Turma da Mônica – Lições

Por Audaci Junior
Data: 21 setembro, 2015

Turma da Mônica - LiçõesEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi (roteiro, desenhos e cores), com Paula Markiewicz (cores).

Preço: R$ 21,90 (capa cartonada) e R$ 31,90 (capa dura)

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Julho de 2015

Sinopse

Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão cometem um erro grave na escola. Agora, terão que encarar as suas consequências, e elas não serão poucas. Nesta nova jornada, a turma descobrirá o real valor e sentido da palavra amizade.

Positivo/Negativo

Sequência de Turma da Mônica – Laços, a primeira incursão dos irmãos Cafaggi no universo dos famosos personagens do Mauricio de Sousa no projeto Graphic MSP, Lições mantém o clima nostálgico, a inocência da infância e os seus corriqueiros obstáculos.

Desta vez, Vitor e Lu abaixaram o ritmo aventureiro que vibrava na cadência da Sessão da Tarde, deixando o enredo assumir um tom mais melancólico, refletido já na capa.

Quando o quarteto de amigos se esquece de fazer o dever de casa (quem nunca na vida?) e bola um plano infalível de fuga da escola que dá errado, logo vêm os respectivos castigos: Mônica é transferida para outra unidade de ensino e fica sem contato com a turma durante uma semana, Cebolinha tem sessões de fonoaudiologia, Magali é inscrita num curso de etiqueta e Cascão começa a frequentar aulas de natação (!).

Os Cafaggi entrecortam as linhas narrativas de forma igualitária e democrática, mostrando o “jogo de cintura” com que cada personagem encara o castigo e suas consequências, inclusive com um Tonhão da Rua de Baixo e sua gangue que remete a Biff Tannen, antagonista da série cinematográfica De Volta para o Futuro (com direito à revista Oh Là Là e um plano envolvendo esterco esboçado na prancheta do Cebolinha).

Os quadrinhistas não só exploram muito bem as figuras infantis, como também dão dimensões importantes aos seus genitores. Os pais se mostram enérgicos em manter suas posições de educadores, mesmo com o coração na mão. Há também aquele momento de orgulho dos adultos, quando se faz repetir a única fala do filho (autêntico Marlon Brando mirim) no teatrinho escolar, vibrando e inflado de orgulho pelo breve momento, como se estivesse também no palco.

Sem ignorar a HQ anterior, a missão de procura do Floquinho, o animalzinho de estimação do Cebolinha, ganha um peso no corretivo dos pais. Em contrapartida, as inocentes ameaças sobre não fazer o dever e conselhos para a escola nova, ditos pelos adultos, podem se mostrar falhos. Afinal, como bons seres humanos feitos de carne, osso e celulose, eles são passíveis de errar na educação.

A sinestesia dos irmãos se complementa nos flashbacks “fofinhos” de Lu e no traço cartunesco da linha do tempo principal interpretada pelo Vitor.

Além de sondar com bastante humor as características peculiares de cada personagem, são desbravadas no álbum situações interessantes que ainda não tinham sido abordadas nas histórias de Mônica e companhia – até mesmo em virtude do “fôlego” de uma HQ mais longa.

Note o comportamento da protagonista quando muda de escola. Deslocada, ela chega a acompanhar ditando pra si, mas sempre à distância, a brincadeira de outras alunas. Há posteriormente a barreira invisível do isolamento levantada por cochichos, mesmo estando aparentemente integrada àquele grupo. Quem já passou por mudanças desse tipo vai se identificar de imediato.

Nesse sentido, aparecem também na trama as questões do bullying orquestrado por valentões e de despreocupar os pais com esses problemas, procurando assim uma independência própria, mesmo tentando fugir das responsabilidades inicialmente, o que não aconteceria no seu “habitat natural”.

Por falar em maturidade, o roteiro oferece várias sutilezas ao redor do tema das lições e amizades, seja numa retribuição anos após sacrificar os cabelos com um corte radical, para fazer parte do “mesmo time”, seja no silêncio de uma simples e singela assinatura no gesso de um braço quebrado, que resulta em outro “gesto de carinho”.

Outra sacada quase imperceptível se mostra fora da história, na concepção do desenho infantil da turma que adorna as folhas de salvaguarda na edição de capa cartonada (que, na versão capa dura, encontra-se uma página antes de começar e continua uma página depois de terminar).

Analisando a página dupla quando separada pelo miolo do álbum, nota-se que em uma ficam juntos Magali, Cebolinha e Cascão, e na outra, apenas a Mônica, denunciando as consequências da história.

Acerca de outras referências, numa das conversas entre Cascão e Cebolinha, na página 62, eles estão sentados no velho carro sucateado de um terreno abandonado do bairro do Limoeiro que serviu de casa para um certo cachorrinho azul em Bidu – Caminhos, de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho.

Ainda no campo das homenagens, os Cafaggi relembram a famosa versão shakespeariana de Mônica e Cebolinha no mundo de Romeu e Julieta, peça teatral lançada no Brasil em 1978 e que rendeu disco, animação e HQ.

José Márcio Nicolosi – um grande veterano desenhista dos Estúdios Mauricio de Sousa, dotado de um traço bastante singular – ganha merecidamente seu nome na escola da turminha em Lições. Já as garotas que acompanham Magali no curso de etiquetas lembram as princesinhas das produções cinematográficas da Disney.

O leitor pode até pensar que a naturalidade do desenvolvimento no álbum vai descambar para soluções de encaixe fácil como peças de quebra-cabeças, mas os autores mostram um grau mais elevado de maturidade narrativa no desfecho para cada protagonista. Uma grata surpresa que expande o universo além dos gibis de linha, em prol da qualidade da história em si.

Dentre os extras, focado nos personagens que não aparecem em Laços (como o gato Mingau, o pestinha Dudu, Quinzinho, Xaveco, dentre outros), o destaque fica para as sequências de “créditos finais”, como num filme. Mais sensação de “sessão matinê” que essa leitura final, provavelmente impossível.

Como aquela velha lição passada dos pais para os filhos de ponderar pacientemente passo a passo as instruções de amarrar seu próprio cadarço, à medida que se ganha mais independência com o tempo, Turma da Mônica – Lições amarra perfeitamente um grande aprendizado na vida: os verdadeiros laços de amizade.

Classificação

5,0

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