MSP novos 50 – Mauricio de Sousa por novos 50 artistas

Por Eduardo Nasi
Data: 16 setembro, 2011

MSP novos 50 - Mauricio de Sousa por novos 50 artistasEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Mike Deodato, Pryscila Vieira, Lederly Mendonça, Amorim, Shiko, Rael Lyra, Carlos Ruas, Marcelo Cassaro, Eduardo Francisco, João Montanaro, Samuel Fonseca, Klévisson Viana, Ana Luiza Koehler, Luis Ernesto de Morais, Estevão Ribeiro, Leonardo Finocchi, Daniel HDR, Maurenilson, Danilo Brandão, Aluir Amâncio, Samanta Flôor, Jaum, Will Leite, Bernardo Aurélio, Watson Portela, Elcerdo, Volney Nazareno, Davi Calil, Ronaldo Barata, Ed Benes, Celso Menezes, Felipe Massafera, Waldemar Lene Chaves, Luciano Irrthum, Paulo Visgueiro, Rogério Coelho, Galvão, Lupe, Alves, Sam Hart, Adão Iturrusgarai, Pablo Carranza, Rezende, Márcio Coelho, Roberta Pares, Orlando, Daniel Bueno, Hector Lima, George Schall e Luke Ross.

Preço: R$ 84,00 (capa dura) e R$ 59,90 (capa cartonada)

Número de páginas: 216

Data de lançamento: Setembro de 2011

Sinopse

Terceiro volume da série iniciada em 2009 com o álbum MSP 50, em que 50 artistas brasileiros criam histórias com personagens de Mauricio de Sousa – mas usando o seu próprio estilo.

Positivo/Negativo

Para começo de conversa, é bom lembrar que este álbum não está sozinho. Ele é precedido de outros dois. Juntos, os três compõem um projeto de envergadura, inédito e bastante importante no cenário dos quadrinhos nacionais.

Também convém destacar, mais uma vez, que o editor do álbum é Sidney Gusman, também editor-chefe deste site. Pra piorar a situação, dar conta de um site independente como o Universo HQ, em que todo mundo trabalha de graça por anos a fio, inevitavelmente faz com que vínculos se criem. Então, que se diga logo: esta resenha é escrita por um amigo do editor da obra.

Uma situação dessas é um horror.

O leitor, com toda a razão, fica com os dois pés atrás. Afinal deve confiar na opinião do amigo do editor do livro?

O comentador está numa fria: se falar bem, pode haver leitores que vão achar que é por amizade. Se detonar, a estas alturas, podem dizer que foi só pra garantir a credibilidade do site depois que os dois volumes anteriores tiveram nota máxima – talvez até injustamente, na visão de uns e outros.

Pior: o projeto MSP 50 não é daqueles que se pode ignorar. O UHQ tem mais de cinco mil resenhas de quadrinhos dos mais variados gêneros no banco de dados, tanto aclamando, quanto batendo em obras nacionais e estrangeiras. Não deveria deixar de lado propositalmente uma série de álbuns em que o autor brasileiro mais bem-sucedido é revisitado por 150 outros quadrinhistas.

Se é assim, apenas resta ao comentador pedir ao leitor que, sim, desconfie. Que busque outras fontes, se achar que deve.

De qualquer maneira, uma vez que a isenção neste caso é ainda mais utópica, que se registre que estes palpites estão sendo escritos com imensa sinceridade e franqueza.

Preleção feita, é hora de falar do álbum em si.

A série MSP 50 teve, grosso modo, três grandes méritos.

O primeiro: dar a outros artistas, das linhagens mais diferentes, indo do underground e do regional a concorrentes famosíssimos (como Ziraldo), a oportunidade de criar HQs com os personagens mais conhecidos do Brasil – seguindo seu próprio traço e estilo. De quebra, com o sucesso de vendas, ainda apresentou aos leitores vários artistas talentosos, mas cujo trabalho tem alcance reduzido.

O segundo: produzir histórias que mantinham um alto padrão de qualidade – ainda que irregulares entre si, o que é natural em antologias.

O terceiro: realizar a fantasia do leitor de ver os personagens no traço de outros criadores notórios – como Angeli, Laerte, Ziraldo, Bá, Moon, Marcatti, Allan Sieber, Caco Galhardo…

Pois bem: o primeiro item, mais uma vez, está cumprido. De novo, o álbum passeia por vários estilos e confirma a riqueza dos quadrinhos brasileiros contemporâneos. Tem humor (Alves), colagem (Lederly Mendonça, que usa tecido para fazer a transparência de Penadinho), traços angulosos (Daniel Bueno), aventura (Aluir Amâncio), tiras (Will Leite e Pryscila Vieira), cartum (Amorim), mangá (Roberta Pares), suspense (Daniel HDR) e até cordel (Klévisson Viana, originalíssimo) e um sugestivo erotismo (com os corpanzis em trajes ínfimos feitos pelos desenhistas de super-heróis Ed Benes e Mike Deodato). O segundo também vai bem: pelo menos no mesmo nível do segundo álbum – que superou o primeiro ao deixar para trás uma sucessão de histórias que se limitavam a homenagear o aniversariante, focando mais naquelas que exploravam personagens e narrativas.

Várias se destacam. Rogério Coelho abre o álbum com um Horácio lírico. Ronaldo Barata (em nome da transparência: webmaster deste site) faz uma divertida versão do filme A mosca. O caipira Chico Bento se dá bem com Galvão, Elcerdo e na belíssima história de Lupe. George Schall (com roteiro surpreendente de Hector Lima), Jaum, Pablo Carranza e Luciano Irrthum marcam a Turma da Mônica com uma pegada mais underground. Também com a Turminha, Samanta Flôor e João Montanaro fazem as duas histórias mais engraçadas da antologia.

O que começa a incomodar um pouco neste volume é a repetição de alguns temas e motes, como as aparições do Louco como forma de solucionar rapidamente uma trama (em oito histórias neste álbum!) ou a escolha do Astronauta para as HQs com uma pegada mais aventuresca (cinco aventuras com ele, sem contar outras aparições em outro contexto).

Por fim, o terceiro ponto é mais complicado. Depois de dois álbuns, sobraram poucos medalhões dos quadrinhos brasileiros não contemplados, daqueles que o leitor mais desligado do meio tem fetiche de ver como faria uma Mônica, um Cascão ou um Horácio.

Embora reúna talentos incontestáveis, talvez só Adão Iturrusgarai seja um criador de envergadura popular. Outros são conhecidos, mas em nichos. Deodato, Luke Ross e HDR, por exemplo, transitam entre os leitores de super-heróis – mercado do qual Watson Portela, que por sinal retoma a carreira neste álbum, foi precursor. Montanaro, Orlando e Amorim produzem pra jornais e revistas. Outros circulam bem em revistas de menor expressão ou independentes. Sam Hart tem feito trabalhos interessantes no mercado inglês, como sua adaptação de Robin Hood.

Claro que um dos papéis da trilogia é apresentar os novatos. Mas é só um. Sem os figurões, fica a sensação de que, neste volume final, apesar de se manter a qualidade, ficou um vazio. Um dos pilares se perdeu: faltou recompensar o fetiche dos leitores de reconhecer mais nomes de peso.

Até porque alguns bastante interessantes ficaram de fora, de gêneros e quilates diferentes. De cabeça, rapidinho: Lourenço Mutarelli, Edgar Vasques, Julio Shimamoto, Renato Canini (os quatro, aliás, recusaram convites, Sidney Gusman já disse por aí), Loredano, os irmãos Caruso, Fábio Zimbres, Santiago, Luis Fernando Verissimo… Se são nomes acessíveis e se estão disponíveis e a fim de fazer, são outros quinhentos. Mas não dá para deixar de apontar que, nesse quesito, este MSP 50 perdeu força.

Mas não só nesse.

Uma característica da obra dos estúdios de Mauricio de Sousa é usar referências da cultura de massa. São recorrentes em suas histórias heróis como o Superomão (uma paródia do Superman) e até versões de personagens da TV brasileira. Se o leitor não entende uma ou outra referência, não chega a comprometer a história. É, ao menos, um cuidado que a MSP costuma tomar, ciente de que tem um público amplo.

Mas neste álbum a sigla MSP quer dizer outra coisa: é a terceirização da produção, com liberdade louvável, mas que talvez se tornasse ainda mais palatável ao público com alguns pequenos cuidados editoriais.

Aqui e ali, há notas explicativas, principalmente para situar personagens mais obscuros. Mas outras poderiam ser úteis – e até mesmo educativas – para o leitor.

É o caso do cartum de Paulo Visgueiro (p. 39), que faz uma referência ao animê Totoro, de Hayao Miyazaki.

Algumas tiras de Pryscila Vieira trazem referências mais eruditas e sutis e, dado o alcance popular da obra, também poderiam ganhar com o reforço de textos de apoio. É o caso da primeira da página 154, que traz um texto em inglês, da primeira da 156, que usa uma referência a uma lenda ligada à escultura de Moisés, de Michelangelo Buonarroti, e da primeira da 157, que cita o pintor colombiano Fernando Botero, conhecido pelas imagens de formas arredondadas.

Por fim, a história Na sua cabeça ou na minha?, de Celso Menezes e Felipe Massafera (a dupla de Jambocks!), parece ser o caso mais preocupante.

Daqui, do ponto de vista privilegiado do resenhista, é fácil saber que o sujeito de óculos lendo Chico Bento é Sidney Gusman. No caso, o editor do álbum – e, convém insistir, deste site. Alguns anos de convivência permitem situar o Sidão como um fã ardoroso de Will Eisner – o que explica a heresia da p. 196.

Por consequência, mesmo sem conhecer, é possível entender que o ambiente de trabalho da página 197 é a própria MSP, onde Sidney dá expediente há alguns anos, num convívio diário com o próprio Mauricio.

Pro leitor ocasional, que tem mais proximidade com o Limoeiro do que com a Lapa, a tarefa de decifrar a trama é um pouco mais árdua. Num tira-teima informal, cinco pessoas bem diferentes entre si e nada familiares com a MSP foram convidadas a ler a história e a explicá-la. Todas foram consensuais a respeito da bela arte da página dupla (194-195). E a concordância prosseguiu: nenhuma entendeu o último quadrinho da HQ.

Em seguida, foi a vez de testar o logotipo, que parecia confuso. Mas, de novo, o hábito parecia interferir na avaliação. Então, foi solicitado às mesmas cinco pessoas que lessem o nome do álbum. O logotipo, uma variação do tema do primeiro álbum, também causou confusão.

Sem o “+” colorido do segundo álbum, algumas pessoas desprezaram a palavra “novos” em MSP Novos 50, enquanto outras inverteram a ordem e chamaram de “Mauricio de Sousa por 50 artistas novos”.

Podem ser picuinhas. Mas o próprio leitor pode conferir, neste mesmo site, que Sidney Gusman costuma cobrar esse tipo de zelo dos demais editores. O que o leitor não vê, mas talvez perceba indiretamente, é que ele pede aos colaboradores o mesmo tipo de rigor. Não seria nem honesto e nem justo não apontar esses problemas a respeito de um álbum editado por ele.

No fim das contas, esses defeitos não chegam nem perto de ofuscar os muitos méritos do MSP Novos 50. O álbum encerra uma série revolucionária, e que tem méritos extrínsecos à coleção.

Há dois anos, um álbum de homenagem quebrou a regra de que as criações de Mauricio só tem um rosto e um estilo.

Esse álbum deu origem a uma trilogia.

Essa trilogia, agora já se sabe, vai conduzir a uma série de graphic novels feitas por autores diferentes.

É uma mudança e tanto no mercado e na mais importante linha de quadrinhos do País. Que ganhou mais estilos, graça e variedade. Que, apesar de ainda não creditar seus autores nas revistas de linha, passou a reconhecer pelo menos que o conceito de autoria existe, que faz diferença, e que pode ficar bom.

O primeiro MSP 50 comemorou os primeiros 50 anos da MSP. Que este Novos 50 seja, então, uma celebração dos novos 50 anos – dos que vêm por aí. E que essa próxima meia década reflita o espírito da coleção que se encerra: mais aberta e colaborativa, com mais trocas de experiências.

Classificação

4,0

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