Semilunar

Por Audaci Junior
Data: 26 dezembro, 2017

SemilunarEditora: Balão Editorial – Edição especial

Autor: Camilo Solano (roteiros e desenhos).

Preço: R$ 35,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Novembro de 2017

Sinopse

Maria é uma menina que sofre de disfemia, a popular gagueira. Ela consegue domar essa condição cantando e recitando poesias. A ideia vem de sua mãe, uma cantora que nunca conseguiu decolar.

A música é tudo para Maria, mas a vida é muito difícil para uma adolescente que quer viver de música e tem uma condição tão difícil de lidar, além da mãe, que projeta na filha todos os seus desejos e frustrações.

Positivo/Negativo

Ao ler a sinopse de Semilunar, a primeira lembrança que veio à mente deste resenhista sobre a gagueira foi uma velha piada de salão: o gago foi avisar algo importante ao amigo e, por causa do nervosismo, não estava conseguindo se expressar. Impaciente, o amigo pediu para ele cantar, que “sairia” mais fácil. “Olê-lê! Olá-lá! Sua mãe morreu, amanhã vão enterrar!”, soltou a voz o disfêmico.

Uma piada com fundo de verdade, já que cantores famosos, como o boêmio Nelson Gonçalves (1919-1998), também sofriam desse distúrbio neurobiológico da fluência da fala, que tem origem psicomotora.

Essa curiosidade vai além da música, já que muitos artistas gagos podem declamar poemas ou repetir falas de uma personagem no palco do teatro. Segundo os preceitos médicos, isso acontece porque a região do cérebro estimulada é a fala não espontânea no hemisfério direito (a fala espontânea fica no esquerdo).

Nesse contexto, a música é a “melhor amiga” de Maria, uma adolescente tímida, entristecida e que sofre com o assédio moral/psicológico/físico das outras meninas da escola. Ao mesmo tempo, esse refúgio também serve de escudo, vide a passagem na qual a protagonista peita suas algozes com Não enche, de Caetano Veloso (cuja canção Qualquer coisa também é lembrada na HQ).

Isso mostra o quanto as letras musicais podem ser abertas a novos significados e como podemos nos apropriar delas quase como uma trilha sonora de cada biografia anônima.

Com uma narrativa não linear, intercalada por blackouts, Semilunar destoa do clima “depressivo, porém bem-humorado” dos outros trabalhos de Camilo Solano, autor de Inspiração, Onde eu tavo?, Captar, Solzinho, Desengano e Badida.

Para a obra em si, esse ar mais de disparate não faz falta. Principalmente quando o álbum também pode ser entendido como a liberdade de interpretação das letras. Maria também cai como uma luva na biografia de Solano, cuja inspiração é revelada nos extras. O que traz novos acordes para o entendimento da trama.

O quadrinhista usa metáforas visuais (vistas também em trabalhos como Desengano) e outras bem mais sutis, como o fluxo e refluxo do mar ou um pedacinho de unha cortada que faz todo sentido quando se chega nas últimas páginas.

Em contrapartida, há também passagens que beiram a pieguice (“A vida é coisa maior, é uma maravilha de acontecimento… mas não foi feita pra mim.”, narra Maria).

Apesar da funcionalidade das páginas duplas de blackout, há momentos de “virada” que são prejudicados por essa escolha. Veja como o autor ameniza o impacto do final de uma cena no trânsito, por exemplo.

Com o seu habitual traço cartunesco, em alguns momentos, quando muda de técnica, Solano deixa sua arte bem mais bonita. Aliado às cores, esse estilo abre mais o diálogo com os recortes mais melancólicos.

Por perambular na sonoridade, Semilunar deixa bem claros alguns clássicos da MPB, como evocação do samba Cordas de aço (“Este minúsculo braço / Do violão que os dedos meus acariciam”), de Cartola (1908-1980); ou falas que remetem a versos de músicas, como quando a protagonista reclama da gente estúpida (Nos barracos da cidade, de Gilberto Gil); ou pragueja (Quero que vá tudo pro inferno, de Erasmo e Roberto Carlos); ou ainda quando um professor adverte que não terá choro e nem vela na audição (Fita amarela, de Noel Rosa), e por ai vai.

A “pimentinha” Elis Regina (1945-1982), Chico Buarque e (representando a nova geração) Criolo têm menções visuais nas páginas da HQ.

Outras referências dependem do leitor. Quando a personagem principal tem que explicar a lógica da composição dos seus versos, é bem congruente lembrar de Djavan e suas letras, como também quem viveu os anos 1980 vai estalar na mente o hit-chiclete Mama Maria, da banda Grafite, quando as garotas vão ridicularizar a condição da protagonista, gaguejando o seu nome.

Até a mãe de Maria, que tem “a dor no nome”, presta homenagem ao mundo da música, no caso, a Dolores Duran (1930-1959), expoente do gênero samba-canção, compositora e intérprete de A noite do meu bem, dentre outras.

Dolores, a mãe, não tem uma vida trágica como sua homônima famosa, mas carrega uma amargura por sua carreira não ter deslanchado como queria. Ou talvez molde o drama mais do que realmente aparenta, tagarelando conselhos que mais parecem frustrações. Curiosamente, ela usa crocs, como Lourenço Mutarelli retratado em Inspiração, álbum biográfico de estreia de Solano.

Não é por causa do final em aberto, mas o desfecho soa “imprensado” e anticlimático, como uma nota a mais que sai do tom na hora do concerto.

O projeto foi um dos selecionados pelo Programa de Ação Cultural de São PauloProac, em 2016. A edição da Balão Editorial tem capa cartonada com aplique de verniz e orelhas, formato 19 x 26,8 cm, papel pólen com boa gramatura e impressão competente. O que a capa tem de clean e harmônica, a quarta capa tem de grunge, com excesso de citações (algumas até dispensáveis).

Para a interação musical, o autor compôs quatro singelas músicas presentes na história em quadrinhos, que foram dedilhadas pelo próprio, com voz da sua namorada, Larissa Sartori, e transformadas em pequenas animações com direção de Caio Bucaretchi. Agridoce, Uns, Falar e Resposta imediata podem ser assistidas no canal do YouTube do quadrinhista.

Classificação:

4,0

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