O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão – Volume 2

Por Eduardo Nasi
Data: 15 fevereiro, 2008

O Fotógrafo - Volume 2 - Uma História no AfeganistãoEditora: Conrad Editora – Série de álbuns em três partes

Autores: Didier Lefèvre (argumento e fotografias), Emmanuel Guibert (roteiro e desenhos) e Frédréric Lemercier (diagramação e cores).

Preço: R$ 46,00

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Janeiro de 2008

Sinopse

Já no coração do Afeganistão, o fotógrafo Didier Lefèvre chega a Zaragandara, cidadezinha em que vai registrar o trabalho da organização Médico Sem Fronteiras em um hospital que se revela não mais do que uma pequena cabana sem equipamentos.

Positivo/Negativo

Quadrinhos têm sido usados como ferramentas para o jornalismo há muito tempo e de diversas maneiras. As experiências são variadas. Às vezes, a linguagem é usada como um recurso visual para explicar um fato ao leitor de forma didática (como recentemente Diego Assis e Leo Aragão fizeram ao recontar o roubo do Masp no portal G1). Em outras, serve para requentar uma pauta batida – é o caso das reportagens que o quadrinhista norte-americano Robert Crumb e sua esposa, Aline, fazem para revistas como aNew Yorker.

Nos últimos tempos, o trabalho do maltês Joe Sacco tem chamado atenção para o gênero. Em álbuns como Palestina, o quadrinhista vai a zonas de conflito e relata o que vê. Invariavelmente, há muita dor e miséria e pouca coisa que um homem sozinho possa fazer para ajudar.

O fotógrafo percorre caminhos semelhantes: seu narrador foi ao Afeganistão em 1986 para registrar o trabalho da ONG Médicos Sem Fronteiras. Lá, encontrou uma pobreza atroz, em que cuidar da saúde da população é quase um exercício de improvisação feito com poucos recursos em barracos.

A pegada também é de reportagem, mas as semelhanças acabam por aí.

A série francesa, produzida a seis mãos, mistura desenhos simples e cores básicas para apresentar – e destacar – as belíssimas fotos que Lefèvre bateu no Afeganistão. Ele próprio é o tal fotógrafo do título e protagonista da história. O resultado, como o primeiro volume já revelou, é ousado e sofisticado.

Pouco mais de um ano depois de trazer o primeiro álbum ao país, a Conrad pôs nas livrarias o segundo volume. Nele, Lefèvre chega ao objetivo de seu grupo: o hospital de Zaragandara, que nada mais é do que um barraco, onde Régis irá assumir o posto de médico.

As condições são, a olhos ocidentais, pífias: mulheres (nem meninas!) não podem se despir para exames, os acidentes domésticos por descuidos são imensos, a presença ostensiva de armas revela-se uma constante agravante a uma situação que já é de risco por si só.

Diante disso tudo (e o “tudo” merece ênfase), quem se comove é Lefèvre – e o leitor por tabela, olhando aquele mundo com sua lente. Para os afegãos, a regra é a conformidade: o tudo deles é meramente a vontade de Alá.

As imagens não permitem que o leitor fique indiferente: o trio de criadores usa as fotos para mostrar um sujeito que perdeu um olho, um menino que teve a mandíbula atravessada por um estilhaço e até mesmo uma garotinha que berra ao tomar anestesia.

Aos poucos, o fotógrafo aprende que a medicina é mais do que ambientes assépticos e equipamentos sofisticados. Para exercê-la, é preciso entender o ser humano, mesmo nas esferas mais incompreensíveis e que soam como barbárie aos parisienses.

Daí o caráter imprescindível de O fotógrafo: trata-se de uma obra humanista tão profunda quanto verdadeira, um libelo a favor da dignidade, desde que ela não suprima as diferenças culturais entre os povos.

Diante de uma obra dessa magnitude, a Conrad, mais uma vez, fez uma edição primorosa. Capa dura, papel de alta qualidade e impressão louvável são apenas o aspecto palpável do trabalho.

Há outros méritos neste segundo volume, e um deles é a tradução. O trabalho de Dorothée de Bruchard vai muito além de chegar a um texto correto. Sua versão é fluida, sem banalizações da linguagem, o que colabora de fato com a experiência estética proporcionada pelo álbum.

Classificação

4,5

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