Cerebus – Book 2

Por Delfin
Data: 18 fevereiro, 2011

Cerebus - Book 2Editora: Aardvark-Vanaheim – Edição especial

Autor: Dave Sim (texto e arte).

Preço: US$ 25.00

Número de páginas: 512

Data de lançamento: Junho de 1986

Sinopse

Ao chegar ao suntuoso Hotel Regency, em Iest, Cerebus começa a ser paparicado de modo incompreensível. Mal sabe ele que sua vida está para mudar para sempre.

Positivo/Negativo

Maio de 1981. Muito antes de crises e guerras secretas invadirem os universos dos superpoderosos. Ainda mais distante das histórias realistas de heróis, como MiraclemanWatchmenO Cavaleiro das Trevas e da maioria das aventuras longas sequenciadas em quadrinhos. A revista 2000 AD tinha sido lançada na Inglaterra havia pouco tempo, bem como estava nos estágios iniciais a saga tortuosa de Luther Arkwright nas HQs bretãs.

Foi nas revistas publicadas entre 1981 e 1983 (depois compiladas no volume analisado nesta resenha), que Dave Sim colocou as patas de seu porco-da-terra rumo às escadas do Hotel Regency, com uma trouxa nas costas e um desejo de dormir e comer alguma coisa. Ao dizer o próprio nome, Cerebus abriu uma espécie de Caixa de Pandora. Ou, melhor ainda, derrubou uma pedra de dominó primordial que começou a derrubar uma longa sequência de peças, com dezenas de ramificações, que fariam o anti-herói ser atraído para o lado mais sórdido da vida que conhece: a alta sociedade.

Passando por dois anos de publicação, High Society (Alta Sociedade) é o arco no qual Cerebus passa a ser um personagem de primeira grandeza do quadrinho mundial. Esta grande graphic novel (é um livro digno do termo, bem ao contrário da maioria dos que tentam imputar aos leitores como romances gráficos atualmente) consolida o jogo de poder, sedução e manipulação na narrativa da série.

Também é o início dos questionamentos de gênero que o autor aprofundaria em anos posteriores. A aventura, os sopapos e mesmo o (anti-)heroísmo são colocados de lado para a introdução de narrativas mais intimistas, com menos ação, em que o leitor precisa refletir, prestar atenção ao que é dito. Um conjunto de histórias relevantes, que conquistou corações e mentes nos anos vindouros.

Acima de tudo, um arco que antecipou o tom de importância e seriedade que os quadrinhos heroicos viriam a ter alguns anos depois. É quase incrível perceber que, enquanto leitores vibravam com as HQs de John Byrne, Chris Claremont e do ainda jovem Frank Miller, um camarada no Canadá estava quebrando tudo e provando que as narrativas longas e complexas não só eram possíveis, como poderiam ser excelentes.

Até hoje (época em que há uma enxurrada de histórias longas e biográficas, muitas vezes cansativas, nos quadrinhos) é impressionante o vigor, o senso de antecipação e a atualidade de Dave Sim entre os anos de 1981 e 1983.

Personagens caricatos das aventuras anteriores a esta (como o político manipulador Lord Julius, o amor de uma vida, Jaka, o ardoroso Bran Mak Mufin e outros) começam a ter relevância. Ainda que o alívio cômico da série permaneça mantido, com as voltas de Elrod (uma paródia de Elric, de Michael Moorcock) e Cockroach (um personagem que “homenageia”, durante toda a saga, diversos heróis da Marvel e da DC), há um sentido diferente de austeridade. Existe cerimônia no ar, representada pela figura centralizadora da misteriosa Astoria.

É em High Society que Cerebus se envolve e se mistura, cada vez mais, com o poder e a política, chegando ao cúmulo de disputar uma eleição para um posto que deixará Igreja, Estado e os inimigos políticos em completo alerta.

O uso da diagramação é cada vez mais preciso: muitos quadros quando necessário, apenas um, se for o caso. Dave Sim sabe como poucos manipular o peso das composições – não é exagero dizer que é um dos grandes mestres do desenho, pelo uso particularmente bonito de pretos, brancos e hachuras manuais.

Sim também começa a manipular melhor o letreiramento, passando a se valer de fotocomposição para páginas como textos cada vez mais longos, porém integrados aos painéis, formando composições únicas e revolucionárias.

High Society, quase 30 anos após sua publicação original, foi o arco escolhido pelas editoras Pontent Mon (da Espanha), Vertige Graphic (da França) e Black Velvet (da Itália) para iniciar a carreira internacional de Cerebus.

Para o leitor, é um excelente ponto de entrada, mas que não dispensa a leitura do primeiro livro, que, aliás, explica muitos pontos que ficam vagos ao leitor que se inicia por este segundo álbum.

Esta abertura pode abrir a porta para que uma editora brasileira, finalmente, consiga versarCerebus para o português (algo que, nos anos 1990, foi seriamente tentado pela Pandora Books, sem sucesso).

Por causa de High Society, Dave Sim conquistou o respeito e a admiração dos seus pares, bem como a força necessária para defender os direitos dos autores de quadrinhos. Coisas que foi perdendo no meio do caminho, por diversos motivos. Uma polêmica que já foi parcialmente revelada aqui, mas cuja história é bastante longa e está ainda por ser contada na sua totalidade.

O que importa é que High Society é um dos melhores álbuns de quadrinhos dos anos 80. É uma das mais longas graphic novels da década (perde para Church & State, o arco seguinte deCerebus, que tem mais de mil páginas) e mostrou, para quem quisesse ver, que as HQs precisavam amadurecer, e rápido.

Para sorte dos leitores, havia gente boa o bastante para ouvir o recado.

Classificação

5,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.