejoso local, que acha que Sabela quer um possível tesouro escondido de Fidel, escancara a verdade para a mulher: o velho Fidel nunca esteve no mar e mal saiu de sua vila durante toda a vida.

Era a deixa para Sabela voltar para a cidade, fazer entrevista para um emprego novo e abandonar de vez a ideia maluca de desencavar o passado de sua família. Mas, antes de partir, Fidel a procura dizendo que se lembrou do avô dela. E conta várias coisas.

Desencantada, Sabela vai embora e, quando resolve checar as informações passadas por Fidel… Bingo! Todas eram verdadeiras. Ela descobre o paradeiro do avô desaparecido.

Como explicar, se Fidel era um “mentiroso” que inventava coisas?

Aí vem o título do álbum: Ardalén é o nome de um vento que sopra do mar para a região da Galícia onde vive Fidel e, segundo a lenda, não traz apenas o cheiro da maresia, mas também um som que se parece com o canto das baleias cachalotes e imagens e memórias do mar.

E, entre os capítulos do livro, continuam a vir extras incríveis, agora ligados a passagens da história, fotos da namorada de Fidel, documentos de embarque, mapas, bilhetes de navio, pareceres jurídicos sobre a herança inexistente dele, laudos médicos que atestam seus problemas psiquiátricos, a letra do bolero Reencuentro e muito mais.

Tudo só aumenta o nó na cabeça do leitor. Mas, aos poucos, Miguelanxo Prazo vai desatando-o de forma sublime.

O final, que não será contado aqui, evidentemente, é surpreendente. Miguelanxo Prado mostra por que é um dos grandes do quadrinho mundial há quase duas décadas. Seus traços e cores belíssimos são o complemento perfeito para seus roteiros bem construídos, sempre com uma ponta de misticismo e cheios de sutilezas. Ele adora sugerir que o limite entre a realidade e o imaginário pode ser bastante tênue. E como o faz bem!

Como bem lembrou o colega Pedro Cleto, no seu blog As Leituras de Pedro, este é o terceiro trabalho em que Prado usa o oceano como pano de fundo. Antes vieram os também geniais Traço de Giz (veja resenha clicando aqui) e De Profundis.

É quase inconcebível, portanto, que Miguelanxo Prado continue sendo pouquíssimo conhecido no Brasil. Dos seus álbuns, apenas Mundo cão, um trabalho com uma pegada mais humorística, foi publicado pela Abril, em sua linha de graphic novels, nos já distantes anos 1990. Depois disso, apenas uma história curta e o livro Belo Horizonte, para a Casa 21, feito sob encomenda e com uma distribuição reduzida.

Ardalén foi eleita a melhor obra espanhola de 2013, no Salão de Quadrinhos de Barcelona. Apenas mais uma conquista de Miguelanxo Prado, que já foi premiado em Angoulême, na França, e em diversos eventos pelo mundo.

Se tudo isso não bastar para que alguma editora brasileira se interesse pela obra toda de Miguelanxo Prado, fica a recomendação pela leitura de Ardalén, pelo menos. Afinal, trata-se de uma história que instiga a dúvida: a alma tem memória ou a memória tem alma(s)?

Classificação

5,0

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