Love & Rockets – Lôcas – Volume 2 – As mulheres perdidas e outras histórias

Por Audaci Junior
Data: 8 agosto, 2014

Love & Rockets – Lôcas – Volume 2 – As mulheres perdidas e outras históriasEditora: Gal Editora – Edição especial

Autor: Jaime Hernandez (roteiro e arte) – Originalmente em Las mujeres perdidas (tradução de Danielle Vasques).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 136

Data de lançamento: Janeiro de 2014

Sinopse

Maggie viaja até uma ilha que está em luta contra a opressão de um ditador. Ao envolver-se por acidente no conflito, ela é dada como morta. Enquanto Hopey, Daffy, Izzy e Penny Century choram a perda e tentam continuar suas vidas, a jovem mecânica enfrenta sua maior aventura ao lado da lutadora profissional e campeã mundial Rena Titañon.

E isso não é tudo. Descubra o passado das personagens, acompanhe as confusões de Hopey e sua banda e presencie o encontro final entre Maggie e Rand Race.

Positivo/Negativo

Logo na página de abertura deste volume de Love & Rockets, Hopey e Maggie já vão derrubando a “quarta parede” e conversam sobre como o autor está ganhando fama e elas apenas se metem em encrencas.

Com bom humor, Jaime Hernandez aproveita para cutucar com “pena curta” a indústria dos quadrinhos norte-americanos naquela época, nos anos 1980, falando sobre as bem definidas etapas de produção corporativista e os rentáveis crossovers. Uma síntese do humor da cria dos Hernandez que se mostra bastante atual.

Dentre manifestações da viciante rebeldia punk de pichar (e essa é a palavra, nada pomposo como “grafitar”) muros, perder calças por estar bem acima do peso e confissões de encontros instáveis (Um encontro com Hopey, inédita no Brasil), é impossível não se lembrar de certa ilha localizada no mar do Caribe na principal história do álbum.

É interessante observar como se desenrola – ou enrola? – o amor platônico de Maggie com o mecânico metido a galã Rand Race (adicionando uma insistente e sexy repórter) e o relacionamento dúbio com Hopey, aqui menos evidente em virtude de correr em paralelo à trama principal.

Completando o time estão de volta a voluptuosa Penny, o poderoso multimilionário Castigan, a roqueira Terry, a cada vez mais mística Izzy e uma cansada Rena Titañon, que enxerga uma oportunidade de liberdade no olho do furacão da Revolução.

Novamente, o autor promove um inusitado equilíbrio entre a leveza cômica e a sobriedade de sequências mais dramáticas ao longo da história. Algo positivamente corriqueiro no ritmo empregado pelos Hernandez.

Os traços de Jaime, que mesclam simplicidade e estilização, mostram uma bela e econômica plasticidade nos detalhes e um pleno domínio de luz e sombra. Uma verdadeira aula de narração utilizando ainda uma diagramação funcional e objetiva.

A série pode ser resumida na diluição da sobriedade da vida “real” e no tom fabuloso, alegórico, que por vezes é escancarado (Crônicas de Palomar, que deve estar nos planos futuros da Gal, é a transposição para os quadrinhos do realismo mágico de Gabriel García Márquez).

A história parece ir a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, ter um caminho pavimentado, pré-estabelecido, como o planejamento e a execução na prática cotidiana.

Mesmo usando metalinguagem e afins, o tempo passa nas páginas, metabolismo e gravidade fazem seus papeis e o que se vê é Maggie mudar seu corpo do mesmo jeito que a camaleônica Hopey trata seu cabelo.

Mas o implacável tempo não deixa a série perder seu pique. Mesmo temporariamente suspensa em um período dos anos 1990 (retomada na virada do milênio), Love & Rockets é um dos carros-chefes da Fantagraphics nos Estados Unidos.

Tanto que o talento dos Hernandez ainda perdura: este ano, o Eisner Awards premiou Gilbert na categoria Melhor História Curta e Jaime ganhou como Melhor Roteirista/Artista.

A edição da Gal mantém a qualidade do volume anterior, com boa impressão em offset, capa cartonada sem orelhas e uma biografia do autor no final.

Um ponto no mínimo estranho foi a mudança com cores “modernizadas” que a capa ganhou, descaracterizando o clima “retrô” da obra, que havia sido respeitado na colorização da bela capa do primeiro volume.

Em contrapartida, a publicação traz nos créditos um sensível agradecimento especial ao editor original da série, Kim Thompson, morto em 2013.

Este álbum é um exemplo de como uma história em quadrinhos pode ter um naturalismo desconcertante e uma cadência pulsante do imaginário fabuloso, tudo convivendo lado a lado. Chicanas para ler e reler sempre.

Classificação

4,5

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