Papa-Capim – Noite Branca

Por Audaci Junior
Data: 19 agosto, 2016

Papa-Capim – Noite BrancaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Marcela Godoy (roteiro), Renato Guedes (arte e cor), Diogo Nascimento e Paula Goulart (cor base).

Preço: R$ 22,90 (capa cartonada) e R$ 32,90 (capa dura)

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Abril de 2016

Sinopse

Uma ameaça sobrenatural pode significar o fim de todos os membros da aldeia de Papa-Capim. E o jovem índio tem não só a difícil missão de detê-la, mas também de convencer o pajé de que foi o escolhido para essa tarefa.

Positivo/Negativo

O terror pode ser interpretado por várias formas e conceitos. Mesmo acanhado, ele se faz presente em algumas HQs do selo Graphics MSP: o temor pode vir na pressão psicológica e física em Astronauta – Magnetar, numa viagem aos desconhecido por toda uma tribo em Piteco – Ingá, ou ainda de forma cômica (o chamado “terrir”) presente tanto em Chico Bento – Pavor Espaciar quanto em Penadinho – Vida.

Neste décimo primeiro álbum do selo que reinterpreta personagens criados por Mauricio de Sousa sob a ótica de uma nova geração de autores nacionais, novamente o terror é visitado, mas agora com uma conotação mais “sombria” do termo, evocando, inclusive, criaturas sobrenaturais, misticismo, possessão e até canibalismo.

O pequeno curumim criado em 1963, nas tirinhas da Folhinha de S.Paulo, encontra-se às portas da adolescência na história feita a quatro mãos pela roteirista Marcela Godoy e o desenhista Renato Guedes.

Esse avanço no tempo com relação às características apresentadas nos gibis da Turma da Mônica é vital para o enredo, que também envereda pelos temas de formação e amadurecimento do jovem aspirante a guerreiro. Não precisa ser sob o teto de um apartamento na zona urbana – exclusivamente nas castas sociais do “homem branco” –, as divergências entre gerações também acontecem a milhares de quilômetros, sob uma oca, como mostra Godoy.

Reside no inimigo sobrenatural das tribos da região, que batiza esta HQ, a metáfora acerca do colonizador da civilização indígena a partir do Século 16, no Brasil. São criaturas alvas, disformes e noturnas que primeiramente visitam um guerreiro nos sonhos para que ele alastre a praga para as demais aldeias.

Nos extras da edição, é revelado que Godoy teve como base para a pesquisa uma lenda obscura catalogada pelo historiador e antropólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), denominada Tatus Brancos. O relato vinha da região Sudeste do Brasil, onde esses canibais atacavam os bandeirantes no período colonial.

A roteirista traça um paralelo também ao clássico vampiro europeu. Uma comparação bastante apropriada, já que vinha do além-mar o “sanguessuga” colonizador que dizimava a cultura indígena após o “descobrimento” do país.

Há também a inserção de um fragmento do poema indianista I-Juca-Pirama (“aquele que será morto”, em tradução livre do tupi), de Gonçalves Dias (1823-1864), publicado em 1851, no livro Últimos Cantos. Apesar de ter um significado diferente no seu contexto mais amplo (a obra possui 484 versos, divididos em 10 cantos), o recorte encaixa perfeitamente na narrativa e preserva os valores indígenas.

Importante para a trama, o sábio Honorato (também chamado Boiúna), uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico, é usado pela autora para equilibrar as forças sobrenaturais e nortear o destino do personagem principal.

Noite Branca não é um terror gore, pesado ou chocante. Vale lembrar que é um material destinado ao público de várias faixas etárias e parte de uma origem baseada nas tiras de jornais e nos gibis “infantis para todas as idades”. Tanto que o clima sombrio se mistura com a aventura no seu clímax.

Outra característica oriunda da criação de Mauricio de Sousa, a nova visão de Papa-Capim também preserva a sua relação intrínseca com a natureza, tudo na arte hiper-realista de Guedes, o que distancia ainda mais do original e acentua o tom turvo.

Dentre os bons momentos de suspense, sobressaem a sequência do presságio do protagonista e a possessão de Jurema, a indiazinha que conquistou o coração do curumim.

A paleta de cor foi acertadamente distribuída em tons médios e escuros, não só para destacar o clima dark, como também para compor a metáfora de iluminação no caminho do herói nativo.

Isso não implica em dizer que as matizes são bem executadas: Guedes optou por um dégradé mais marcado e menos suavizado nas tonalidades, deixando um efeito esquisito que chega a incomodar na maioria da leitura visual. Em vez de ajudar e complementar a arte, acaba atrapalhando a harmonia das composições.

No roteiro, o que incomodou foi o personagem principal chamar pelos pais quando a aldeia é atacada pela Noite Branca. Não chega a ser um “furo”, mas em nenhum momento anterior e posterior as figuras paterna e materna do protagonista aparecem na história, o que causa estranheza.

Não obstante, Papa-Capim – Noite Branca cumpre bem o seu papel no panteão das Graphics MSP. É injusto resumir o álbum a um conto de terror. Marcela Godoy e Renato Guedes apresentam uma história que exalta diversos valores na busca do renascimento e, ao final da jornada, apontam para o parto do mito por meio de um importante processo cultural que muitos desdenham, que é a oralidade.

Classificação

4,0

.

Compre Papa-Capim – Noite Branca aqui!

• Outros artigos escritos por

.

  • d_grayson

    tenho todas as edições da coleção, mas fiquei com um pé atrás nessa quando divulgaram as primeiras artes. E, pelo que ouvi dizer de quem comprou, é ruim mesmo. Uma pena

    • Sarah Oliveira

      Não li, mas conheço várias pessoas que gostaram.

  • Essa foi a única q não comprei. Justamente pq as cores estranhas ou por vezes chapadas, beirando o amadorismo, me causaram desconforto logo no preview (os desenhos tb parecem “pobres” em certos momentos). Quanto ao roteiro, nada posso dizer, pois não li e tão pouco conheço a roteirista, mas vi q as opiniões se dividiram bastante. Q venham as próximas!!!

  • wesley

    Gostei bastante do climão sombrio proposto pela história, achei a trama bem amarrada, prendeu a atenção e foi apresentada sem atropelos. Já a arte n me cativou tanto. Na verdade n achei q ficaram muito definidas as escolhas do desenhista, mas mesmo assim recomendo a leitura. E que demora para saírem as proximas graphics gente!

  • Eu li essa. Não é bom, não. O roteiro é bem clichê e a arte parece toda feita com Prisma APP e cliparts do CorelDraw.

    Sabe, tem coisas que a gente faz que não saem exatamente do jeito que a gente queria. As causas vão de prazo, orçamento, intervenções editoriais…

    A crítica parece querer tirar leite de pedra a todo momento. Não é por aí.

  • Victor Vitório

    Aquele preview de algumas páginas já me desmotivou. Arte feia. Muito.

    Na verdade as graphics MSP já não tem me agradado há um tempo – com exceção de Lições. Laços e Magnetar foram incríveis, eu gostei de Ingá, pulei Chico Bento, Bidu, Penadinho. Muralha ainda quero ler. Singularidade foi um poço de clichês sem a profundidade da anterior. Louco foi uma decepção – idílica demais, louca de menos; apenas surrealismo e metalinguagem não foi o suficiente. Sempre achei o Louco perturbador, mas nessa HQ não há sequer sombra disso. Até mesmo a arte ímpar de Rogério Coelho parece repetitiva naquelas páginas, quem vê a capa completa já vê 80% do que o álbum tem a mostrar (achei que O Amor Pega Feito Um Bocejo foi um livro muito mais bonito do ilustrador). Ou talvez eu tenha colocado expectativa demais.

    • Andrei AD

      Das que você pulou, penadinho é a que mais apreciei pela arte e história.