Escolhas

Por Audaci Junior
Data: 20 outubro, 2017

EscolhasEditora: Geektopia – Edição especial

Autores: Felipe Cagno (roteiro), Gustavo Borges (arte) e Cris Peter (cores).

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Junho de 2017

Sinopse

João Humberto cresceu assistindo às aventuras de um Lobo Cinzento na televisão e sonhando em se tornar o primeiro super-herói do mundo.

Acontece que ele nunca desistiu desse seu desejo e foi levando-o consigo no vestibular, na faculdade, no primeiro emprego. Todas as suas escolhas refletiam a busca pelo impossível.

Ingênuo? Ridículo? Louco? Ele ouviu tudo isso a vida inteira. Até que um dia…

Positivo/Negativo

Com auxílio de Maurício Dias, as primeiras imagens de Escolhas remetem à abertura de Batman – The Animated Series, premiado desenho animado produzido por Bruce Timm e Paul Dini, aproveitando o embalo dos filmes de Tim Burton, no começo dos anos 1990.

Só que, em vez do Morcego, quem esmurra os criminosos é o Lobo Cinzento. Não o da Legião dos Super-Heróis, mas o personagem criado para servir de inspiração para o protagonista desta HQ, que não desgruda os olhos do televisor, coreografando com a mesma sincronia, intensidade e envergadura, os golpes desferidos pelo punho da justiça.

Com essa sequência, o leitor é apresentado a uma boa ideia, mas que não encontra o tom certo para inspirar a história em si. O que aconteceria se os sonhos inocentes e puros da infância persistissem perante o punho cerrado e pesado da realidade?

Neste caso, o desejo maior do pequeno João Humberto é se tornar o primeiro super-herói do planeta. Uma representação de um mundo “real” – vale salientar – bem parecido com o nosso.

Numa sociedade cada vez mais egoísta, distante e individualizada como a nossa, a mensagem central é bem apropriada para ser evocada, independentemente do público que a obra venha a atingir, da criança ao adulto.

Há muitos tropeços na narrativa, nas características e decisões dos personagens, fazendo com que Escolhas não cause um efeito positivo ao final da leitura. Apenas apatia.

Uma dessas irregularidades é o exclusivismo latente do sonho no qual o personagem principal se enclausura com o passar dos anos, o que vai além de ser extremamente mimado pelos pais (apesar de ter certa resistência condescendente da mãe).

Como a maioria deve saber, é salutar o indivíduo sonhar ou alicerçar a partir dessa motivação um objetivo na sua vida. Mas o que se observa aqui é apenas uma obsessão que “move as montanhas” – ou pior: faz as “montanhas” permanecerem imóveis.

João Humberto não tem o amadurecimento para isso, muito menos a complexidade para enxergar além da sua “meta” única. Nos planos do destino, ele se apaixona por Nina. Quando coloca a namorada na sua vida, logo tenta protegê-la de bandidos, mas se esquece de pensar no seu bem, assumindo atitudes irresponsáveis e totalmente egoístas.

Assim como alguns rompantes da mãe, existe um contraponto por parte da Nina, mas ela chega a aceitar tudo muito rápido e também de forma inconsequente, assumindo – ou seria “aceitando”? – igualmente a irresponsabilidade.

Pode-se muito bem persistir no sonho sem negligenciar as pessoas ao redor, e nem as contas a pagar e o que mais o sistema poderá lhe repreender como uma espécie de kryptonita dos sonhos. Isso não se traduz em se “render” ou simplesmente desistir do que se sonha.

Ao explorar apenas o lado unidimensional do protagonista, nem mesmo o próprio chega a refletir ou ter uma noção das consequências da concretização do sonho, muito menos esboça algum tipo de planejamento para o futuro, caso alcance o tão desejado objetivo.

Tirando os (muitos) momentos piegas e piadas sem graça, o roteiro de Felipe Cagno tem alguns bons momentos, como a inserção de um autor de quadrinhos (que se transforma num velho sem noção posteriormente) e a parábola belamente ilustrada por Rogério Coelho (de Louco – Fuga e O barco dos sonhos). Esses são momentos na qual a HQ “sai da curva”, do comum, e passa a buscar uma reflexão.

Completando o time de convidados, o cartunista Will Leite (de Will Tirando) produz uma página sem nenhum destaque ou justificativa para tal, que poderia muito bem ser feita pelo desenhista “oficial”.

Os competentes desenhos de Gustavo Borges fazem seu papel de contar a história, ora com construções de páginas bem inspiradas, ora da maneira mais funcional possível. Outro ponto positivo são as cores da Cris Peter, repetindo a parceria da dupla de arte no ótimo Pétalas (Jupati/Tambor), lançado em 2015.

Dentre os easter eggs, há uma menção visual ao Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, além de autorreferências de outras obras do roteirista, como 321: Fast Comics e Os Poucos & Amaldiçoados.

A edição da Geektopia (selo da editora Novo Século) tem capa dura com detalhe em verniz, papel couché de boa gramatura e impressão. O volume ainda possui uma galeria de artistas convidados, bastidores da produção e um prefácio assinado pela animadora Natalia Freitas. Neste último quesito, curiosamente, colocaram um extenso currículo da profissional, quase do tamanho do texto de apresentação.

Outra curiosidade estranha foi usar como ilustração das folhas de guarda do álbum rascunhos de ruas e casas, que não sinalizam absolutamente nada a respeito do tema.

Vale ressaltar, na produção de Escolhas, o bom trabalho de revisão, algo bastante incomum nas produções nacionais, infelizmente.

Numa explicação do making of, os autores atestam que queriam contar uma história universal, fazendo algo pessoal na exploração de “novos caminhos” no mais “clássico dos gêneros”.

No prisma das idiossincrasias, o projeto em si pode ser encarado como um estímulo para inspirar outros quadrinhistas do País na busca do seus sonhos, mas está longe de ser uma história inspiradora, sensível, marcante e boa. Ainda falta.

Classificação:

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Escolhas

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  • Cool Jam 97

    Na luva veio escrito Winston “Churcill”. Fora que quem apoiou a hq no Catarse era para ter recebido em Janeiro mas só recebeu em Junho. Realmente teve páginas com desenhos mais inspirados e outras com a narrativa bem mais ou menos.