Maria chorou aos pés de Jesus

Por Audaci Junior
Data: 29 março, 2018

Maria chorou aos pés de JesusEditora: WMF Martins Fontes – Edição especial

Autor: Chester Brown (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Mary Wept Over the Feet of Jesus (tradução de Érico Assis).

Preço: R$ 44,90

Número de páginas: 288

Data de lançamento: Agosto de 2017

Sinopse

Com base em passagens bíblicas no que se refere a prostituição e obediência no Antigo e Novo Testamento, o autor traça uma linha conectando personagens históricas como Betsebá, Rute, Raabe, Tamar, Maria de Betânia e a Virgem Maria, analisando o código moral cristão e examinando as implicações das representações do trabalho sexual na Bíblia.

Recortes como a história de Caim e Abel, a meretriz de Jericó que ajudaria os Israelitas a conquistar a cidade, uma solução textual de São Mateus Evangelista e parábolas de Jesus dos talentos e do filho pródigo são explorados para defender uma tese.

Positivo/Negativo

O tabu envolvendo a prostituição é tão antigo quanto a profissão. Quando é colocado no contexto dos ensinamentos da Bíblia, essa atividade, que visa ganhar dinheiro ou favores com a cobrança por atos sexuais, é ensinada como algo desonroso e nocivo, mesmo que seja “perdoado” pelos valores cristãos.

Dos poucos trabalhos de Chester Brown lançados aqui, pode-se traçar interessantes coordenadas que convergem a esse “ensaio” sobre o tema frequentemente polêmico no universo bíblico.

Em A Playboy (publicado em 2001, pela Conrad), o quadrinhista canadense explora sua adolescência, colocando na berlinda suas dúvidas e valores católicos confrontados com o desejo carnal representado na famosa “revista de mulher pelada”.

Já em Pagando por sexo (WMF Martins Fontes, 2012), o autor faz um tratado pessoal sobre abdicar dos relacionamentos amorosos “românticos” para abraçar racionalmente a necessidade da cópula e defender a liberalização da prostituição.

Assim como o guru do underground Robert Crumb foi fiel aos textos bíblicos na sua adaptação de Gênesis (Conrad, 2009), Brown vai na mesma linha. O que foi criado fora das escrituras sagradas, ele informa nas suas extensas notas, seção que toma boa parte da obra.

Lidas na sequência, o leitor vai achar apenas que são adaptações desconexas e isoladas uma com a outra, ainda que invoque – mesmo de forma superficial, em algumas passagens – a prostituição em si ou ignore o assunto, como visto no episódio de Caim e Abel, por exemplo.

O que faz unir esses recortes é a costura da sua “tese” acerca do assunto. Mesmo que o leitor não concorde com a defesa do quadrinhista, ele propõe, no mínimo, refletir sobre certos tabus e dogmas religiosos que muitos são doutrinados.

Questões como a obediência à Palavra do Senhor, que reforçará papéis assumidos pelas mulheres para resgatar a justiça que lhes foi negada perante algumas situações, sejam elas meretrizes profissionais ou não.

Ao mesmo tempo em que defende a expressão livre da sexualidade – nunca como algo pecaminoso ou nocivo –, também é colocada a reflexão sobre a figura feminina no contexto histórico, focando também na injustiça do homem ao longo dos anos.

Parábolas como a mais famosa, sobre o retorno do filho pródigo, servem para amparar a perspectiva de que a desobediência também serve ao código de moral cristão. Nas interpretações, o esforço da insubordinação do dia a dia em vez de seguir servilmente as regras pode ter uma recompensa aos olhos de Deus.

Apesar de sustentar seu discurso com estudos acadêmicos, livros e apócrifos, o autor promove julgamentos das suas fontes, qualificando como equivocadas as que não seguem seu raciocínio, como também não questiona as interpretações que lhe parecem alinhadas com seu pensamento. Nas notas, percebe-se que ele admite de certa forma moldar sua narrativa/recortes para um fim.

Não obstante, independentemente de abordagens e defesas, Chester Brown lida com o tema e as passagens bíblicas de maneira respeitosa, mesmo para aquelas correntes que são inconcebíveis nas aulas de catequese, como a polêmica e delicada vertente que qualifica a mãe de Jesus como uma prostituta.

Uma HQ quase acadêmica, mas que também não nega a formação religiosa do seu autor, suas próprias hipóteses e pontos de vista, além de não descartar os acontecimentos ligados na crença e na credibilidade bíblica.

Com um traço bastante econômico, que se encaixa no estranho formato de 10,7 x 19,5 cm da edição em preto e branco, sempre com um layout fixo de quatro grades e diálogos concisos, oferecendo uma leitura rápida dos quadrinhos mediante a cadência mais lenta da concatenação das ideias nas notas, que chega a apresentar outra adaptação, agora da provação de Jó.

A publicação da WMF Martins Fontes tem capa cartonada sem orelhas (a original da Drawn & Quarterly é em capa dura), papel pólen de boa gramatura e impressão.

Maria chorou aos pés de Jesus não é “a verdade”, mas busca argumentos que, no mínimo, podem começar discussões, reflexões e indagações para pessoas esclarecidas e abertas a aceitar ou não essa hermenêutica em quadrinhos.

Classificação

4,0

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