As histórias que inspiraram o Batman de Christopher Nolan

Por Marcus Vinicius de Medeiros
Data: 6 agosto, 2012

Evidente que a trilogia do Morcego nos cinemas tem diferenças em relação aos quadrinhos, mas muitas das aventuras clássicas do defensor de Gotham City estão presentes nos filmes

 

Batman BeginsA recente trilogia que adaptou as aventuras de Batman para os cinemas, dirigida com muita competência por Christopher Nolan, é sucesso de público e crítica e, mais importante, ajudou a redefinir o gênero super-heróis aos olhos do grande público.

Os leitores de quadrinhos conhecem de longa data o potencial da mídia e dos justiceiros de roupas colantes para tramas mais adultas e perturbadoras, com doses balanceadas de psicologia e política. Mas o resto do mundo foi pego de surpresa por Batman Begins, de 2005, que narrou a jornada heroica de Bruce Wayne contra suas próprias trevas interiores antes de declarar guerra ao crime.

O mesmo se viu na sequência, Batman – O Cavaleiro das Trevas, que, mais do que uma adaptação de quadrinhos, se mostrou um ótimo filme, que se destacou pela interpretação visceral de Heath Ledger como um Coringa mais niilista e doentio, numa abordagem de cinema policial.

E Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que estreou 27 de julho no Brasil, cumpriu a promessa de encerrar o ciclo em grande estilo.

Pode-se destacar também nos filmes a interpretação inspirada de Christian Bale como Bruce Wayne/Batman, Gary Oldman como Comissário Gordon, Michael Caine como Alfred, Anne Hatheway como Selina Kyle, Marion Cottilard como Miranda Tate, Tom Hardy como Bane e Aaron Eckhart como Harvey Dent/Duas-Caras, e as contribuições no roteiro do especialista em quadrinhos David S. Goyer e do irmão do diretor, Jonathan Nolan.

Batman - Ano Um

Igualmente elogiável é o fato de que, mesmo com todo o respeito à filosofia do justiceiro criado por Bob Kane em 1939 e ao clima maduro e sombrio dos melhores quadrinhos de Batman nos últimos tempos, os filmes não são adaptação direta de nenhuma história conhecida.

Os realizadores da trilogia usaram elementos consagrados do mito do Homem-Morcego em suas décadas de existência, mesclaram ideias de autores renomados, redefiniram personagens e apresentaram uma ambientação realista para Gotham City, num experimento poderoso.

Mesmo assim, em vários momentos pode-se notar a influência do Batman dos quadrinhos, tanto da essência do personagem e quanto de algumas histórias muito especiais.

Evidente que a primeira grande influência do filme Batman Begins foi o arco de histórias em quatro partes Batman – Ano Um, escrito por Frank Miller e ilustrado por David Mazzucchelli, e publicado em 1987 nas edições # 404 a # 407 do título principal do Morcego nos Estados Unidos.

A história apresentou a origem reformulada do herói após o evento Crise nas Infinitas Terras, que redefiniu todo o Universo DC, e acompanhou as reformulações do Superman, por John Byrne, e da Mulher-Maravilha, por George Pérez. A diferença é que o trabalho de Miller e Mazzucchelli em Batman foi tão simples, contundente e vigoroso que continua valendo até hoje, enquanto os colegas de editora do vigilante passaram por sucessivas revisões de cronologia ao longo dos últimos anos.

Miller já havia produzido e explosiva minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas, narrando o retorno de Bruce Wayne ao manto do Morcego após anos de aposentadoria num futuro próximo, e foi o artista perfeito para apresentar também a origem do herói. Em parceria com Mazzucchelli, assinara A queda de Murdock, saga definitiva do Demolidor, da rival Marvel Comics.

Batman - Ano Dois

Batman – Ano Um começa com o retorno à Gotham City de um Bruce Wayne de 25 anos, após suas viagens em treinamento pelo mundo, e da chegada do policial James Gordon, transferido de Chicago. O milionário sofrera ao assistir ao assassinato dos pais quando criança, e decidira dedicar a existência a combater o crime em todas as suas formas.

Mas ele ainda precisava de alguma arma especial em sua guerra contra as forças do mal, um elemento capaz de instilar o medo no coração dos criminosos covardes e supersticiosos. Wayne e Gordon encontraram uma cidade não só abalada pelo crime, mas também dominada pela corrupção policial e política. E limpar Gotham não seria uma tarefa fácil.

Após uma investida disfarçado por ruas perigosas em que lidou com tipos sujos e uma prostituta que ainda daria o que falar, Bruce saiu gravemente ferido, foi capturado pela polícia e escapou para regressar à mansão Wayne à beira da morte, quando veio o sinal que tanto esperava. Quando um morcego entrou pela janela de sua sala, a criatura que o aterrorizava quando criança não deixou dúvidas. Ele se tornaria um morcego. E, assim, nascia o vigilante urbano que o mundo conheceria como Batman.

Mas Batman – Ano Um é tanto uma história do Morcego quanto do idealista James Gordon. O policial brilha na narrativa em primeira pessoa que o destaca no mundo corrompido de Gotham City, com a esposa grávida e um caso amoroso com uma colega de trabalho.

Quando Batman inicia seus ataques aos criminosos, o tenente Gordon e incumbido de capturá-lo, e os confrontos do herói com a polícia garantem cenas memoráveis. A história não apresenta os grandes vilões das produções cinematográficas, apesar da presença de famílias mafiosas, do promotor público Harvey Dent e da prostituta Selina Kyle estreando em sua identidade de Mulher-Gato.

Contudo, o clima da série e o relacionamento incipiente entre Gordon e o Homem-Morcego são parte integrante do filme Batman Begins, incluindo a memorável cena do ataque de morcegos.

Batman # 232

Já em 1989, uma nova revista mensal, intitulada Legends of The Dark Knight (Contos de Batman, no Brasil) foi lançada com histórias do herói em inicio de carreira, inspiradas pelo sucesso da obra de Miller e Mazzucchelli.

A publicação abriu com o arco Shaman, de Dennis O’Neil e Ed Hannigan. Com uma narrativa que corria paralela à de Batman – Ano Um e mostrava, entre outros eventos marcantes, a última viagem de Bruce Wayne antes de retornar a Gotham e sua primeira patrulha como Batman. A série foi até o número 214, sendo cancelada em março de 2007.

Uma sequência chamada Batman – Ano Dois foi lançada ainda em 1987, com texto de Mike W. Barr a arte de Alan Davis e Todd McFarlane. O tom da história diferia bastante de sua predecessora, e o uniforme do herói já apresentava a elipse amarela no peito.

Na trama, o defensor de Gotham enfrentava a ameaça do Ceifador, vigilante que patrulhara as ruas da cidade duas décadas antes, deixando um rastro de corpos. Um combalido Batman é obrigado a se aliar a grupos criminosos, inclusive o assassino de seus pais Joe Chill, manchando seu nome junto à polícia.

A história explora bem o código de Batman de nunca tirar uma vida, até com sua polêmica decisão de usar uma arma de fogo. Paralelamente, há o romance de Bruce Wayne com a jovem Rachel, secretamente a filha do próprio Ceifador. Batman – Ano Dois teve como continuação a graphic novel Full Circle, também produzida por Barr e Davis, e foi influência no longa metragem de animação Batman – A máscara do fantasma.

E não se pode esquecer o incomparável vilão Ra’s Al Ghul, interpretado em Batman Begins por Liam Neeson e Ken Watanabe. O “Cabeça do Demônio” apareceu pela primeira vez em Batman # 232, de junho de 1971, de Dennis O’Neil e Neal Adams.

O longo Dia das Bruxas

Apresentado como um poderoso terrorista internacional por trás de uma organização grandiosa, Al Ghul pretendia purificar o planeta exterminando boa parte da população mundial. Este inimigo notável deduziu a identidade secreta de Batman, sequestrou seu parceiro Robin e via no herói um potencial herdeiro, potencializado pelo amor entre Bruce Wayne e sua filha Tália.

Posteriormente, na graphic novel O filho do Demônio, Batman e Tália tiveram um filho (sem que o herói soubesse), que depois foi resgatado por Grant Morrison na figura de Damien, o atual Robin.

Al Ghul conquistara a imortalidade por meio dos poços de Lázaro, onde ressuscitava mais forte após cada aparente morte. Ele e Batman se enfrentaram dezenas de vezes, e o vilão pode ser considerado uma das maiores ameaças à humanidade no Universo DC, tendo enfrentado toda a Liga da Justiça e resistido mil anos para causar problemas à Legião dos Super-Heróis.

Os planos de Ra’s Al Ghul em Batman Begins surgem numa escala diferente, mas ecoam também as megassagas Contágio e O legado do Demônio, nas quais ele foi responsável por uma epidemia devastadora em Gotham City.

Uma série que pode ser considerada a sucessora “espiritual” de Batman – Ano Um, e que influenciou tanto Batman Begins quanto Batman – O Cavaleiro das Trevas, é O longo Dia das Bruxas, da dupla Jeph Loeb e Tim Sale, publicada originalmente em 1996, como uma minissérie.

A obra versa sobre um misterioso assassino que mata sempre em feriados, e destaca a parceria entre Batman, o tenente Gordon e o promotor público Harvey Dent, evidenciando sua dramática transformação no Duas-Caras.

Batman - O Cavaleiro das Trevas

Situada cronologicamente nos primeiros anos de atividade de Batman em Gotham, a história mostra bem o submundo criminal da cidade, com as famílias Falcone e Moroni, e como o crime organizado foi cedendo lugar para os vilões fantasiados, conhecidos como aberrações.

Assim, figuras como Coringa, Sr. Frio, Solomon Grundy, Hera Venenosa, Charada e Mulher-Gato figuram na narrativa, que ainda tem o mérito de expor a vida pessoal de Bruce Wayne e a relação entre seu pai e a família Falcone.

Inicialmente, não estava bem definido se a trama integraria a continuidade oficial do Universo DC, mas logo seus elementos foram aproveitados por autores distintos. Loeb e Sale produziram duas sequências, Vitória Sombria e Mulher-Gato – Cidade eterna.

Claro que quem roubou a cena em Batman – O Cavaleiro das Trevas foi o Coringa interpretado por Heath Ledger, e este vilão também apresenta uma trajetória apreciável de crueldades nos quadrinhos. Concebido pelas mentes criativas de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, o Palhaço do Crime de cabelos verdes e face esbranquiçada fez sua estreia na primeira edição solo de Batman, em 1940.

Esse psicopata homicida surgiu aterrorizando Gotham City com assassinatos previamente anunciados, em que as vítimas acabavam com seu sorriso distorcido no rosto. A história do primeiro contato de Batman com o Coringa foi recontada duas vezes após Crise nas Infinitas Terras, a primeira por Dennis O’Neil e Brett Blevins, em Legends of The Dark Knight # 50, de 1993 (publicada no Brasil em Batman Anual # 3, da Abril), e depois na badalada graphic novel O Homem que ri, de Ed Brubaker e Doug Mahnke, em 1995.

Mas quando se fala no Coringa, nenhuma história teve tanto impacto quanto A piada mortal, clássico escrito por Alan Moore e ilustrado com mestria por Brian Bolland.

A piada mortal

Publicada em 1988, A piada mortal apresenta a origem definitiva do Palhaço do Crime e um dos atos mais hediondos de sua existência. A história mescla uma narrativa em que o Coringa tenta levar o comissário James Gordon à loucura, chegando a balear sua filha Bárbara e expor o nobre policial a diversas formas de tortura e perversidades.

Em paralelo, a narrativa de Moore expõe a vida do vilão antes do acidente que o desfigurou, como um inocente e fracassado comediante, que é levado, por força das circunstâncias, a roubar uma companhia de produtos químicos e cruzar o caminho do Batman.

A relação entre herói e vilão é explorada como nunca antes na história dos personagens, e levada ao extremo na polêmica cena final da graphic novel. Além do tiro que deixou paralítica a ex-Batgirl e dos tormentos que fez passar o pai da heroína, o Coringa ainda assassinou o segundo Robin numa história posterior assinada por Jim Starlin e Jim Aparo, e a policial Sarah Essen Gordon, então mulher do comissário.

Por tudo isso, ele é a figura que mais atormenta o Homem-Morcego e o faz questionar sua decisão de não matar.

E conforme o enredo de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge vai evoluindo, mais vem à lembrança a megassaga A queda do Morcego, na qual o herói, literalmente, foi quebrado pelo monstruoso Bane.

A queda do Morcego

Numa história que durou aproximadamente dois anos, supervisionada pelo editor Dennis O’Neil, com tramas escritas por Doug Moench, Chuck Dixon e Alan Grant, Bruce Wayne sofre de um estresse crescente, tem dificuldades para conciliar suas duas vidas e encontra um oponente implacável.

Bane chega à Gotham com o objetivo de destruir o herói, descobre sua identidade secreta, liberta todos os prisioneiros do Asilo Arkham, percebe o momento difícil pelo qual passa Batman, agrava a situação ao máximo e, num confronto decisivo, parte a coluna do herói.

A partir de então, Bruce Wayne escolhe como sucessor Jean Paul Valley, também conhecido como Azrael, um potencial assassino programado pela Ordem de São Dumas. A trama envolveu todos os personagens do núcleo do Morcego. Tanto que a DC aproveitou para lançar novas séries mensais estreladas por Mulher-Gato e Robin, e inaugurou uma tradição de megassagas com Batman.

O retorno de Bruce Wayne ao manto do Morcego veio num desdobramento que a maioria dos leitores considerou forçado, mas A queda do Morcego resiste como uma trama de fôlego, cujas repercussões ainda se fazem sentir. Tanto que foi adaptada, em parte, no terceiro longa do personagem sob a batuta de Nolan.

O impiedoso vilão teve sua primeira aparição e origem revelada no especial Batman – Vengeance of Bane, de janeiro de 1993, escrito por Chuck Dixon e ilustrado por Graham Nolan, e já foi pensado como o oponente que derrotaria Batman.

Curiosamente, seus criadores o descrevem como um reflexo do herói pulp Doc Savage. Na história, é revelado o passado de um homem que escapara da prisão de Pena Dura, em Santa Prisca, um verdadeiro inferno na Terra, atormentado por sonhos com a figura do Morcego, e ligado à droga veneno que o escritor Dennis O’Neil introduziu nas revistas Legends of The Dark Knight # 16 a # 20.

Batman - Vengeance of Bane

No período em que passou encarcerado, Bane treinou corpo e mente à perfeição, desenvolvendo técnicas próprias e se tornando uma máquina de matar. Histórias posteriores à Queda do Morcego trataram de enriquecer a história pessoal do vilão que, de certa forma, trilhou por vezes um caminho de redenção já previsto pelo criador Chuck Dixon, mas sem abandonar sua vocação para o mal.

Bane teve destaque na série do Sexteto Secreto escrita por Gail Simone, antes do reboot da DC Comics, e continuou tendo uma força inegável nas histórias de Batman.

Leitores atentos das aventuras do Morcego notaram, em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge uma influência clara da megassaga Terra de ninguém, que saiu em praticamente todas as revistas de linha do personagem no ano de 1999. Foi consequência direta do crossover Terremoto, em que Gotham foi devastada por violentos tremores de terra, até que o governo dos Estados Unidos decidiu isolar a cidade do resto do país.

Terra de ninguém foi uma sequência de histórias bem conduzidas, que contou com os talentos de Greg Rucka, Devin K. Grayson, Larry Hama e Bob Gale, além de diversos autores convidados, explorando as raízes da sociedade humana e motivações primárias de aliados e oponentes do Cavaleiro das Trevas.

A Gotham City destruída ficou dividida em tribos e setores dominados por criminosos, policiais e vigilantes, como palco de uma verdadeira guerra urbana. Esse ambicioso projeto revigorou a franquia do herói como poucas vezes em sua trajetória, e resiste ao teste do tempo como uma trama marcante.

E, embora não tenha seus temas aproveitados diretamente, a incomparável minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, influencia os três filmes do Morcego em sua essência, em detalhes como o batmóvel em forma de tanque de guerra e uma linha de diálogo que faz a alegria dos fãs na parte final da trilogia.

Há ainda uma surpresa que não será revelada aqui, mas remete diretamente à obra de Miller.

Terra de ninguém

Também digno de nota são o arco de histórias Justiça Cega, de 1989, de Sam Hamm, o roteirista do Batman dirigido por Tim Burton, que introduzir o mercenário Henry Ducard como um homem que treina Batman e deduz sua identidade secreta, e a singela história Três balas e um mistério, de 1969, por mostrar a mudança do herói de sua mansão e caverna para a cobertura do prédio da Fundação Wayne, no centro de Gotham. Publicada originalmente em Batman # 217, cortesia de Frank Robbins e Irv Novick.

A trilogia dirigida por Christopher Nolan chega ao fim, mas não há dúvidas de que Batman continuará a ser adaptado para diversas mídias, inclusive com novas produções cinematográficas num futuro não tão distante. As abordagens variam, assim como as doses de estilização ou realismo de cada artista.

Um grande trunfo do personagem é justamente a sua versatilidade para interpretações diversas. Assim, o Batman estrelou o seriado televisivo da década de 1960, os filmes de Tim Burton e a série animada produzida por Bruce Timm, entre outras obras de sucesso.

E é certo que, enquanto continuarem a beber nas fontes salutares das boas histórias em quadrinhos, as adaptações de Batman para cinema, televisão ou jogos eletrônicos ainda conquistarão gerações de fãs e provarão o valor do defensor de Gotham City.

Marcus Vinicius de Medeiros vive no Rio de Janeiro, mas sua cabeça está sempre em Gotham City.

Batman - Ano UmCatwoman - When in RomeBatman - The Man Who Laughs

• Outros artigos escritos por

.

.

.