Douglas MCT fala sobre Lamen, o novo portal de webmangás nacionais

Por Zé Oliboni
Data: 16 julho, 2015

No próximo dia 20 de julho estreia o Lamen, um portal gratuito de webmangás nacionais capitaneado por Douglas MCT.

O Lamen pretende ser uma antologia virtual que reunirá o que tem sido feito de melhor em mangá nacional, com autores e artistas selecionados publicando séries, minisséries e histórias fechadas com temáticas diversas. As histórias serão disponibilizadas semanalmente, dividindo capítulos em partes com algumas páginas por vez, até a sua conclusão.

O site foi desenvolvido para leitura online em computadores, tablets e celulares. Os títulos ficarão disponíveis em um catálogo organizado e cada título terá sua própria página, com ficha de dados e os respectivos capítulos. O site também terá um espaço de notícias, uma área do autor com o perfil de cada um, além de enquetes e fóruns para debater os mangás semanalmente.

Também será usado o sistema de financiamento coletivo chamado APOIA.se, em que o leitor poderá optar por fazer uma contribuição a partir de R$ 1,00, ganhando benefícios como acesso ao Lamen Club, um grupo restrito aos apoiadores, que recebem as novidades e as páginas antes dos demais, artes autografadas ou exclusivas, esboços de todas as páginas, versões a lápis, alguns roteiros, bate-papo com os autores por chat – ou vídeo -, extras etc.

O Lamen já recebeu mais de 50 HQs de autores que pretendem publicar pelo site e em breve informará como outros autores poderão participar.

Douglas MCT, publisher do Lamen, falou com o Universo HQ sobre o site, mangás e seus planos para o futuro.

Lamen

Universo HQ: O termo mangá se refere a quadrinhos feitos no Japão, mas com o tempo se tornou uma definição de um estilo. O que é mangá na concepção do Lamen? E por que um portal focado em mangá?

Douglas MCT: Na verdade, mais do que um estilo, o mangá é histórias em quadrinhos. “Mangá” é realmente como os japoneses denominam os quadrinhos (Asterix e Mônica também são chamados assim por lá, por exemplo). Para o Lamen, o mangá é aquela história em quadrinhos que, mais do que olhos grandes, carrega uma narrativa cinematográfica peculiar, determina um espaço de tempo sem pressa para desenvolver cenário e personagens, com o bom uso do preto e branco favorecendo a arte, da onomatopeia integrando e complementando o desenho e com um trabalho único na expressão de personagens, que faz toda a diferença no resultado final e na identificação com o público, mesmo aquele não habituado com esse tipo de HQ. Depois da popularização do formato, o mangá deixou de ser apenas aquela revista com leitura invertida e, como tudo que vem para o Brasil, ele também se tornou um produto híbrido, que pode ter a nossa cara sem perder o estilo. Holy Avenger, de Awano e Cassaro, e as obras das meninas do Studio Seasons são ótimas provas disso.

O Lamen nasceu da carência de um portal exclusivo para mangás focado no material nacional, já que existe muita coisa boa por aí que ninguém conhece. Mesmo com o sucesso do formato – iniciado por aqui no começo dos anos 2000, graças à Conrad e à JBC -, ele ainda sofre certa rejeição de boa parte do público nerd, que vê o mangá como um tipo de “HQ menor”. Uma besteira, claro. Existem sites de leituras de mangás por aí, mas são todos scans de obras orientais. Há ainda algumas outras iniciativas tímidas no mercado nacional nesse sentido e outros tantos blogs e sites de autores tentando mostrar seu trabalho e serem lidos, mas que sozinhos não chegam em lugar nenhum. Com isso, o Lamen decidiu reunir um time entre títulos interessantes que já figuravam na web (e outros tantos inéditos) e realizar um trabalho de editoração, revisão e marketing, com muito profissionalismo, feito por quem já atuou na área. É clichê, mas é verdade: “a união faz a força”. Juntos, estamos chegando longe, levando a sério um produto que é bem divertido de ler e de fazer.

UHQ: Antes mesmo de abrir o portal você já recebeu mais de 50 mangás para publicação. Como será a seleção? Qual a qualidade média dessas histórias?

Douglas: As divulgações sobre o Lamen começaram tímidas, ainda em maio deste ano, mas desde a primeira semana já surgiram autores interessados em publicar na plataforma, utilizando as mensagens da nossa fanpage. A qualidade das obras varia de médio para bom e muito bom, o que me surpreendeu, sendo sincero. Em 2011, abri um concurso para selecionar artistas para meu mangá Hansel & Gretel (que será publicado pela Editora NewPOP) e a qualidade variou ao extremo. Aqui, a experiência foi diferente e positiva até agora. O pessoal evoluiu muito de uns anos para cá.

Ainda estamos definindo o processo seletivo para novos autores no Lamen, mas, dentre os princípios, teremos foco no roteiro, em uma história bem contada, com personagens cativantes, e não pastiches de Dragon Ball, Naruto e Sailor Moon. E, mais do que uma arte bonita, analisaremos a personalidade do traço e a habilidade narrativa, de se criar uma sequência clara e dinâmica entre os quadros.

UHQ: Mangá, junto com super-heróis americanos e Turma da Mônica, são os sobreviventes na seção de quadrinhos das bancas. Ou seja, eles têm público. Mas, salvo algumas iniciativas pontuais (como a da JBC), não se tem um título ou mais periódico com autores nacionais. Você acha que o leitor não se interessaria em comprar?

Douglas: Acredito que, depois de conhecer os títulos agregados ao Lamen, ainda nessa primeira fase, muitos poderiam se interessar em comprar uma “antologia Lamen“, não só pela qualidade das histórias, mas também pelo profissionalismo com o qual estamos tratando as obras. Existem, sim, planos para isso no futuro, numa outra etapa do projeto, mas o foco principal e inicial agora é de fortalecer a web e alcançar o maior público possível com o meio digital.

UHQ: Apesar de a internet ter facilitado, uma das eternas reclamações é a de roteiristas que não acham desenhistas e vice-versa. O Lamen terá alguma iniciativa para facilitar esse encontro?

Douglas: Sim. Ainda que existam busca nos dois casos, analisando grupos de desenho no Facebook, o que mais encontramos são roteiristas procurando desesperadamente por um desenhista, sem sucesso. Acontece que, na maior parte das vezes, tanto esse pretenso roteirista quanto o artista não sabem como dialogar, apresentar a ideia e de combinar uma parceria, e com isso, em alguns casos, acabamos perdendo bons títulos, antes de nascerem.

Estamos rascunhando uma solução, a fim de solucionar esse problema e criar formatos de parceria que venham agregar bons projetos ao Lamen, mas ainda em estágio inicial de desenvolvimento. Outro ponto mais ou menos semelhante é um futuro curso de roteiro que darei, em que pretendo encontrar ali prováveis novos autores para o portal.

UHQ: Hoje em dia, qualquer um pode publicar seu quadrinho online sem muito esforço. Em breve, vários aplicativos também serão um caminho simples de publicação independente. Qual a vantagem de publicar no Lamen?

Douglas: A vantagem é o que o Lamen tem um foco (o mangá) e esse foco é trabalhado com a cara do público que o consome. Quem lê mangá, vai querer ler o Lamen porque ele fala na mesma linguagem do otaku, com títulos de gêneros variados (que vão agregar meninos e meninas, de todas as idades e perfis). Esse tipo de identidade única que estamos trabalhando também se reflete na linguagem gráfica do site e das nossas peças de divulgação, como o pôster, alguns banners e o mascote Laminho (um sucesso instantâneo nas redes sociais quando foi divulgado – e me perdoe o trocadilho). No Lamen, também desenvolvemos uma comunicação direta com o público, utilizando as enquetes, os fóruns para cada título e as redes sociais, além da futura “seção de mensagens”. Como os capítulos dos nossos mangás serão divididos em partes durante a semana, esse acompanhamento por parte do público fica muito mais fácil – além de dar fôlego para o autor seguir com a produção do seu título, evitando com isso longos hiatos entre um capítulo e outro.

Acho essencial que, além da evolução do roteiro e da arte, o autor também cresça por meio do feedback. O leitor e o autor serão muito próximos, por intermédio do Lamen, e acreditamos que muitas vezes a opinião do público interfira de alguma maneira na história que está sendo contada. Queremos que o público faça parte de cada título. Para o autor, outra vantagem além da massiva divulgação de seu trabalho sem custo algum é que o Lamen serve também como vitrine, para que editoras conheçam sua obra. Há também nosso espaço de contribuição do “leitor premium“, no qual o autor será monetizado e o público, premiado.

Essas boas iniciativas de aplicativos de quadrinhos são como uma livraria ou biblioteca, apresentam variados estilos de HQs, que vão de comics a mangás, de fumetti a cartum, sem um foco direcionado e de maneira alguma competem com nossa proposta – pelo contrário, elas vêm somar ao que estamos construindo, pois o Lamen levará todos os seus títulos para apps, como o Social Comics e o Cosmic.

Na segunda fase do projeto, existe também um plano de traduzir os títulos para outros idiomas, para conquistarmos o mercado digital internacional.

UHQ: Apesar do baixo orçamento, a hospedagem, registro e a manutenção de um site têm um custo. Você têm alguma perspectiva de sustentabilidade para o Lamen? Pensou em algum modelo para remunerar o autor?

Douglas: Por enquanto, estou mantendo o site por meio do meu bolso e nenhum autor convidado ou selecionado desembolsou nenhum centavo, nem irá. Como eu disse na resposta anterior, teremos um sistema de contribuição, em que o leitor pagante (a partir de R$ 1,00) terá vantagens, como integração ao Lamen Club, recebimentos de partes dos capítulos antes de irem para o ar, acesso a extras, esboços, páginas de roteiro e até mesmo desenhos autografados e bate-papo em vídeo ou chat com os autores.

Estou construindo esse espaço junto do Apoia.se, que é o nosso equivalente brasileiro ao Patreon, no qual o autor será monetizado de acordo com a escolha do leitor, recebendo 70% do valor. Outra maneira de sustentar o portal será por meio de anúncios. Em breve, também vamos disponibilizar nosso midia kit.

UHQ: As HQs do Lamen serão disponibilizadas em aplicativos de assinatura como o Social HQ e o Cosmic. A possível rentabilidade dessas HQs será dividida entre os autores?

Douglas: Ainda estamos vendo sobre essas aplicações, mas a ideia é que exista um espaço do Lamen em ambos os aplicativos e dentro dele cada título individual. O autor de cada mangá receberá seu pagamento integralmente, sem partilhar porcentagem com o Lamen.

UHQ: Você também é autor. Que tipo de história você gosta? Quais são suas referências?

Douglas: Gosto de histórias que entreguem muito suspense ou muita aventura e que tenham uma trama intrincada, com reviravoltas inesperadas e que seja sempre honesta com aquilo que se propôs a narrar. Sou muito fã de Hellboy, fui por longos anos leitor de Homem-Aranha e X-Men e comecei minha paixão por quadrinhos com Turma da Mônica (que também roteirizei por um período), Disney e Asterix. Sandman, Mortadelo & Salaminho, Menino Maluquinho, Bone e Dylan Dog, por exemplo, também me escolaram muito. Referindo-me a mangá, coloco Fullmetal Alchemist e Rurouni Kenshin no topo, adoro Dragon Ball, Yu Yu Hakushô, Hunter x Hunter, Sakura Card Captor e tenho admirado muito obras mais ou menos recentes, como MAGI, Nanatsu no Taizai e Vinland Saga.

Minhas referências enquanto roteirista não ficam só no campo dos quadrinhos, também sou muito afetado por cinema, literatura, algumas séries e jogos, diversos desenhos animados (e animês) e também campanhas de RPG por quais me aventurei.

UHQ: O cenário das HQs no Brasil e no mundo está mudando. Quais suas previsões para o futuro e como o Lamen se encaixa nesse panorama?

Douglas: Essas mudanças começaram há mais ou menos cinco anos e o Catarse foi em grande parte responsável por esse reinício do mercado, com vários projetos (em grande parte de qualidade) vendo a luz por meio do financiamento coletivo e, posteriormente, iniciativas legais, como as Graphic MSP e concursos de editoras para novos talentos. O nosso mercado, ainda bebê, continua lutando para ir mais longe, mas o cenário agora é muito mais promissor do que antes. O digital é a próxima e inevitável etapa dessa evolução. Existe ainda uma parcela de leitores, quadrinistas e editoras descrentes com o formato, mas só os resultados, como do Lamen e dos citados apps, podem começar a provar esses fatos.

Prevejo que o futuro dos quadrinhos nacionais será semelhante ao que o Netflix é hoje para o mercado de vídeo, com a consolidação do digital. Querendo ou não, a maior parte do público já está integrada nesse âmbito da web, as pessoas grudadas em aparelhos móveis, e o que faremos aqui é agregar mais um conteúdo a essa rotina, que já envolve e-readers, games etc. É mais barato para o usuário, gera maior alcance para o autor (ainda que tenhamos um mercado em crescimento, muitos não conseguem e não conseguirão publicar em grandes ou médias editoras, mesmo com boa qualidade nas obras) e é trabalhado editorialmente quase da mesma maneira que no impresso.

O Lamen vem somar a esse novo passo, fortalecendo o lado do mangá nacional, até então pouco valorizado por aqui, ao mesmo tempo em que entrega para o público um material divertido e de qualidade para ser lido no dia a dia.

UHQ: O leitor de quadrinhos, apesar de aceitar o digital, tem o hábito do colecionismo e o autor também tem o sonho de ver sua história de forma impressa. Você tem planos para isso? Se sim, seria pelo próprio Lamen ou em parceria com alguma editora?

Douglas: Como eu disse numa resposta anterior, nosso foco neste momento é somente web, explorando tudo que o digital pode nos fornecer. Já fomos sondados por alguns editores curiosos com o andamento do projeto, mas é cedo para isso. Numa segunda fase do projeto, caso não acordemos com nenhuma editora, o processo natural seria realmente lançar por um selo próprio do Lamen.

O Lamen está nascendo como um portal, como uma plataforma para lançar novos e veteranos autores de mangá nacional, com acesso fácil para o público. Mas não ficará só nisso e vai ser legal acompanhar até onde podemos chegar.

 

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