Ouro da Casa

Por Eduardo Nasi
Data: 14 setembro, 2012

Ouro da CasaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Mauricio de Sousa, Flavio Teixeira de Jesus, Marcos Fernando Alves da Silva, Alice Keiko Takeda, J. Márcio Nicolosi, Mauricio Mendes, Andrea de Petta, Marina Sousa, Robson Bala, Kazuo Yamassake, Wagner Ramari, Sergio Tiburcio Graciano, João Marcos, Zazo Aguiar, Jairo Alves, Viviane Yamabuchi, Tatiana M. Santos, Mario Mattoso Neto, Felipe C. Ribeiro, Emy T. Y. Acosta, Clewerson Saremba, Gerson Luiz Teixeira, Sidney Gusman, Lino Paes, Mant, Maju Bellucci, Michel Leonardo Costa, Roberto Martins, Emerson Abreu, Caroline Honda, Roberto Munhoz, Sidnei Lozano, Giba Valadares, Cristina Hitomi Ando, Jal, Altino O. Lobo, Mauro Souza, Rosana Valim, Edde Wagner, Fernando A. Rodrigues, Denis Oyafuso, André Simas, Verde, Clarisse Hirabayashi, Kaio Bruder, Wellington Dias, Ana Fátima, Carlos Alberto Pereira, Jae HW, Juliana Mendes, Enrique Valdez, Thiago Martins, Romeu T. Furusawa, Fernando Luis Campos, Luciana Luppe Silva, José Aparecido, Paulo Back, Patrícia Zacarias, Edson Itaborahy, Romahs, Petra Leão, Marcelo Cassaro, Marcelo Kina, Ricardo Roásio, Reginaldo da Silva, Olga M. Ogasawara Yuhara, Lancast Mota, Wagner Bonilha e Bruno Honda Leite (texto e arte).

Preço: R$ 64,00 (capa dura) e R$ 49,90 (capa cartonada)

Número de páginas: 200

Data de lançamento: Agosto de 2012

Sinopse

Edição especial em que quase 80 funcionários e colaboradores da Estúdios Mauricio de Sousa produzem histórias, cartuns e ilustrações com seus próprios estilos.

Positivo/Negativo

Há quatro anos, para comemorar o cinquentenário de carreira de Mauricio de Sousa, a Panini lançou o álbum MSP 50, em que artistas como Laerte, Gabriel Bá e Fábio Moon, Ziraldo, Ivan Reis e outros recriavam os personagens do “pai” da Turma da Mônica com seus próprios traços.

Nos anos seguintes, vieram as continuações: MSP + 50 e MSP Novos 50. De novo, artistas usavam seus estilos para contar histórias de Mônica, Cebolinha, Piteco, Horácio…

De certa forma, foi uma mudança radical: ao contrário dos quadrinhos da Disney, as revistas de Mauricio sempre seguiram uma cartilha de traço bastante rigorosa. As alterações eram consequência do passar dos anos, e não de estilo.

Embora muita gente fizesse versões da Mônica com traços diferentes (a começar pelas próprias crianças, mas também havia as satíricas e pornográficas), essa foi a primeira ver em que as releituras foram institucionalizadas.

Parece que deu certo: agora, haverá até mesmo uma coleção de álbuns feitos e assinados por artistas como Danilo Beyruth, Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi, Shiko e Gustavo Duarte.

Ouro da Casa, de certa forma, é uma continuação desse mesmo projeto. Só que no sentido contrário: em vez de chamar artistas de fora, o álbum mostra os criadores da Mauricio de Sousa Produções usando seus próprios estilos.

Ou seja: são essas pessoas que integram a linha de produção da MSP, que seguem a cartilha, não assinam seus desenhos, que praticamente só se conhece pelo nome em letras miúdas no expediente das revistas e que tem seu trabalho assinado por outra pessoa – no caso, o chefe Mauricio de Sousa.

Não há nada de novo nisso. A História da Arte está cheia de oficinas cheias de pupilos dando uma força para seus mestres, fazendo cópias, finalizando asas de anjo… Nos bastidores, comenta-se que há quadrinhistas famosos que seguem a mesma prática hoje em dia – e sequer assumem que usam uma equipe.

Em tempos de internet, contudo, a autoria voltou a ser um tema debatido, e Ouro da Casa é (pra usar outro clichê) um prato cheio para a discussão. Afinal, é essa questão que faz o álbum ser notável.

Vale a pena repassar história a história (se preferir, pule para o fim, onde tudo estará amarrado)…

Mauricio de Sousa – O criador dos personagens abre o álbum em alto nível, com três quadros lotados de personagens e uma história simples, mas com uma narrativa bastante original e muito bem resolvida.

É notável o traço básico, a lápis, com os personagens com o estilo mais pontudo dos primeiros anos das histórias. (Vale reparar: nem Mônica nem Cebolinha aparecem na última página. Por que será?)

Flavio Teixeira de Jesus – A partir de fotos de bonecos de massinha de modelar, o roteirista faz uma alegoria sobre a infância de Mauricio e a inspiração, usando referências de histórias clássicas – inclusive a primeira tira publicada do autor. Visualmente, é uma das HQs mais surpreendentes.

Marcos Fernando Alves da Silva – Aqui temos a primeira mandala do álbum. E um estilo de história que apareceu bastante na série MSP 50: um voo espacial do Astronauta.

Alice Keiko Takeda – Esposa de Mauricio e diretora de arte do estúdio, Alice faz um desenho a grafite de Rosinha e Chico Bento em uma única página.

O prolongamento do pescoço da garota pode até dar a falsa impressão de que Rosinha está de costas, olhando por cima do ombro, mas ela está de frente. E, mesmo de costas para ela, o caipira parece encantado por essa enigmática garota.

J. Márcio Nicolosi – Um dos artistas mais celebrados do estúdio faz um Horácio com corpo de tiranossauro mesmo. É uma visão que já tinha sido abordada nos MSP 50, e volta a ser usada no Ouro da Casa, mas que aqui ressurge com um novo tratamento e uma conclusão que tem graça pelo exagero.

Mauricio Mendes e Andrea de Petta – Três histórias de uma página que brincam com a ideia do que acontece nos bastidores dos gibis. É uma metalinguagem que tem a ver com o próprio álbum.

Marina Sousa – Filha e inspiração de personagem, Marina faz uma ilustração sobre o começo da carreira do pai.

Robson Bala – A colorização digital com dégradés atrapalha a história, que tem um dos desfechos mais simpáticos do livro.

Kazuo Yamassake – Um autorretrato em um parque de diversões. É uma ideia lúdica, mas com um subtexto triste: é um criador que está afastado dos personagens com que trabalha por uma redoma de vidro, que só pode tocar neles com um gancho artificial. Crítica intrigante e corajosa.

Wagner Ramari – Lembra uma HQ fanzine dos anos 80 – pelo tema roqueiro, pela versão trash da Turma da Mônica, pelo traço… Mas a história em si se espicha demais e não se resolve bem.

Sergio Tiburcio Graciano – Em uma ilustração muito bem resolvida, Graciano – que criou a forma de fazer o cabelo do Cascão – toca no tema central do álbum: a autoria. Assume pra si a própria criação. Coincidência ou não, ele não aparece no reflexo do espelho da barbearia.

João Marcos – Autor presente no MSP 50 e criador do personagem Mendelévio, fala da alegria que é acordar para trabalhar com Mauricio e seus personagens. É uma boa condução pra um final que lembra bastante as homenagens que, em retrospecto, tiraram um pouco da força do primeiro álbum.

Zazo Aguiar – A arte é bonita e, se chega a resvalar em clichês de filmes de ação, é salva pelos objetos que as garotas carregam. Ficou bacana. Portanto, parece desperdício usá-la de forma tão limitada.

Jairo Alves – É um ensaio de uma história de super-heróis brasileiros a partir de Anjinho e Astronauta. Traço bonito, auxiliado por uma bela colorização. Mas também merecia mais páginas.

Viviane Yamabuchi – Esta Tina em versão mangá mostra outro traço que se perde na colorização. O roteiro é divertido e o recurso das hashtags é interessante. Mas ter que explicar a piada no final é um problema que não dá pra perdoar.

Tatiana M. Santos – A piada com estagiários é engraçadinha, o traço é ótimo, as cores geram o clima certo, mas o cartum podia ser mais bem resolvido se o jornal do primeiro quadro fosse mais parecido com um periódico de verdade.

Mario Mattoso Neto – O traço é bacana, mas não dá pra entender o que a superfície seca e ao mesmo tempo pegajosa significa. A terceira página tem um ritmo lento.

Felipe C. Ribeiro – Outro ponto alto do álbum. Traço ótimo, roteiro bem resolvido. Um pequeno clássico.

Emy T. Y. Acosta – Emy foi a desenhista que arredondou o traço dos personagens de Mauricio. Como Graciano, aproveita o álbum para tomar para si a autoria de sua obra.

Clewerson Saremba – Shakespeare e Boris Karloff numa história com arte bacana que mistura muito bem humor e terror.

Gerson Luiz Teixeira – Uma história clássica do Astronauta, só que com outro traço.

Sidney Gusman e Lino Paes – Uma HQ cheia de emoção que faz referência a uma antiga história em que Chico Bento perde uma irmãzinha. Ao falar de morte, foge do habitual da Turma da Mônica.

(Aqui talvez seja a melhor hora pra avisar: Sidney Gusman é o editor do livro, e também do Universo HQ. As resenhas dos três MSP 50 já tiveram este esclarecimento, mas vale lembrar: tenho certeza de que o Sidão prefere que eu seja sincero. E que não gostaria que o bajulasse por amizade. Ao mesmo tempo, sempre insisto que o leitor tem todo o direito de achar que esta é uma resenha suspeita, e que o único remédio para isso é evocar a eventual confiança que se tem no trabalho dos colaboradores do site.)

Mant – Belíssimo cartum. Outro ponto alto.

Maju Bellucci – Arte linda em história doce. Maju mostra a segunda aproximação romântica entre Mônica e Cebolinha ainda crianças.

Michel Leonardo Costa – Mais personagens esculpidos, desta vez em forma de estatuetas. Mas aqui eles formam apenas uma ilustração.

Roberto Martins – Mônica e Cebolinha pré-históricos. Boa sacada.

Emerson Abreu – Xaveco cresceu, virou surfista, tem amigos clubbers que falam “Ai, abafa o caso”. Por trás disso, tem uma ideia tipo Caverna do Dragão, com personagens que não conseguem escapar de um lugar em que não envelhecem. Curioso. E o último quadro da página 2 é ótimo.

Caroline Honda – Uma graça de versão pra Turma da Mônica Jovem.

Roberto Munhoz – Um traço bonito e uma colagem de fotos numa história que não chega a decolar.

Sidnei Lozano – O autor serviu como inspiração para o visual do Louco, personagem criado por Marcio Araujo, irmão de Mauricio. Como Emy e Graciano, ele clama pra si sua criação.

Giba Valadares – Uma das histórias mais divertidas e um dos traços mais originais. Tem pintura em aquarela e referência a Calvin, de Bill Watterson.

Cristina Hitomi Ando – Uma ilustração de uma Magali das Arábias. Bonito traço. O padrão com melancias é ótimo.

Jal e Altino O. Lobo – É sempre um risco uma história de Horácio cair no piegas, e aqui isso acontece.

Mauro Souza – Mais um excelente cartum. A história da página seguinte começa sem crédito e com a turma da Tina. Também é de Mauro, mas isso fica um pouco confuso.

Rosana Valim – É a segunda mandala do álbum.

Edde Wagner – Artista de super-heróis no passado, não por acaso cria uma HQ com um Dudu brincando de Homem-Invisível.

Fernando A. Rodrigues – Uma história clássica da Turma da Mônica: plano infalível com metalinguagem.

Denis Oyafuso – Uma ilustração que mostra outra tendência dos últimos anos na MSP: a sexualização dos personagens – que estão cada vez mais curvilíneos, musculosos… (Se isso é um problema social ou algo afim, não é questão pra esta resenha resolver.) A participação de Oyafuso evidencia outro problema rotineiro da casa: a falta de noção de moda.

André Simas – Boa sacada trazer de volta o lado galinha do Rolo. Bela arte com uma pegada indie.

Verde – Uma das interpretações mais criativas do Astronauta.

Clarisse Hirabayashi – Uma ilustração emulando vitral. Não chega a ser original, mas é um bom grafismo.

Kaio Bruder – Nico Demo com um visual ótimo e uma história que podia ser mais soturna.

Wellington Dias – O Capitão Pitoco ganha um filme 3D, e a Turma da Mônica vai assistir. Boa sacada, mas a trama fica um pouco confusa quando Cascão enxerga o herói invadindo a sala sem óculos ao final da segunda página.

Ana Fátima – Mônica e Cascão em versões toddler. Essa é nova.

Carlos Alberto Pereira – História divertida e descompromissada, com um traço delicioso e ágil.

Jae HW – História adorável. E na biografia, nas páginas finais do livro, fica claro que a história do garoto que veio da Coreia do Sul é autobiográfica.

Juliana Mendes – Mônica e Magali desenhadas com grafite. Os dentões, as sobrancelhas e o olhar perturbado da Mônica são absolutamente demais. A forma como ela envolve o braço em torno do pescoço da amiga e contorce a mão é formidável. Como o trabalho de Alice Takeda, parecem retratos feitos a partir de pessoas de verdade, o que os torna ainda mais interessantes.

Enrique Valdez – Duas páginas com uma Tina sensual levam a uma piadinha infame no final. Ousado.

Thiago Martins – Um traço bacana: Thiago faz os personagens menores que o normal na proporção do quadro, valorizando o cenário e o entorno. Essa é uma das vantagens de um projeto desses: ao mudar a forma de ver a HQ, abrem-se outras possibilidades. (Contudo, o deus ex machina do final atrapalha um pouco).

Romeu T. Furusawa – Agora é um Piteco mais sexualizado, sem camisa… O cabelo ruivo e a sombra chamam atenção.

Fernando Luis Campos – Uma boa sacada para uma história do Astronauta.

Luciana Luppe Silva e José Aparecido – Uma das histórias mais bem amarradas: roteiro bem resolvido e arte bonita.

Paulo Back – Visualmente, lembra muito a HQ de Nicolosi, que está no começo do álbum – até mesmo pela narração em recordatórios. Mas a conclusão é diferente.

Patrícia Zacarias – Um desenho com uma pegada romântica de Chico Bento e Rosinha jovens.

Edson Itaborahy – Mais uma das histórias cujo propósito é homenagear Mauricio. Quatro álbuns depois, elas já perderam muita força.

Romahs – A Turma do Jotalhão com uma pegada da série brasileira Leão Negro. Algumas páginas depois, haverá outro Jotalhão antropomorfizado e musculoso.

Petra Leão e Marcelo Cassaro – O casamento de Mônica e Cebolinha – com belas cores.

Marcelo Kina – Uma Magali adulta e sexy.

Ricardo Roásio e Reginaldo da Silva – A história mais engraçada do álbum.

Olga M. Ogasawara Yuhara – Uma ilustração de Bidu com traço bacana.

Lancast Mota – Outra HQ autobiográfica. Lancast manda bem no roteiro e na arte.

Wagner Bonilla – É o segundo Jotalhão antropomorfizado, musculoso. A história é com o filho do Cascão como um personagem de aventura – coisa que o leitor mais atento vai perceber apenas no final.

Afinal, não é dado nenhum indício até o último quadro, e o próprio Cascão poderia se passar por uma releitura de seu pai. Ou seja: mais uma história interessante que se perde no final.

Bruno Honda Leite – Para fechar, o designer do estúdio cria uma história com um visual impressionante, cheia de referências. Mauricio e Horácio são criados em potes de desodorante roll-on.

Completam o álbum: uma descrição do processo de produção de quadrinhos da MSP, biografia dos artistas e de Mauricio de Sousa. Além disso, há um hotsite com alguns extras e making-ofs. Vale a pena visitar depois da leitura.

Após tudo isso, é preciso insistir: uma antologia vale mais pelo conjunto do que pelas partes – daí as notas dadas por este resenhista a MSP 50 e MSP + 50.

Aos pedaços, Ouro da Casa é um álbum bastante irregular. Há alguns casos que os artistas parecem ter limitações para criar histórias – se Freud não explica, Marx certamente ensaiaria um pitaco a respeito da alienação da linha de montagem.

Mas, como projeto, é um petardo.

Diante de tantos talentos e ideias que surgiram, será que vale mesmo a pena a MSP continuar com seu modelo de cartilha de traço?

Será que não é hora de dar uma chacoalhada? De abrir novos traços? De experimentar novos ângulos, novos cenários, novos enquadramentos, novos materiais e texturas?

Será que esses talentos que foram apresentados ao mundo devem retornar ao ostracismo de antes?

Se Gustavo Duarte, Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi, Shiko e Danilo Beyruth têm direito à autoria, por que o tal do “ouro da casa”, que o próprio Mauricio diz ser mais que “prata”, não pode assinar suas criações?

Mauricio de Sousa vai continuar assinando as histórias que esses autores – cujos nomes agora todos conhecemos – criam em seu estúdio?

As respostas a gente vê nas bancas.

Classificação

4,5

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