Louco: 45 anos de maluquices nos quadrinhos

Por Marcus Ramone
Data: 28 agosto, 2018

Um dos mais queridos personagens da Turma da Mônica, ele foi inspirado em um artista da equipe de Mauricio de Sousa.

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Licurgo Orival Umbelino Cafiaspirino de Oliveira, o Louco, não é um sujeito fácil de lidar. Que o diga o Cebolinha, desde 1973 fazendo dupla com aquele tresloucado em histórias surreais e bizarras que deixam o garoto com os nervos à flor da pele e continuam divertindo leitores de diversas gerações.

“O Louco tem muito das loucuras dos anos 1970 e foi idealizado pelo meu irmão Marcio Araújo (falecido em 2011), que na época era roteirista dos nossos estúdios. A figura foi baseada em um dos desenhistas, o Sidnei Salustre, que está conosco até hoje. Mas é só na aparência, pois o nosso desenhista é muito certinho da cabeça”, revelou Mauricio de Sousa ao Universo HQ.

O personagem fez sua estreia em Cebolinha # 1, da Editora Abril, na aventura Uma história muito louca (republicada em 2008 pela Panini, na Turma da Mônica Coleção Histórica – Volume 1). No início, ele era apenas um coadjuvante que vivia internado em um hospício e de lá costumava fugir, invariavelmente encontrando no caminho o Cebolinha – a quem, tempos depois, passou a chamar de Cenourinha, para incontida irritação do menino.

Foi com o passar dos anos que ele começou a protagonizar histórias divertidamente estapafúrdias, sem nenhuma amarra com a lógica, logo transformadas em clássicos da Turma da Mônica e que fizeram o personagem ganhar muitos fãs declarados.

“No início, ele era louco, mesmo. O cara que ‘viajava’, imaginava coisas. A ‘piração’ estava na cabeça dele. Hoje, cada roteirista tem a sua visão. Alguns optam pelo estilo da metalinguagem, como nas historinhas do Bidu. Algo como… de uma hora para outra chove elefantes e números jogam futebol. Mas é a visão de cada um. O Louco tradicional ainda existe. Ultimamente, têm sido feitas muitas histórias nesse estilo que ainda não foram publicadas”, disse Mauricio de Sousa.

É preciso ter um parafuso a menos para conceber tanta maluquice? O criador da Turma da Mônica diz que a tarefa é mais árdua do que parece.

“Apesar de, aparentemente, ser fácil fazer uma HQ nonsense, amalucada, não é assim com o Louco. Tem que haver um determinado ritmo, uma sequência de ações e reações, como um remoinho, sem saída para quem está ao lado dele – é o que acontece com o Cebolinha, geralmente. Marcio contava que nos primeiros tempos era comum ele começar uma história e ela já ir para a arte-final, mesmo antes que o roteiro estivesse totalmente pronto. A história era viva, desenrolava-se à medida que a revista tinha necessidade de mais algumas páginas”, afirmou.

Sidnei Salustre

O roteirista Paulo Back, que já criou algumas aventuras do personagem, tem a mesma opinião. “Não é fácil escrever historias do Louco. Tem que ter aquela pitada de nonsense, mas sem soar falso ou previsível. É começar a escrever a história e deixar ela mesma se encaminhar. Você não sabe como ou quando ela vai acabar”.

Durante essas mais de quatro décadas, Louco passou por outras transformações, além da mudança de estilo dos roteiros nas suas histórias. O visual, antes mais fiel a quem lhe serviu de inspiração, acompanhou o traço mais “rechonchudo” das outras criações da Turma da Mônica e, na área do politicamente correto, não escapou de se adaptar aos novos tempos. “Por precaução e respeito, ele agora não pula mais do muro para fugir de alguma clínica, não mora num hospício e não termina as historinhas amarrado numa camisa de força, como acontecia antigamente”, explica Mauricio de Sousa.

Além de, desde 2011, ser título de um almanaque periódico, Louco já protagonizou quatro edições da Coleção Um Tema Só, pela Editora Globo; esteve presente nos especiais de luxo MSP50 (2009) e Ouro da Casa (2012); estrelou uma edição do selo Graphic MSP, Louco – Fuga (2015), e foi importante e indispensável para a trama do álbum de figurinhas em forma de quadrinhos A Volta do Capitão Feio (2005). E ainda tem participado de alguns desenhos animados, mostrando que seu potencial não se resume apenas às páginas das HQs.

Almanaque do LoucoLouco na Turma da Mônica Jovem

Louco continua fazendo suas aparições nos gibis mensais da garotada do Bairro do Limoeiro. Mais que isso, ele apareceu algumas vezes bem sóbrio na série Turma da Mônica Jovem, na qual virou professor de uma escola e não fez nada que lembrasse os velhos e malucos tempos.

Isso poderia ser a confirmação do que apregoa uma “teoria conspiratória” surgida por aí? Mauricio de Sousa garante que não: “Alguns ousaram duvidar de sua existência real. O Louco seria uma ilusão criada pelo Cebolinha, talvez de tanto o garoto levar coelhadas. Mas essa versão é derrubada pela presença dele em historias de outros personagens.”

Esses fãs são mesmo malucos.

Marcus Ramone confessa que tinha medo do Louco quando era criança.

Louco - Fuga

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  • Enoch

    Um dos personagens mais interessantes da Turma da Mônica. Eu tb gostava do Penadinho e seus amigos.

  • Rogerio Araujo Ferreira

    O louco sempre foi um dos meus personagens favoritos junto com o bugu he he.

    • Natanael Floripes

      Sempre odiei os dois. rsrs

      Aliás, eu tinha até esquecido que existia esse purgante chamado Bugu. Por que eu fui ler esse seu comentário?

      • Rogerio Araujo Ferreira

        kkkkkkkk
        as histórias dos dois tinham aquele ar surrealista non sense total, era por isso que gostava, eram fora da caixinha.

  • Sílvio Raimundo da Silva

    Sabe, essa parada do “rechonchudo” ou arredondadinhos, que o Estúdio incorporou aos personagens, deixaram-nos chatos ou pouco interessantes, juntando a isso o politicamente correto que tomou conta do País (não se aplica aos políticos) as revistinhas ficaram tediosas. Graças a Deus que vieram as Graphics MSP para salvar.

    • João Dôu

      Ou talvez você não seja mais o público-alvo das histórias. A gente cresce e precisa abrir mão do que não nos serve mais.

      • Henrique Brum

        não precisa ser publico alvo…qualquer um pode avaliar qualidade de um produto infantil…claramente tem produto ruim e produto bom. Vendo a coleção histórica não estou vendo historias que já conhecia ou sendo levado por nostalgia…estou lendo historias inéditas pra mim e gostando bastante, ao mesmo tempo que pego uma revista atual e acho fraquíssima. Acho a queda de qualidade bem evidente.

      • Dyel Dimmestri

        Aí é que o amigo se engana… Certa feita, alguém, cujo nome não me lembro, disse uma grande verdade: Não existe um público mais exigente do que o público infantil!! Se eles gostam, está ótimo;se eles não gostam, não tem conversa!! Pode até não parecer, mas as crianças são dotadas de um forte senso crítico, além de possuirem algo que os adultos não têm: SINCERIDADE. O problema é que muitas pessoas acham que as crianças aceitam qualquer coisa, e acabam cometendo o erro fatal de confundir “INFANTIL” com “IMBECIL”.

        • Reyderson Reis

          Comentário perfeito. Minha filha de 4 anos é um grande exemplo disso que você falou. Se ela gosta, adora, se não gosta, odeia. E fala na lata.

      • Sílvio Raimundo da Silva

        Oi João!
        De fato não sou mais o público alvo, mas, as histórias e mais ainda o arredondamento dos personagens, é que me fizeram deixar de ser e não o contrário, como você sugere. Se vc comparar o que hj é feito em relação ao que antes o era, pô, caiu muito, mas muito mesmo. A diferença é gritante, mas isso é o sinal dos tempos mesmo, os roteiristas têm que falar da atualidade e considerar o “politicamente correto” o que limita em muito o que se pode escrever. Mas, vamos fazer outra comparação: Vamos pegar os personagens Disney, eles também estão dentro do politicamente correto, contudo, eu ainda me divirto lendo-os, isso porque há uma diversificação de desenhistas que podem deixar os seus estilos bem evidenciados e tudo bem. Diferente do Estúdio do Maurício, que é uma “linha de produção” com todos os personagens iguaizinhos independente de quem os desenhe, a Disney, seja italiana, holandesa, brasileira, dão liberdade aos seus desenhistas e assim temos de fato arte livre para nos deliciar. Como falei antes, estou consumindo as Graphics MSP e estou adorando, pois ali sim, temos liberdade artística. Abração!

    • Henrique Brum

      tb acho as antigas melhores, a Coleção Histórica foi ótima pro resgate delas. Gosto tanto dos anos 70/80 quando elas eram mais fantasiosas, com duendes, demônios e cia, quanto dos anos 90 que eram crianças mais comuns, com historias que eu me identificava bastante. O pior das atuais acho que são roteiros que os personagens sabem que são personagens, falando com roteiristas ou coisas do tipo. Nunca gostei disso e foi ficando cada vez mais comum. Humor hoje em dia está muito fraco, essa queda de qualidade é bem visível em Simpsons, filmes e outras publicações tb.

    • Eugênio Furtado

      Até as cores das revistas antigas eram melhores, principalmente as da época da Abril!

      • Sílvio Raimundo da Silva

        O pior é que vc tem toda razão, Eugênio, as cores tinham mais brilho, ou algo assim. Tenho um monte de exemplares antigos do Pelezinho e isso é nitidamente visível

  • Henrique Brum

    o louco da época que eu lia lembrava o Mascara do Jim Carrey….surgiam objetos, criava mundos…gosto tb da versão do Msp 50 onde só o cebolinha vê ele…fica um personagem meio magico mesmo. Turma da Monica é espetacular como tudo funciona. Podem entrar em contos de fada, podem aparecer super-heróis, vilões, anjos, demônios, ao msm tempo que pode ser historias de cotidiano. Nada parece fora de lugar, é tudo natural pra turminha. Que os roteiristas consigam manter a magia das historias antigas. Vida longa ao Mestre Mauricio.

  • Que venham muitos mais 45 anos de loucuras!!!

  • Personagem muito bacana!! A Graphic MSP dele está na minha lista de compras. Quero demais!

    • Sílvio Raimundo da Silva

      Cara, pode comprar sem medo. É uma das melhores GMSP de toda a série. Ela foi concebida de uma maneira lúdica belíssima, o que combinou à perfeição com as características do Louco